Teóloga portuguesa destaca alcance global da nova encíclica de Francisco

Foto Vatican Media

Lisboa, 06 out 2020 (Ecclesia) – Isabel Varanda, docente da Faculdade de Teologia da UCP, considera que a nova encíclica ‘Fratelli Tutti’ consagra a voz do Papa Francisco como referência na denúncia da “maré de desumanidade” que atinge o mundo contemporâneo.

“A voz do Papa Francisco é voz que destoa no tom e na tónica; expõe, dá nome à maré de desumanidade que avança inclemente e inconsciente: denuncia tudo o que fecha, tudo o que reduz, tudo o que exclui, tudo o que esconde, tudo o que apouca, tudo o que descria o mundo e a humanidade”, refere a teóloga, em entrevista à Agência ECCLESIA, publicada hoje.

A especialista fala do documento publicado este domingo – o primeiro do género em mais de cinco anos – como uma “espécie de murro no estômago”, que assume, em várias passagens, “a linguagem dura, a crítica cortante, a palavra incomodativa”.

“O século XXI não cessa de nos dizer que fomos longe de mais, temos ido longe de mais. Estamos a ser forçados a sair do torpor e o sobressalto é terrivelmente angustiante e desconcertante”, observa.

A encíclica sobre os temas da fraternidade e da amizade social inspira-se na figura de São Francisco de Assis, à imagem do que aconteceu em 2015, com a ‘Laudato Si’.

“Podemos dizer, por isso, que este é o pensamento de Francisco, esta é a Carta que Francisco sempre desejou enviar a todos os seres humanos, lembrando-lhes: Somos Todos Irmãos”, indica a docente.

Isabel Varanda sublinha a ligação destes conceitos à defesa da dignidade de cada pessoa.

Isto é fraternidade, fraternidade universal – o ferido não tem nome -, aberta a todo e qualquer ser humano e alargada a todas as criaturas nossas irmãs, como nos mostra Francisco de Assis”.

A entrevistada lamenta a persistência de discursos populistas e racistas, que encontram eco até em responsáveis cristãos, uma situação denunciada pelo Papa.

“Como foi possível tornar os mais necessitados e vulneráveis reféns dos nossos esquemas desumanos, dos nossos discursos racistas e xenófobos, transformá-los em objeto de ódio, de desdém e de violência?”, questiona Isabel Varanda.

A docente da Universidade Católica Portuguesa fala num “tempo de luto e de tomada de decisões cruciais”, face ao impacto da pandemia.

“Estamos de luto, não só pelos milhões de pessoas que a pandemia está a levar, mas pela vida e pelo mundo de antes, ao qual não regressaremos”, precisa.

A especialista identifica “bolsas de humanidade autêntica” que resistem e inspiram ao amor, que permite reconhecer no outro um “próximo”.

Francisco, assinala, apresenta-se como “sinal vivo” desse “resto de humanidade fraterna, de uma vida evangelicamente reconhecível e de um novo paradigma eclesial”.

Um novo paradigma de humanidade sem muros, sem fronteiras, sem barreiras, sem exclusão e sem discriminação, assente no cuidar e no bem comum é o ideal que se perfila diante de todos os cidadãos do mundo e de modo particular diante dos grandes decisores mundiais e locais”.

Fratelli Tutti’ foi assinada, simbolicamente, este sábado, em Assis, junto ao túmulo de São Francisco – e não “junto de São Pedro”, no Vaticano, como é tradição – sendo dirigida aos católicos e “todas as pessoas de boa vontade”.

A encíclica é o grau máximo das cartas que um Papa escreve e a expressão ‘Fratelli Tutti ‘ (todos irmãos) remete para os escritos de São Francisco de Assis, o religioso que inspirou o pontífice argentino na escolha do seu nome.

OC

«Fratelli Tutti»: Papa propõe «novo paradigma de humanidade sem muros, sem fronteiras, sem barreiras, sem exclusão e sem discriminação»

 

Partilhar:
Share