Em todo o mundo a Igreja celebra hoje, com toda a solenidade e veneração, duas das suas grandes colunas: os apóstolos S. Pedro e São Paulo. Embora se trate de dois homens imensamente diferentes, a verdade é que a complementaridade das suas vidas, das suas personalidades e das suas sensibilidades permitiram à Igreja nascente a consolidação da sua identidade à luz da pessoa de Cristo e da missão evangelizadora dos cristãos.

Embora nos reunamos hoje aqui para venerar o Apóstolo São Pedro enquanto Padroeiro da nossa cidade de Évora, recordo que a liturgia deste dia propõe-nos que o veneremos simultaneamente com o Apóstolo São Paulo já que, tal como refere o prefácio da Missa, «ambos trabalharam, cada um segundo a sua graça, para formar a única família de Cristo». Assim sendo, o nosso olhar sobre o dia de hoje destaca-se sobretudo na identidade da Igreja de Cristo a partir da complementaridade humana destes dois grandes apóstolos.

É precisamente nesta dimensão identitária da Igreja que vos convido a reflectir no dia de hoje. Partindo do Evangelho que acabámos de escutar e fixando a nossa atenção nas duas grandes perguntas que Jesus dirige aos Apóstolos, começo por distinguir a diferenciação que Nosso Senhor pretende evidenciar: a opinião dos homens e do mundo é e tem de ser diferente da opinião dos Apóstolos. A primeira pergunta, “quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”, tem como base uma referência sempre na terceira pessoa, fazendo notar uma realidade meramente conceptual do Messias esperado e a realidade interpretada superficialmente por aqueles que pouco conhecem da pessoa de Cristo. Portanto, as diferentes interpretações que os homens de então faziam de Cristo resumidas nas respostas dos discípulos demonstram a distância entre o conceito e a experiência, ambos distantes de um conhecimento experiencial que possa permitir o conhecimento da identidade do Filho do Homem. Em contrapartida, a resposta de Pedro é bem diferente, não só porque Pedro e os apóstolos desenvolvem conceptualmente uma compreensão de Jesus a partir da sua experiência pessoal e de intimidade com o Senhor, mas também porque a própria pergunta de Jesus é reveladora do seu mistério: “E vós, quem dizeis que Eu Sou?”. Para Jesus, não importa quem dizem os homens quem Ele é, mas sim se os discípulos sabem, conhecem e têm experiência de quem Ele é. Aos apóstolos compete saber quem é realmente o Senhor, o que apreendem do Seu Ser, o que alcançam da realidade de quem é, implicando simultaneamente a dimensão experimental e a dimensão conceptual. Neste dinamismo do conhecimento de Cristo, importa ter em conta que a certeira resposta de Pedro é fruto da complementaridade do uso da razão e do coração no dia-a-dia com o Divino Mestre. O acompanhamento diário e constante do Mestre permite a estes homens que o seguimento de Cristo ultrapasse as limitações do coração, mas também os que bloqueiem a hegemonia da razão.

É a partir da experiência da intimidade, do estar com Jesus, de ouvir, de fixar o olhar nos seus gestos e nas suas expressões, que permite aos discípulos saberem quem Ele é. Sem intimidade, sem a confiança profunda de quem estava lado a lado com o Senhor, os discípulos jamais saberiam quem Jesus realmente era, e por consequência a sua resposta seria equivalente à dos outros homens, circunscrita à esfera da opinião. Curiosamente, o Senhor acrescenta que não é a carne nem o sangue que permitem a Pedro responder convictamente “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. O conhecimento dos apóstolos não se reduz a um factor étnico, cultural ou familiar, mas sim ao factor da Graça que actua na vida destes homens e que, simultaneamente, é acolhida nos seus corações.

A realidade do novo Israel que é Igreja é precisamente lida à luz do Evangelho que acabámos de escutar. Igreja essa que, no hoje e no agora das nossas vidas, caminha nesta cidade e neste Alentejo e Ribatejo à luz do testemunho eloquente do seu Padroeiro que hoje veneramos. Tendo em conta a teologia que S. Paulo apresenta sobre a Igreja, sabemos que a realidade do que somos enquanto tal é sobretudo um Mistério, onde a comunidade crente dos baptizados se deixa configurar com o mistério da comunhão de Deus Uno e Trino, em torno do banquete do Sacrifício incruento e amoroso de Jesus. A Igreja, sendo santa porque é corpo místico de Cristo, mergulha-nos diariamente nesta vida divina, sobretudo pelos sacramentos, de modo a progressivamente conhecermos mais perfeitamente o Mistério de Cristo. Como tal, embora devamos saber quem dizem os homens que Cristo é, creio que urge nos tempos de hoje que os cristãos saibam quem é o Seu Senhor.

