Ruy Ventura, comissário das Comemorações do IV Centenário da Morte de Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz incomoda-me. Se não me incomodasse, há muito teria deixado de ler a sua poesia. Creio, aliás, que um poeta – seja qual for o meio expressivo que usou para comunicar – só sobrevive às suas circunstâncias se, de algum modo, continuar a retirar-nos do torpor e da indiferença que nos envilecem. Assim se torna intemporal, ao espicaçar-nos, fazendo-nos acordar. E só acordados – ou seja, com o coração desperto e vigilante – conseguiremos distinguir a realidade dos seus mais enganadores e perigosos simulacros. Atentos, talvez vejamos – mesmo pelo meio do negrume – o caminho que é preciso seguir, que meta procurar, evitando a queda nas mais sedutoras armadilhas. O frade franciscano, nascido a 3 de Maio de 1540, há 480 anos, e falecido em 1619, não foi um escritor que, querendo fugir do mundo e dos seus alçapões, tenha adormecido para encontrar ou fabricar devaneios oníricos. Poeta da experiência com a natureza, com os homens e com a divindade, ao longo dos seus 79 anos de vida, sempre intranquilos, apresenta-se como um ser acordado e atento – e assim desvela aos leitores o seu exemplo vivido e pensado, ensinando-nos onde estão as alpondras que nos permitirão atravessar as mais perigosas torrentes de lama.
Uma perigosa cinza vulcânica ameaça o mundo em que vivemos. O confinamento a que nos temos visto relegados há alguns meses e a doença que paira sobre nós são apenas duas das suas manifestações (e talvez nem sejam das mais perigosas). Vivemos num período histórico em que se tornou bem mais sensível a acção do “mistério da iniquidade”. E parece não haver heroísmo ou acção luminosa que consigam desmentir a hipocrisia da maior parte das promessas de liberdade, igualdade e fraternidade. Há quem lhe chame, seguindo Holderlin, um “tempo de indigência”. Há quem se refugie nos mais estranhos e degradantes narcóticos, procurando alienar-se e afogar as suas frustrações, lançando-se numa prisão perpétua. Há quem procure, por aqui e por ali, novos mosteiros, eremitérios e desertos onde ainda seja possível habitar e sobreviver, interiormente libertos. Se decidirmos levar a cabo essa demanda, decerto concordaremos com Frei Agostinho da Cruz: “Não há melhor manjar que liberdade”. Toda a vida a procurou e construiu. Teremos nós, todavia, ainda a coragem de procurá-la?
Se mantivermos um convívio intenso com os poemas do frade arrábido, reconheceremos que o seu pensamento não nasceu de “uma alminha de Deus, nua como na hora do nascimento, a dar-se, sem querer e sem saber, em versos da mais ingénua e viva emoção religiosa” (Pascoaes). Vale a pena tê-lo sempre ao nosso lado como elevador de reflexão ou, mesmo, como uma espécie de Virgílio, guiando-nos na nossa Commedia e num consequente processo de revisão, de mudança de vida e de aproximação ao “amor que move o sol e as mais estrelas”. Se assim fizermos, perceberemos que não estamos a venerar uma múmia embelezada pela devoção com sucessivas camadas de cera, mas temos junto de nós um dos maiores da poesia, do pensamento e da espiritualidade europeias.
Frei Agostinho da Cruz viveu numa época de grande crise. Pertenceu a uma geração cuja percepção da crise moldou atitudes, gestos, hábitos, palavras, arte – tudo. Produziu uma obra perpassada pela humildade, mas sem dispensar a franqueza e a denúncia. Usou, ainda assim, uma linguagem cautelosa, mentalmente reservada, num tempo dominado pela Inquisição (que ele criticou, aliás, de forma velada, em poemas ainda inéditos). Lê-lo é senti-lo ao nosso lado. Ao recusar um “cantar suave e brando”, torna-se incómodo, exigindo uma leitura comprometida, obrigando-nos a colocar questões intemporais e urgentes. Tenho a mais funda convicção de que seremos capazes de reconhecer a actualidade de uma larga parte das suas palavras. Ao espicaçar-nos com firmeza, não pode deixar-nos indiferentes:

“[…]
Tanto podem malinas creaturas,
Que por fazer escuras as estrelas,
Dizem que falta nelas claridade!
Pouco val a verdade dos pequenos!
Tudo neles val menos; a cobiça
Em lugar da Justiça reina agora.
Ah! quanto melhor fôra padecer
Mil mortes, que não ver nossos vizinhos
Por tão tortos caminhos possuir,
Roubar, e destruir honras, e vidas!
[…]”

Exprimindo uma sociedade em crise, semelhante à nossa, os seus versos salientam um desassossego que nasceu da dura experiência de quem se espantou com o porvir, temendo o passado, “Sem ter já que esperar, nem que perder”. Frei Agostinho da Cruz teve consciência do seu tempo e de quanto o rodeava. Soube assim que nem tudo vale a pena – e nesse desnudamento se fortalece a alma. Teve, sobretudo, a capacidade de escolher, de perceber que o melhor caminho está no empobrecimento vital, naquele que mantém em nós a sede e a fome, a fragilidade e a dependência, o vazio ou nada que abre espaço para uma realidade transcendente que só se aproxima de nós quando nos tornamos menores ou mínimos, eternos aprendizes ou crianças. A obra de Frei Agostinho da Cruz propõe-nos uma libertação. É algo que não podemos menosprezar neste “tempo de indigência” que é o nosso.

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