Percurso discreto da chanceler alemã com pertença cristã mostra como missão e serviço da população marcam os 16 anos de vida política

Lisboa, 27 fev 2021 (Ecclesia) – Mendo Castro Henriques, professor de Filosofia Política da Universidade Católica Portuguesa (UCP), encontra na chanceler alemã Angela Merkel uma “estadista” marcada pela discrição na assunção de pertenças cristãs e pelo discernimento ao longo da vida pública.

“O pragmatismo, realismo, compaixão e entendimento de que as sociedades às vezes estão por baixo, carentes e oprimidas, e o sentido evangélico está presente nas suas opções, apesar de não dizer publicamente «eu sou cristã»”, explica à Agência ECCLESIA o docente, na mais recente edição da conversa «Gente de pouca fé?»

“O que diferencia um político de um estadista é que o último age por missão, que vai cumprir para servir a sua população. É o grande exemplo de Angela Merkel e que marcou muito os alemães”, acrescenta.

O docente destaca um episódio elucidativo do discernimento que acompanha a vida política da chanceler que a faz estar atenta aos movimentos sociais e procurar os caminhos para a preservação do bem-comum.

“Em 2015, todas as personalidade do seu partido, CDU, eram contra a entrada dos refugiados da Síria, mas há um episódio em que um contacto com uma jovem palestiniana muda a sua postura. Numa visita a uma escola, a jovem dá conta que não se podia encontrar com a família, Angela Merkel disse que ela descrevia muito bem a situação. Um mês depois, deu uma ordem discreta a dizer «Abram as fronteiras», o que permitiu a entrada de cerca de um milhão de pessoas”, conta.

Originária de Hamburgo, na Alemanha oriental, Angela Merkel foi viver para a Alemanha ocidental, devido ao pai ser um pastor luterano, e ali fez formação, quis ser professora e escolheu a área da Física.

“Ela viveu até aos 30 anos num país de regime comunista coletivista, com polícia política. Ela acabou por não seguir a carreira de professora porque eram obrigados a colaborar com a polícia e ela não queria. Acabou na área da Física Quântica”, destaca Mendo Castro Henriques.

O entrevistado considera que a entrada de Angela Merkel na vida política decorre do seu compromisso social e cívico, inscrevendo-se “num pequeno partido, Despertar Democrático”.

“Nos anos de 2005, antes da crise financeira, na política estavam nomes como Silvio Berlusconi e Nicolas Sarkozy, pessoas que antes de pensarem no seu país, pensavam em si. Merkel começa a aperceber-se que os elementos financeiros estão a ganhar um peso maior que a economia das famílias, vai tomar decisões duras, e opta por salvar o euro, para continuar a haver Europa”, explica.

Anos mais tarde, concretiza o docente, “para defender a Europa ela vai defender algo diferente na procura do bem comum, presente no pensamento social”, procurando a “mutualização das dívidas europeias, algo rejeitado antes”.

“Em 2016 vinha aí uma crise europeia, porque Merkel começou a assistir à atuação de Trump e da China, procurou o bem comum europeu e mudou a sua maneira de pensar económica preparando-se para o que vinha; e veio o Covid-19, em 2020, uma crise sanitária que se transformou em crise europeia, e conseguiu o compromisso dos fundos de cooperação”, sublinha.

Mendo Castro Henriques deixa em aberto o futuro de Merkel, uma vez que depois de 16 anos como chanceler alemã, ela opta por não se recandidatar.

“Angela Merkel acha que não é seu dever dizer mas antes agir, segundo uma inspiração cristã, numa mistura de discrição e autenticidade. Oxalá possa continuar a dar contributos”, finaliza.

«Gente de pouca fé?» é um espaço que a Agência ECCLESIA mantém a cada domingo com Mendo Castro Henriques, que pretende, ao longo da Quaresma, destacar percursos e testemunhos de contemporâneos que “se movem num espaço entre a fé e a falta dela”.

LS

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