Os meios que a Santa Mãe Igreja nos apresenta e nos possibilita são mais que suficientes para sabermos e para aprofundarmos o Mistério da Pessoa de Cristo. No entanto, partindo da Exortação Apostólica Gaudete et Exultate do Papa Francisco, alerto para o facto de os tempos actuais serem demasiadamente extremistas, chegando ao ponto de alguns reduzirem a experiência da Fé a ritos estritamente físicos e a práticas pelagianas, e outros a espoliarem o tesouro do Magistério e da Tradição em gnosticismos e discursos poéticos vazios de conteúdo. Estamos em tempos perigosos em que muitos cristãos leigos e muitos cristãos clérigos acentuam uma dimensão em prejuízo da outra, evidenciando não só um problema de identidade cristã, mas sobretudo um problema de conhecimento real e autêntico da identidade de Cristo.

A pergunta de Jesus aos apóstolos ecoa hoje nos nossos corações, porque somos nós a comunidade dos discípulos do ano 2020. “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Antes de podermos dar uma resposta, devemos saber o caminho e método para poder responder ao Senhor. Na verdade, o Senhor é o Emanuel, o Deus connosco, que pela incarnação veio habitar e estabelecer morada connosco, que se faz nosso alimento na Eucaristia e, portanto, que nos assume plenamente na nossa condição, excepto no pecado. Assim sendo, tendo o Senhor tão perto de nós, cabe-nos saber que o segredo para sabermos que Ele é passa pela intimidade com Ele nos meios que Ele tem à nossa disposição. Através dos sacramentos bebemos da fonte viva da salvação de Deus, pela Sagrada Escritura interiorizamos o que o Senhor nos diz e como nos ilumina a vida, pela caridade purificamo-nos à luz do mandamento do Amor e pelo amor à Igreja, aprendemos desta Mãe a ser Filhos do mesmo Pai. Esta é a realidade da Igreja, cuja identidade foi legada por Cristo e zelosamente transmitida pelos apóstolos e pelos cristãos de todos os tempos. Como tal, exorto-vos a aprofundar a vossa experiência sobre Cristo e sobre a sua Igreja que subsiste na Igreja Católica, como nos indica o Sagrado Concílio. A nossa identidade enquanto católicos não tem de ser refundada, mas sim relida e sempre aprofundada. Só o egocentrismo e a autossuficiência poderão levar alguém a sentir-se e a achar-se com autoridade para ditar uma nova configuração à Igreja de Cristo, e só a falta de amor ao próprio Cristo poderão explicar gestos narcisistas e autistas de leigos e clérigos capazes de se intitularem em nome de Cristo, prescindindo da Igreja e do Pedro dos nossos dias, ou sendo mesmo contra a Igreja e o Pedro que o Espírito Santo nos assinalou em Francisco.

A identidade de Cristo é aferida na Sua Igreja, sobretudo na sua experiência orante e de caridade, tendo Pedro como seu princípio de unidade. Esta unidade da Igreja em torno do príncipe dos apóstolos faz-nos olhar para o tesouro do magistério pontifício que nos ensina onde e como encontrar o Senhor para o verdadeiramente o conhecermos. Sabemos que o Mistério da Sua vida revela-nos uma identidade continuamente em contradição com o mundo, daí o meu apelo como Pastor, de modo a que cada cristão possa perceber que o Cristo concebido ou esperado pelo mundo está distante do Cristo que se revela ao homem crente. Somos discípulos do crucificado e as certezas que temos na vida poderão passar pelo testemunho, tal como escutámos na leitura dos Actos dos Apóstolos. Aliás, olhando o mundo que nasce desta Pandemia, assistimos lamentavelmente a erros e intolerâncias que em tempos passados conduziram o mundo para abismos de morte e sofrimento humano e fizeram que a Igreja vivesse na perseguição e no martírio dos seus cristãos, como seja a falta de memória histórica e a supressão das grandes referências do passado, em suma, o poder global, asfixiante das realidades identitárias de cada cultura e de cada Povo.

Queridos irmãos, se a riqueza de Évora encontra destaque nos seus monumentos e nas suas gentes, não podemos ignorar o facto de esta cidade monumental assentar a realidade do que foi e do que é num dinamismo que a desenvolveu ao longo dos séculos e que lhe legou o património que hoje a é. Esse dinamismo é precisamente a Fé cristã, realidade presente desde os inícios da Igreja e legada geração após geração, mesmo quando os ventos do mundo e do poder eram contrários ou perseguidores do nome e da pessoa de Cristo. A fidelidade dos eborenses à sua Fé justifica-se sobretudo pela graça de Deus e pela excelência humana, embora seja importante referir que a mesma cidade assenta sobre o testemunho e a intercessão daquele que foi outrora escolhido como seu Padroeiro: o Apóstolo São Pedro. É à imitação de São Pedro que nos confiamos neste dia de festa para a nossa cidade, pedindo não só que nos auxilie e nos afaste dos grilhões da Pandemia que nos ameaça, mas sobretudo que seja para nós modelo e intercessor de uma fé verdadeiramente aprofundada no Mistério de Cristo e da sua Igreja. Que, pela intercessão de S. Pedro, a nossa identidade de cristãos se plasme na identidade daquele que é o Cristo, o Filho de Deus vivo.

+ Francisco José Senra Coelho, Arcebispo de Évora

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