Economista diz que houve um salto qualitativo na capacidade da Igreja diagnosticar problemas e propor soluções. Para o professor do ISEG, a encíclica publicada em 2020 confirma Francisco como a voz mais influente a nível mundial, a única que fala “ao conjunto da humanidade”

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença), Octávio Carmo (Ecclesia)

Foto: RR/Miguel Rato

Há um ano, já em plena pandemia, o Papa Francisco publicou a encíclica ‘Fratelli Tutti’ – em português ‘Todos Irmãos’ – que aponta a fraternidade e a amizade social como caminhos para um mundo melhor, mais justo e pacífico. Este documento foi um contributo importante?

Foi um contributo extremamente importante, porque tem uma dimensão universal que extravasa claramente as fronteiras do catolicismo. Nesta encíclica o Papa interpela os cidadãos do mundo, independentemente de serem católicos ou não, de serem agnósticos, ateus ou de outras religiões. Portanto, há aqui uma mensagem que é, na minha opinião, uma mensagem de preocupação, mas também de esperança, que serve como referencial para a intervenção dos homens no mundo.

Na minha opinião, nesta encíclica o Papa interpela cada um de nós a pensar, a debater, a tomar posição em relação às principais questões com que se confronta a nossa sociedade.

 

Que são várias, e estão interligadas…

Estão interligadas. Olhando para o que tem sido a doutrina deste Papa, podemos claramente identificar uma continuidade, ver que há um caminho que vai da ‘Laudato Si’ à ‘Fratelli Tutti’ que revela o empenhamento na identificação dos problemas com que a sociedade se confronta, e revela uma coragem muito grande na crítica a alguns lugares-comuns, a algumas pseudo-verdades que parecem imutáveis. E, o que me parece ainda mais relevante, revela uma capacidade de propor soluções e caminhos para a transformação do mundo. Penso que este é o aspeto mais importante deste Papa.

 

Isso foi bastante assumido na encíclica…

É assumido na encíclica. E se olharmos, numa forma mais retrospetiva, o que tem sido ao longo das últimas décadas a Doutrina Social da Igreja, acho que há aqui claramente um salto qualitativo, de uma capacidade de diagnóstico e de refletir, para uma capacidade de intervir, de fazer propostas, de suscitar a atividade humana para a transformação.

O próprio Papa reconhece, de alguma forma, que esta encíclica pode ser vista também como uma encíclica social. Não é, obviamente, só uma encíclica social. Mas, eu diria mais, que esta encíclica também tem um conteúdo político muito grande.

Numa sociedade em que, como a própria encíclica refere, temos uma crise de valores, uma crise de princípios, o Papa assume-se aqui como a principal, e talvez a única voz que é capaz de suscitar um apelo ao conjunto da humanidade. Ele assume o papel que nós esperaríamos dos políticos, das organizações internacionais. Face, eu diria, ao fracasso de muitas das nossas instituições e à insuficiência de ações – basta pensarmos, por exemplo, na União Europeia e no que são as Nações Unidas -, o Papa nesta encíclica vai muito mais longe e tem a coragem de propor propostas de alteração. E, como referi no início, isso é fundamental, quer sejamos católicos ou outra coisa qualquer.

 

 

Estamos a falar numa encíclica publicada em plena pandemia, e o Papa diz que a resposta à crise sanitária não poderá resultar num novo “consumismo febril”, nem em “novas formas de autoproteção egoísta”, o que parece ter sido bastante profético. A pandemia obrigou, de facto, a repensar a forma como se produz e consome, ou as dificuldades vão continuar a agravar-se?

Estou parcialmente de acordo com isso, porque acho que a capacidade de evidenciar os principais problemas com que nos confrontamos já estava claramente identificada na ‘Laudato Si’: a ideia de uma economia que mata, a ideia da destruição da ‘Casa Comum’, a ideia de que temos uma economia que não está ao serviço do homem, tudo isso vinha daí…

 

O Papa fala muitas vezes no ‘Deus dinheiro’.

