Caros irmãos em Cristo,

Na recente visita que efetuei à República Centro Africana, uma coisa que me impressionou, quando entrei na Capela do Campo onde estão as nossas Forças destacadas e onde celebrei a Eucaristia, foi encontrar, na parede correspondente ao altar-mor, duas grandes imagens que se impunham: a Última Ceia e a imagem de São João Paulo II. Última Ceia que nos reenvia para a Eucaristia; São João Paulo II que nos remete para o Sacerdócio.

Impressionou-me porque, quando um militar se retira na solidão deste pequeno templo, junto de Cristo Senhor, em busca de luz, conforto ou alguma explicação para os enigmas da vida, recebe como resposta e como prova da sua bondade os dons do Seu amor inefável, ou seja, a Eucaristia e o Sacerdócio. De facto, são a encarnação viva e concreta da sua presença no meio de nós.

A Eucaristia é a perpétua celebração da Páscoa eterna, da passagem de Cristo para o Pai e, em Cristo, de tudo e de todos para a eternidade. Por isso, toda a Eucaristia celebrada nos faz penetrar na Glória de Deus. É n’Ela que a criatura, em união com Cristo, vive a superação da sua condição histórica, realizando a sua vocação para entrar na Comunhão com o Pai, no Espírito Santo. É este mistério que torna a Eucaristia atrativa e fascinante, ao mesmo tempo que confere significado à vida e missão do sacerdote. Este é, antes de mais e em primeiro lugar, aquele que em Cristo celebra a santa Eucaristia. E ao fazê-lo, torna-se mediador e ponte, permitindo à comunidade reunida em torno do altar a passagem para a Eternidade do Pai, ainda que permanecendo momentaneamente cidadã do tempo e da história. O fascínio exercido pela Eucaristia e pelo Sacerdócio reside precisamente nesta capacidade inerente de ser força transbordante, capaz de transportar uma simples criatura e de a fazer entrar na própria vida de Deus. Não esqueçamos, caros capelães, que esta é a nossa marca: ser pontes que promovem a passagem do tempo para a eternidade; que permitem que o povo que nos é confiado encontre no seio desta vida a ebriedade da Vida de Deus. Nenhum esforço e nenhuma ação nos realizará tanto como sacerdotes quanto essa comunhão com Deus que, através da nossa ação, se torna efetiva para o povo. Mas esta missão só é possível a quem a vive: tal como nos é permitida a comunhão com Deus em função da comunhão do Sumo e Eterno Sacerdote Jesus Cristo com o Pai, assim também será na vida de comunhão de cada um que aos outros é favorecida a comunhão com Cristo e com o Pai.

Por isso, peçamos ao Senhor que, exatamente na medida em que somos padres, nos mantenha na alegria de estarmos perfeitamente conscientes de sermos dons do seu amor para a humanidade. Que Ele garanta, enquanto homens chamados e constituídos sacramento do Seu amor para todos os que vagueiam nas encruzilhadas da vida, sermos sempre dignos da Sua confiança para connosco. Apraz-me contemplar a abertura que vigora na alma da nossa gente para ver num simples padre a concretização real da Bondade do Senhor. Tal como a imagem do Santo Padre estava fixada na parede do altar daquela Capela, acredito que também o Capelão estará bem preso na admiração e estima da sua gente.

Mas a Eucaristia e o Sacerdócio também nos remetem para uma totalidade, para um sentido de plenitude próprio da vida da nova economia instaurada por Cristo. Ele é o Cordeiro, o Sacerdote e o Altar. O Evangelho é testemunho feliz do caráter absoluto que carateriza tanto a vida de Cristo, como a vida de quem o segue. Ele nunca envereda pela prática da parcialidade; deu-se todo a nós e por nós, não uma parte fragmentada de si. Prova disso é que, na Eucaristia, nos oferece o Seu Corpo e o Seu Sangue. No exercício do seu ministério de cuidado, nunca curava só a doença física da pessoa, também as suas enfermidades espirituais. E ele não veio só para os filhos perdidos da Casa de Israel, mas veio para que todos se salvem. Temos aqui, caros irmãos no sacerdócio, uma fonte inspiradora que nos ajuda a estruturar o nosso apostolado. Que sejamos sacerdotes plenamente. A tempo inteiro, por Cristo e pelos irmãos. Não queiramos viver segundo meias medidas, ser sacerdotes mas só parcialmente. Nunca queiramos pôr em disputa o tempo para Cristo e para o povo e o tempo para nós… Como Cristo, sacerdotes em plenitude e na totalidade.

