Homilia de D. Rui Valério na Missa Crismal

1. «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou» (Lc 4, 18; cf. Is 61, 1). Excelentíssimos Senhores Bispos, caríssimos irmãos no sacerdócio, queridos diáconos, seminaristas, religiosas e religiosos, estimados irmãos e irmãs em Cristo: Nesta manhã luminosa de Quinta-feira Santa, a Igreja reúne-nos e reconduz-nos à sinagoga de Nazaré. Ali, escutamos novamente Cristo, que, com palavras do profeta, revela a sua missão – e, ao mesmo tempo, revela a missão dos que somos chamados ao sacerdócio.

Hoje, no coração da Semana Santa, recordamos a instituição do sacerdócio. Recordamos que fomos ungidos – não com um óleo qualquer – mas com o óleo da alegria e da consagração, o óleo que nos configura a Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei.

A consagração e bênção dos santos óleos que hoje celebramos é mais do que um rito: é o sinal visível de uma realidade invisível e permanente – fomos inseridos na própria missão do Ungido. Fomos tomados por Deus para sermos servidores da salvação no meio do seu povo.

2. A Palavra de Isaías, assumida por Jesus, indica com clareza o destino do nosso envio: os pobres, os cativos, os corações atribulados, os oprimidos (cf. Is 61, 1-2; Lc 4, 18-19). Não se trata de uma missão genérica ou abstrata. Trata-se de uma entrega concreta, existencial, total.

A vocação sacerdotal não nasce de uma ideia, nem de um projeto pessoal. Nasce de uma iniciativa divina. Fomos escolhidos, chamados, enviados. Não somos porta-vozes de uma sabedoria humana, mas testemunhas de uma misericórdia que nos precede.

Somos sinais de um amor que procura todos, que não exclui ninguém, que quer conduzir cada homem e cada mulher à comunhão com Deus. E aqui, irmãos, é decisivo recordar: não somos enviados isoladamente, mas como membros de um corpo, como ministros de uma Igreja, como servidores da comunhão.

3. Cada sacerdote é chamado a tornar visível o invisível. Pela Palavra e pelos sacramentos, tornamos presente Aquele que nunca está ausente. Não somos meros executores de ritos: somos celebrantes da salvação. Sim, transformamos o pão em Corpo de Cristo. Mas somos também chamados a dar aos outros – sobretudo aos pobres, aos feridos, aos esquecidos – o rosto de Cristo.

Ser sacerdote do quotidiano é viver com os pés na terra e o coração no céu. É resgatar o tempo da sua banalidade e abri-lo à eternidade. É fazer com que, onde estamos, ali esteja Cristo. Cada Eucaristia é Cenáculo. Cada confissão é Ressurreição. Cada encontro com um doente é encontro com o Crucificado.

Mas esta grandeza exige coerência. Quando um sacerdote não vive aquilo que celebra, fere o coração da Igreja. Quando se fecha sobre si mesmo, quando se torna autorreferencial, quando perde o sentido da missão, obscurece o rosto de Cristo que é chamado a revelar. E mais ainda: fere a unidade da Igreja.

Irmãos, o sacerdote não é proprietário do seu ministério. É servidor de um povo, é homem de comunhão, é construtor de unidade. O seu coração deve ser moldado pela Igreja – pensar com a Igreja, sentir com a Igreja, amar com a Igreja. Num tempo de fragmentação, de polarização e de divisão, o sacerdote é chamado a ser ponte, nunca muro; vínculo, nunca rutura; comunhão, nunca divisão.

A fidelidade sacerdotal não é apenas uma virtude pessoal: é um serviço essencial à unidade do Corpo de Cristo. É necessário, sempre, recuperar o sentido de Igreja, sermos e vivermos como membros de Cristo e membros uns dos outros.

4. A nossa identidade não se reduz a uma função. É um ser. É uma forma de viver. Fomos escolhidos desde o seio materno. Fomos pensados por Deus. Fomos preparados para sermos inteiramente d’Ele. O nosso coração só será verdadeiramente feliz quando se entregar totalmente, quando se consumir, como o Cordeiro, no altar da Cruz. Por isso, ao renovarmos hoje as promessas sacerdotais, renovamos mais do que palavras: renovamos o nosso coração. Voltamos ao primeiro amor (cf. Ap 2, 4-5). Voltamos ao olhar de Cristo que nos chamou. Voltamos ao Cenáculo. Voltamos à origem.

E pedimos, com humildade e verdade: Senhor, renova em mim a alegria da tua unção! Senhor, reacende em mim o fogo do teu amor! Senhor, envia-me de novo – com mais ardor, com mais entrega, com maior fidelidade!

5. E dirijo-me agora, em particular, aos jovens: Olhai para o vosso coração. Escutai-o em verdade. Colocai-o diante de Deus. Perguntai-vos: não terá Deus colocado em mim um coração sacerdotal? Um coração que só encontra alegria na entrega total?

O coração sacerdotal é um coração como o de Cristo. Do Coração de Jesus brota sangue e água. Do coração do sacerdote brota disponibilidade, serviço, doação. Disponibilidade para celebrar, para perdoar, para acompanhar, para visitar, para servir. Mas, antes de tudo, disponibilidade para ser: ser de Deus, ser da Igreja, ser presença de Cristo no mundo.

Não tenhais medo. Cristo chama-vos. A Igreja precisa de vós. O mundo tem sede de Deus!

6. Irmãos sacerdotes, não nos cansemos de ser pastores próximos. Sejamos homens de comunhão. Homens de unidade. Homens da Igreja. Que o povo de Deus encontre em nós não técnicos do sagrado, mas homens configurados a Cristo, apaixonados pelo Evangelho e fiéis à Igreja. Que se diga de nós: ali vai um padre – homem de Deus, homem da Igreja, homem para os outros.

O Coração de Cristo permanece aberto. Dele brotam o Crisma que unge, a Eucaristia que alimenta, o perdão que cura. Que também o nosso coração seja assim: aberto, disponível, entregue, fecundo. E confiemo-nos a Maria, Mãe dos sacerdotes. Que Ela nos ensine a permanecer ao pé da Cruz. Que nos ensine a viver na comunhão. Que nos guarde no amor da Igreja.

Amados irmãos, renove-se hoje em nós a unção. Renasça em nós o ardor. Fortaleça-se em nós a comunhão. Avancemos, com alegria e humildade, para a Páscoa de Cristo. Ele vive. Ele chama. Ele envia. Ámen.

+Rui, Patriarca de Lisboa

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