A pandemia tem um papel importante nesta encíclica, neste sentido: se tudo isso era identificável e já estava na encíclica anterior, a pandemia veio pôr a nu muitos dos aspetos que antes estavam pelo menos semiocultos.

A pandemia teve, e está a ter, consequências gravíssimas em torno das questões da pobreza e da desigualdade, mas também em torno dos valores. Quando, por exemplo, hoje assistimos à discussão sobre a disseminação das vacinas a nível mundial, não há exemplos maiores do egoísmo baseado no individualismo, na separação entre pessoas de primeira e pessoas de segunda, do que aqueles que a pandemia nos trouxe.

 

Foto: RR/Miguel Rato

Aliás, o Papa foi um dos primeiros a levantar a voz contra essa desigualdade…

Exatamente. Portanto, a pandemia é importante porque tornou mais claros e mais gravosos, em termos de situação social, muitos dos aspetos que já antes tinham sido claramente identificados.

Há aqui uma consistência na visão do Papa que eu acho que é indiscutível. Mas há, apesar dessa consistência e dessa continuidade, aspetos novos. Por exemplo, quando o Papa se pronuncia sobre o que é a política e o que deve ser a política nos nossos dias, essa visão claramente reflete a visão do que está a acontecer durante o período da pandemia.

 

Vai até um pouco contracorrente àquilo que é popularmente aceite e assumido, de ver a política como uma atividade menor, quase desprezível e cheia de corrupção, e o Papa diz que do ponto de vista da ética ocidental, do próprio cristianismo, a política é uma forma de exercício da caridade no seu mais alto nível. É interessante, mas que falta concretizar?

Eu acho que na encíclica existem duas ideias muito claras: nós hoje temos um défice de política assente em valores, ponto 1; ponto 2, a forma de ultrapassar isto é, como o próprio Papa refere, a dignificação da política. Ou seja, a política tem de ser dignificada para que efetivamente possa assumir a sua missão mais nobre, que é defender o conjunto da sociedade, construir uma sociedade mais justa.

É muito interessante quando o Papa diz que as perguntas que hoje temos de pôr aos políticos – e que cada político deve colocar a si mesmo – são: ‘quanto amor colocarei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixarei na vida da sociedade? Que laços reais construí?’. Ou seja, há aqui um apelo fortíssimo a uma dignificação da política, o que só pode ser feito com base em princípios de solidariedade e, na expressão do Papa, em ‘princípios de fraternidade’.

 

O Papa propôs a criação de um Fundo Mundial contra a Fome, que seria financiado pelas despesas militares, mas na realidade nada, ou quase nada se avançou. Seria uma medida importante?

Eu acho que temos de repensar grande parte das nossas políticas, e estou completamente de acordo com o Papa quando diz que a política atualmente – a política no sentido dos decisores mundiais – carece de uma visão que ponha o homem e a dignidade do homem em primeiro plano. Olhamos para o problema das vacinas, ou para o problema de trágico dos imigrantes…

Eu acho muito interessante o Papa, a certa altura, referir na encíclica que é como se estivéssemos já numa terceira guerra mundial, só que ela é fragmentada.

Há aqui, de facto, um apelo que tem por base esta ideia muito simples: somente através da solidariedade e da fraternidade conseguimos construir um mundo mais justo, e construir esse mundo mais justo é necessário, não só para acabar com a guerra, para cada um de nós valorizar a pessoa humana, mas também para – e aí remeto novamente para a encíclica anterior – readquirir um equilíbrio entre aquilo que nós fazemos, a nossa atividade, a nossa economia e os recursos que estão à nossa disposição. No fundo, a ideia da defesa da Casa Comum.

 

A encíclica também critica o ressurgimento dos discursos de ódio, xenófobos, populistas, agora ainda mais propagados com as redes sociais e as plataformas digitais. Há consciência destes riscos que se correm ou a situação tenderá a piorar?