O Evangelho escutado apresentava Jesus numa típica ação profética, a proclamar, na Sinagoga de Nazaré, o centro da sua missão:
«O Espírito do Senhor me ungiu
para anunciar a Boa-Nova aos pobres;
enviou-me a proclamar a libertação aos cativos
a levar a vista aos cegos,
a restituir a liberdade aos oprimidos,
a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.»

A própria vida de Jesus, sintetizada nesses tão ardentes verbos de ação, revelam-nos Alguém que vive para servir. O centro de gravidade da Sua Vida e Missão são os outros. Durante a Última Ceia, Jesus deixou-nos a gramática da sua morte cruel. Não, não foi o sucumbir ao destino irrevogável decretado pelos poderosos deste mundo. Jesus fez da sua morte o ápice da sua vida. Uma vida expendida em favor dos outros. Ele não se anunciou a si próprio, mas proclamou o Reino do Pai; nem agiu em vista de si próprio, mas sempre em vista da humanidade. A sua existência foi uma pró-existência, viver-para-os-outros.

Desde sempre que a beleza de o sacerdote ser chamado a fazer da sua vida uma doação e entrega exerceu grande fascínio e, ao mesmo tempo, perplexidade na vida sacerdotal. Esquecido de si, o sacerdote vive em Cristo para o Pai e para os irmãos. É tão triste, pois, quando esse mesmo sacerdote cai na tentação de se entregar ao efémero; de viver apegado às coisas que reduzem qualquer homem ao nível da mediocridade e da pequenez.

Convido, pois, cada um de nós a deixar-se habitar pelo mesmo Espírito que ungiu e conduziu Jesus de Nazaré, o Messias. É Ele que nos habilita para a Missão e nos configura com Cristo, plasmando a nossa vida de acordo com a sua vida de entrega e doação.

Hoje é o dia que nos deve encontrar ocupados na recriação interior das mesmas condições e circunstâncias do Cenáculo, esse lugar da descida e infusão do Espírito Santo.

a) O Novo Testamento é concorde em sublinhar que a vinda do Espírito Santo tem sempre um caráter eclesial e comunitário. Desde o Jordão ao Cenáculo, existe uma clara referência à importância do estar juntos e unidos. “Quando chegou o dia de Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar”, lê-se nos Atos dos Apóstolos. Estar em comunhão, não é só em ordem a colmatar o testemunho da unidade da mesma fé, mas um requisito para atrair o Espírito de Cristo Ressuscitado. Só a unidade faz existir Pentecostes. Também a unidade do corpo eclesial é em ordem à vinda e presença do Espírito Santo. Ele nos ungiu, Ele nos abre e move ao anúncio do Amor. Recordemos a famosa frase de Atenágoras: “Sem o Espírito: Deus está longe, Cristo permanece no passado, o Evangelho é letra morta, a Igreja uma simples organização, a Autoridade uma dominação, a Missão é propaganda, o Culto uma velharia e o agir cristão uma obra de escravos.”

b) Uma segunda caraterística relativa ao Espírito Santo é o facto de ele refletir a Sua estrita ligação à própria pessoa de Cristo. Cristo é o grande e fundamental mobilizador do Espírito: em vista de Cristo, o Espírito desce sobre Maria; é em ordem à Sua missão messiânica de Redentor que o Espírito vem sobre Si no Batismo no Jordão; e os apóstolos receberam o Espírito quando estavam reunidos no Cenáculo, esse lugar de fortes referências a Cristo, e aí viveram com Ele momentos e experiências de grande intensidade. Portanto, só quando Cristo é a razão de ser do que somos e fazemos nos predispomos a ser destinatários do Seu Espírito.

Que o Senhor nos abra o coração aos dons do Espírito e nos reforce a vontade de lhe sermos fiéis, a fim de vivermos em função das necessidades espirituais do povo de Deus que nos foi confiado, promovendo a sua dignidade humana e a sua vocação para a santidade.

D. Rui Valério, bispo das Forças Armadas e de Segurança

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