Entre tantos tesouros para visitar na ilha da Madeira e do Porto Santo, podemos escolher três na baixa da cidade do Funchal: a Sé do Funchal, a igreja do Colégio e o Museu de Arte Sacra da Diocese. Quem visita o centro da nossa cidade ficará sem conhecer completamente se não entrar nestes três espaços de beleza, de história, de arte sacra, de silêncio e oração. Constitui um passeio muito agradável feito todo a pé no centro da cidade, com cafés e esplanadas, lojas e restaurantes, flores e geladarias.

Quando D. Manuel, ainda duque, com apenas vinte e quatro anos, sonhou a cidade do Funchal, idealizou as estruturas que seriam necessárias para sustentar e promover o desenvolvimento da futura cidade e das suas gentes e, nesse sentido, mandou edificar não apenas uma câmara, um paço para os tabeliães, uma praça e outras estruturas, mas também uma grande igreja no “campo do duque”, dizendo não apenas que queria uma futura diocese, mas que a fé era algo essencial para a contrução e para o futuro da cidade. Em 1493, o Duque D. Manuel, futuro rei de Portugal, determina a construção da Sé. A nova igreja foi benzida em 1508, ano em que a vila do Funchal é elevada à condição de cidade. Em 12 de junho de 1514, a igreja grande toma a dignidade de Catedral da nova Diocese do Funchal.

A planta da Sé liga-se a uma tradição gótica mendicante, com planta de cruz latina, com a orientação litúrgica leste-oeste. O que chama mais a atenção da parte exterior é a sua torre sineira, visível em toda a cidade do Funchal, com cinquenta e cinco metros de altura, a terminar com o belíssimo coruchéu piramidal revestido de azulejos sevilhanos. Podemos destacar no seu interior “manuelino” o sacrário de prata oferecido pelo Rei D. Manuel I, os tetos mudéjares que neste momento estão a ser restaurados numa grande obra de conservação e restauro e que serão, em breve, inaugurados e o altar-mor com o cadeiral dos cónegos e retábulo. O retábulo é constituído por cinco corpos, dispostos em três andares e rematado superiormente por um sobrecéu com francas afinidades com o do cadeiral, tendo ao centro as armas de D. Manuel, ladeadas por duas esferas armilares. O corpo central do políptico terá sido ocupado, inicialmente, por três conjuntos escultóricos, dos quais resta, in loco, somente o sacrário, no corpo inferior. O corpo intermédio está ocupado, neste início de milénio, por uma monumental imagem da N.ª Sr.ª da Assunção ou da Conceição, de uma oficina continental do séc. XVIII e o registo superior foi, entretanto, preenchido com um crucifixo, em memória do Calvário desaparecido. O conjunto das 12 pinturas a óleo, ao gosto flamengo, encontra-se dividido de acordo com as orientações iconográficas religiosas então seguidas: o primeiro registo, com cenas do Antigo Testamento e da Paixão de Cristo; o registo médio, com temática mariana, evocação do orago da Sé do Funchal e de todas as congéneres portuguesas; e o registo superior, as representações finais da Paixão, com a Descida da Cruz e a Ressurreição.

Depois da visita à Sé do Funchal, o visitante poderá percorrer a pé as ruas do centro do Funchal com calçada portuguesa para chegar ao Museu de Arte Sacra do Funchal. São apenas cinco minutos. É aqui que está parte do tesouro da Sé do Funchal e de outras igrejas da Diocese. O Museu é constituído por coleções de pintura, escultura, ourivesaria e paramentaria, cronologicamente datadas entre os séculos XV e XIX. Das coleções do Museu, destaca-se a pintura flamenga dos séculos XV e XVI, a qual chegou à Madeira no século XVI, na chamada época áurea da produção açucareira. Os painéis flamengos distinguem-se não só pela sua grande qualidade como pelas grandes dimensões, pouco comuns nos museus da Europa. É de realçar, ainda, a coleção de escultura flamenga, proveniente especialmente de Malines e de Antuérpia. No núcleo de ourivesaria, que abrange os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, salienta-se a cruz processional de Água de Pena, do século XV, uma bandeja e um cálice com punção de Antuérpia do século XVI, assim como uma das maiores preciosidades do Museu que é a cruz processional, oferta de D. Manuel I à Sé do Funchal.

Ao sair do Museu, poderá encontrar uma das mais belas praças da cidade do Funchal, a praça do Município ou largo do Colégio. Na praça, poderá ver o Edifício da Câmara Municipal do Funchal, o Tribunal e a belíssima fachada da igreja de São João Evangelista ou igreja do Colégio, mandada construir pelo Rei D. Sebastião para os padres Jesuítas. É uma igreja muito simples vista do exterior, mas é no interior que está toda a beleza que não deixa nenhum visitante indiferente. É mesmo impressionante toda a beleza das imagens, dos retábulos barrocos e maneiristas, os frescos, os azulejos, as entárcias e todo o teto com o lema dos padres jesuítas: “Tudo para a maior glória de Deus”.

Ficam, assim, sugeridos três grandes tesouros desta pérola do Atlântico que é a ilha da Madeira. Haverá muito mais para o visitante descobrir, não apenas na história e na arte, mas também no sentir a cidade e as suas gentes, a beleza da natureza do mar à serra, do passeio pelas levadas, do folclore à culinária.

Cónego Marcos Gonçalves

Bibliografia:
Clode de Sousa, Francisco António, Sé do Funchal – Guia, DRAC;
Carita, Rui, A Sé do Funchal 1514-2014, DRAC, Funchal 2015;
Site do Museu de Arte Sacra do Funchal.

 

 

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