«A paz esteja convosco!» (Jo 20, 19.21)
A paz e a bondade desarmam o coração do homem
Irmãos e irmãs, queridos sacerdotes,
Celebrar a Páscoa é sempre entrar na novidade de Deus, que não se repete e que nos surpreende. Por isso, também esta Missa Crismal deve ser vivida como um momento único, irrepetível, onde cada um de nós é chamado a reencontrar o sentido mais profundo da sua vocação e do seu ministério, no coração da Igreja e ao serviço do Povo de Deus.
Reunidos como presbitério, diante das comunidades que nos conhecem e acompanham, reconhecemos que a nossa identidade nasce desta unção que hoje celebramos. Como nos recorda o profeta Isaías, “o Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos infelizes”, a cuidar dos corações feridos e a levar o óleo da alegria àqueles que vivem mergulhados no luto. E é ainda o mesmo profeta que nos lembra quem somos: “Sereis chamados sacerdotes do Senhor, ministros do nosso Deus”.
Esta Palavra não descreve apenas uma missão genérica; define a nossa vida. Não somos sacerdotes por função, mas por unção. Não somos enviados para nós próprios, mas para os outros — sobretudo para aqueles que mais precisam de esperança, de proximidade e de sentido.
É por isso que o Evangelho de Lucas ganha hoje uma densidade particular, quando Jesus, na sinagoga de Nazaré, proclama esta mesma passagem e afirma: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”. Este “hoje” de Jesus prolonga-se no nosso hoje. Através da nossa vida, da nossa palavra e da nossa presença, esta Escritura continua a cumprir-se na história concreta das pessoas que nos são confiadas.
Mas este “cumprimento” não é automático. Exige de nós uma disponibilidade interior, uma coerência de vida e uma capacidade real de nos deixarmos tocar pelas situações humanas que encontramos.
Num mundo profundamente marcado pela violência, pela guerra e pela insegurança — onde tantos continuam privados da possibilidade de viver a fé em paz — ressoa com ainda maior urgência a saudação do Ressuscitado: “A paz esteja convosco”. Esta paz, como nos recorda o Papa Leão XIV, não é frágil nem superficial; é uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante, que nasce do amor incondicional de Deus e que se torna credível quando encontra testemunhas.
É aqui que a nossa vida sacerdotal se torna decisiva. Somos, de facto, homens que levam esta paz? A nossa presença aproxima ou afasta? As nossas palavras constroem ou ferem? A nossa ação pastoral liberta e consola, ou corre o risco de se tornar distante e funcional?
Neste contexto, quero deixar-vos um apelo muito concreto, que brota diretamente da Palavra que escutámos: que a nossa ação pastoral tenha uma atenção renovada e cuidada à doença, à morte e ao luto. São momentos onde a vida se revela na sua maior fragilidade e onde a presença da Igreja não pode faltar. Somos ungidos para estar, para escutar, para acompanhar e para consolar. Nem sempre teremos respostas, mas somos sempre chamados a oferecer presença — uma presença que, quando é verdadeira, se torna sinal de esperança e expressão da ternura de Deus.
E hoje, nesta celebração, contemplamos também um sinal muito concreto desta missão: os santos óleos que serão abençoados e consagrados. Eles não permanecerão aqui. Como um rio que brota desta catedral, irão correr por toda a diocese, levados pelas mãos de cada um de vós, até chegarem ao encontro de cada irmão e de cada irmã que será ungido. No Batismo, na Confirmação, na Ordem, na Unção dos Doentes — estes óleos serão sinal da presença de Deus que toca, cura, fortalece e envia. E, através deles, é a própria Igreja que se faz próxima, que entra na vida concreta das pessoas, que não abandona ninguém.
Ao mesmo tempo, esta celebração convida-nos a olhar uns para os outros, como presbitério, com gratidão e com responsabilidade. Por isso, permiti-me dizer, com simplicidade e verdade: obrigado. Obrigado pelo vosso ministério fiel ao longo deste último ano, pela Eucaristia celebrada diariamente, pela Palavra anunciada com dedicação, pela proximidade concreta às pessoas nas suas alegrias e nas suas dores.
Quero também, de modo muito particular, expressar a minha gratidão e assegurar a minha oração pelos párocos e pelas comunidades que já receberam a Visita Pastoral. Esses momentos têm sido, para mim, uma verdadeira graça: oportunidade de encontro, de escuta e de confirmação na fé. A todos vós, obrigado pelo acolhimento, pela disponibilidade e pelo testemunho de vida cristã que tendes oferecido.
Neste contexto de ação de graças, reconhecemos com alegria os nossos irmãos Padres Álvaro Lago, Francisco Mendes e João Rosa, que celebram este ano as suas bodas de prata sacerdotais. O seu percurso de 25 anos de ministério é um sinal concreto de fidelidade e um testemunho que encoraja todo o presbitério.
Mas esta gratidão não nos impede de reconhecer que há também fragilidades, cansaços e momentos de crise. Por isso, acolhemos como nossa a intenção que nos propõe o Santo Padre Leão XIV: “Rezemos pelos sacerdotes que atravessam momentos de crise na sua vocação, para que encontrem o acompanhamento necessário e para que as comunidades os apoiem com compreensão e oração.” Esta é também uma responsabilidade de todos nós: cuidar uns dos outros, com verdade, proximidade e caridade.
Assim, ao regressarmos às nossas comunidades, levamos connosco não apenas um conjunto de tarefas, mas uma identidade renovada. O mundo não espera de nós discursos perfeitos, mas testemunhos credíveis. Espera encontrar em nós homens que vivem aquilo que anunciam.
Neste ano de Páscoa de 2026, aquilo que temos para oferecer — às nossas comunidades, às nossas famílias, ao mundo — é, em última análise, a paz de Cristo Ressuscitado. Uma paz que não se impõe, mas se propõe; que não se explica apenas, mas se vive; que não fica em nós, mas passa através de nós.
Irmãos, não tenhamos medo de viver à altura desta unção.
Cristo está vivo. E continua a dizer-nos, hoje e sempre: “A paz esteja convosco.” Amén.
+ Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal
