Paulo Rocha, Agência Ecclesia

Cada vida é plena! Mesmo com fragilidades, percalços, atalhos ou desvios, cada “eu” é muito mais do que um sujeito, é uma pessoa humana cheia de dignidade, vivida, a viver ou a conquistar; quando esse “eu” tem por referência primeira cada “tu”, todos os que se cruzam no quotidiano para lhes dirigir generosidade, presença, diálogo, ajuda, de maior bem se veste e reveste; e se esse “eu” for um ponto de encontro do bem, do belo e da beleza, em todos os tempos e modos, com o Criador no horizonte, com maior emoção se recorda e permanece como referência de vida. Mesmo que após uma breve passagem pela história desta terra.

Ana Oliveira (13.09.2003 – 11.07.2020)

Há um mês “despedimo-nos” de uma história de vida que foi esse ponto de encontro, do bem, do belo e da beleza; há um mês muitos familiares e amigos permaneceram ao lado dos pais e dos irmãos da Ana Oliveira, que faleceu vítima de atropelamento; há um mês homenagearam as suas qualidades, a entrega e excelência no estudo, a simplicidade e disponibilidade na missão, o recato e a profundidade do seu percurso de vida; e os acontecimentos de há um mês e toda a vida da Ana não se apagaram, mas transformaram-se em grãos que morrem na terra com promessa de frutos numa família, numa escola, num clube desportivo, numa paróquia.

Há uma proximidade familiar aos pais e irmãos da Ana, que cresceu em corredores de infantários, em associações de pais e projetos ligados às Irmãs de São Vicente de Paulo. Aí se percebeu, desde cedo, o perfil de pai, mãe, manos e a irmã mais velha: acompanhamento no percurso educativo, resiliência diante das contrariedades,  nomeadamente no emprego, entrega a causas geradas no bom ambiente da escola e no espírito da Família Vicentina. E, por isso, este momento de despedida de uma filha, aos 16 anos, é vivido também em proximidade, sem muita compreensão pelo que sucedeu, em admiração pela serenidade dos que lhe são mais próximos e no apoio que a amizade gera.

Depois, o falecimento da Ana e a forma como foi vivido na comunidade paroquial onde estava inserida, São Tomás de Aquino, permanece como uma grande interpelação: a presença do pároco, padre Nélio Pita, catequistas, colegas da escola, do basquete, dos grupos de jovens, da Juventude Mariana Vicentina, as celebrações, vigílias, a missa presidida por D. Américo Aguiar, a despedida… Tudo foi uma afirmação de muitas ligações a uma jovem, apesar da morte. E a confirmação da sua presença numa comunidade que se redescobriu ainda mais unida, por causa de acontecimentos inesperados.

E estas interpelações relacionam-se com debates sobre o que é uma paróquia hoje, a sua configuração geográfica ou não, o papel do líder, do pároco, dos leigos, o espírito missionário que a deve nortear e as formas de conseguir tudo isso. Trata-se de uma discussão com décadas, que produziu investigações, normas e documentos, o último publicado há algumas semanas… Mas esse debate tem de acontecer sobretudo com vidas, com percursos de missão como o da Ana Oliveira que, na simplicidade e na entrega, na discrição e na profundidade construiu comunidade. E vai continuar a construir, com colegas, amigos, companheiros e companheiras de caminhada e sobretudo com a família: todos atestam que a história não terminou há um mês, mas permanece nestes dias e é uma promessa para o futuro.

(Inscrição dos nomes da família de Ana Oliveira nos painéis em mosaico de pedra, de Ilda David, na Igreja de São Tomás de Aquino, em Lisboa)

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