Especialista em pobreza e desigualdades alerta para agravamento das dificuldades, no pós-pandemia

Foto: RR/Miguel Rato

Lisboa, 03 out 2021 (Ecclesia) – Carlos Farinha Rodrigues, economista e especialista em pobreza e desigualdades, afirmou que o Papa Francisco tem mostrado a “coragem” de apresentar propostas que visam a “transformação do mundo”.

“O Papa assume-se aqui como a principal, e talvez a única voz que é capaz de suscitar um apelo ao conjunto da humanidade”, refere, em entrevista conjunta à Agência ECCLESIA e Renascença, no 1.º aniversário de publicação da encíclica ‘Fratelli Tutti’ (04.10.2020).

A ‘Fratelli Tutti’ – em português ‘Todos Irmãos’ – é vista pelo professor do ISEG como um “documento fundamental”, que revela “capacidade de propor soluções e caminhos para a transformação do mundo”.

“Há claramente um salto qualitativo da capacidade de diagnóstico e de refletir para uma capacidade de intervir, de fazer propostas, de suscitar a atividade humana para a transformação”, acrescenta.

O convidado da entrevista semanal conjunta, publicada e emitida ao domingo, sublinha que a encíclica tem um “conteúdo político muito grande”.

“O Papa assume o papel que nós esperaríamos dos políticos, das organizações internacionais”, aponta, lamentando o “défice de política assente em valores”.

Podemos claramente identificar uma continuidade, ver que há um caminho que vai da ‘Laudato Si’ à ‘Fratelli Tutti’ que revela o empenhamento na identificação dos problemas com que a sociedade se confronta, e revela uma coragem muito grande na crítica a alguns lugares-comuns, a algumas pseudoverdades que parecem imutáveis”.

Carlos Farinha Rodrigues assinala que a pandemia teve e continua a ter “consequências gravíssimas em torno das questões da pobreza e da desigualdade, mas também em torno dos valores”.

“Temos de repensar grande parte das nossas políticas, e estou completamente de acordo com o Papa quando diz que a política atualmente – a política no sentido dos decisores mundiais – carece de uma visão que ponha o homem e a dignidade do homem em primeiro plano”, precisa.

O economista sustenta que a crise provocada pela Covid-19 acentuou os “principais fatores de pobreza e da desigualdade” que existiam em Portugal.

“Se olharmos ao que foi o fecho das escolas durante largos períodos de tempo, isso teve um impacto em termos de desigualdade que foi terrível”, exemplifica.

O entrevistado destaca a mensagem de esperança deixada pela encíclica que Francisco assinou simbolicamente na cidade italiana de Assis, a 3 de outubro do ano passado.

“Eu nunca acreditei que a pobreza fosse uma fatalidade e o que o Papa nos diz é que não há fatalidade, a pobreza é resultado da atividade humana e nós temos capacidade de a alterar”, conclui.

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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