Eu penso que, claramente, nós ainda temos uma perceção muito limitada do impacto destes riscos. A certa altura, o Papa tem uma expressão muito interessante: a globalização tornou-nos todos mais próximos, mas tornou-nos todos mais isolados, mais sozinhos. No fundo, o que temos hoje no mundo é – associado à quebra de valores de que falei há pouco, citando a encíclica – o individualismo, o egoísmo como dominantes, tornaram-se mainstream.

Isso é verdade na economia, eu sou particularmente sensível a essas questões: hoje, quando olhamos para a economia, temos a ideia de que aquilo que é o modo de funcionamento normal é o individualismo, o egoísmo, a identificação dos propósitos individuais, muitas vezes em oposição às necessidades coletivas. Claramente, aqui essa mudança tem de ser feita e tem de se combater a desinformação.

A nossa sociedade, hoje, vive – e temos experiências recentes, basta olhar para o que foi Trump, e para a nossa realidade portuguesa, onde existe muita desinformação – um processo que ainda não é completamente claro e percetível, quer na forma como funciona quer nas suas consequências.

Quando temos uma desvalorização dos meios de informação… Estamos aqui numa rádio, que claramente tem um papel a desempenhar na nossa sociedade, com critérios de verdade e de honestidade na informação. Ora, o problema é que, de forma paralela, hoje temos múltiplos canais alternativos, onde essas regras não se aplicam. Portanto, a forma como teremos de gerir isso é também um desafio no futuro.

 

O Papa também tem tido iniciativas no âmbito da economia, como a ‘Economia de Francisco’, que tem desafiado as novas gerações a repensarem o modelo económico – aliás, no momento em que transmitimos esta entrevista, domingo, 3 de outubro, já decorreu um novo encontro transmitido a partir de Assis para todo o mundo. Tem acompanhado este movimento? Acredita que está iniciado o caminho para uma economia mais amiga do homem e do meio ambiente?

Tenho acompanhado bastante a iniciativa e acho que a ‘Economia de Francisco’ tem um potencial transformador muito grande. Se calhar não de imediato, na economia, mas na forma como os jovens, em particular, passam a olhar para a economia e os problemas sociais. Isso é extremamente importante.´

 

Foto: RR/Miguel Rato

Sendo um movimento global, poderá vir a dar frutos…

Espero sinceramente que a ‘Economia de Francisco’ dê frutos, essencialmente na forma de olhar para o mundo e a sociedade. Os jovens têm uma capacidade de sonho e de transformação que, provavelmente, nós mais velhos já não temos. Ou temos de forma mais limitada…

Ser capaz de pensar essa mensagem de que a economia só faz sentido se ela voltar às suas raízes, tratar da Casa Comum, daquilo que é a nossa permanência neste planeta e a forma como podemos sobreviver. Aí, toda a análise que o Papa Francisco faz a todo o processo dominante de submissão da política à economia, e da economia a uma visão baseada no lucro, na acumulação desenfreada de capital, é um forte apelo à reflexão, pelo menos. Isso é extremamente importante.

 

Dizia há pouco que a pandemia veio pôr a nu muitos aspetos que não estariam tão à vista de toda a gente. Olhando para Portugal, temos cerca de 20% da população em situação de pobreza, e muitas dessas pessoas até trabalham. Teme-se que a pandemia venha agravar esta situação. A pobreza é uma fatalidade em Portugal?

Não tenho quaisquer dúvidas de que a pandemia acentuou os principais fatores de pobreza e da desigualdade que existiam no nosso país e criou alguns fatores novos.

Começando pela desigualdade: não temos ainda indicadores muito firmes e quantificáveis da forma como as desigualdades se agravaram, mas se olharmos ao que foi o fecho das escolas durante largos períodos de tempo, isso teve um impacto em termos de desigualdade que foi terrível. Mesmo quando tivemos os poderes públicos e as escolas a fazer um esforço muito grande para tentar atenuar isso, esse esforço é necessariamente insuficiente…

 

O ponto de partida já era desigual…

Eu posso colocar em casa de todos os alunos um computador, agora, isso não impede que as condições de acesso à informação e ao ensino de uma família em que os pais podem acompanhar os filhos, têm capacidade para o fazer e para os orientar, sejam completamente diferentes das de famílias mais desfavorecidas, em que os pais, por muito que gostassem, não teriam capacidade para o fazer. Portanto, tivemos aqui um agravamento das desigualdades que foi muito grande, na minha opinião, e pior do que isso, tem uma capacidade de reprodução no futuro que é assustadora. Queiramos ou não, a escola, o ensino em Portugal ainda é o principal fator de elevador social, mas se pusermos uma palhinha na engrenagem, deixa de funcionar. Não é de surpreender que as desigualdades se agravem. Podemos atenuar isso, depende muito, nesta fase que se espera de pós-pandemia, do esforço de tentar atenuar os efeitos negativos, mas há aspetos que vão perdurar no futuro.

 

Instituições como a Cáritas têm alertado que o pior em termos de crise económica e social ainda está para vir. Concorda?

Eu penso que há fatores de crise social associados a esta pandemia que ainda têm lenha para manter este fogo aceso. Apesar de tudo, quando comparamos com outras crises anteriores, há uma pequena diferença: desta vez, tivemos uma intervenção muito ativa dos poderes públicos, a tentar atenuar os principais fatores de pobreza. Isso não impede que continuemos a ter fatores de risco muito grandes. Se pensarmos em questões como as moratórias, etc., que ainda não estão completamente resolvidas, corremos o risco sério de agravamento da situação social, ainda maior do que o que já tivemos.

 

Há um rosto visível da pobreza que, embora não seja o mais significativo, tem uma grande carga simbólica: as pessoas em situação de sem-abrigo. Soubemos que o número aumentou, há mais 1100 pessoas nessa situação, elevando para 8200 o total no país. Esses dados são preocupantes? Mostram já algumas das consequências da pandemia?

Mostram. Os sem-abrigo são a tradução de uma realidade que aconteceu muito em Portugal e é preocupante: esta pandemia tem uma caraterística particular em termos de pobreza, porque a paragem global da atividade fez com que um conjunto muito significativo de formas atípicas de emprego, que existem na sociedade e muitas vezes funcionam como almofada face ao emprego formal, deixasse de existir. Isso trouxe para situações de pobreza, de agravamento de pobreza, setores da população que habitualmente não eram aí considerados.

Mais: exatamente porque eles tinham empregos atípicos, trabalhados não regulamentados, fora do circuito normal do mercado de trabalho, não só ficaram sem rendimentos, como se verificou que não estavam abrangidos pelos sistemas tradicionais de segurança e proteção social. Essas pessoas levaram um embate maior. É verdade que o Governo tentou e tivemos uma multiplicidade de medidas, porque de repente descobrimos que havia milhares e milhares de pessoas que não estavam abrangidos pelos sistemas tradicionais…

 

Foto: RR/Miguel Rato

A pandemia destapou toda uma fragilidade…

Sim. Portanto, não me surpreende que nomeadamente os sem-abrigo – que dentro do contexto da pobreza são uma realidade muito complexa, em que não se pode falar num padrão de pessoa sem-abrigo, porque há muitos padrões, problemas muito diferentes – seja um dos aspetos em que se vai sentir mais…

Gostaria de terminar com um dos aspetos da encíclica ‘Fratelli Tutti’ que considero importante: a mensagem de esperança que o Papa nos deixa. Ele diz claramente que a esperança é ousada e termina a pedir: caminhemos na esperança. Eu penso que esta é uma mensagem importantíssima. Eu nunca acreditei que a pobreza fosse uma fatalidade e o que o Papa nos diz é que não há fatalidade, a pobreza é resultado da atividade humana e nós temos capacidade de a alterar. Esta mensagem de esperança para todos nós é o aspeto mais importante que o Papa nos deixa nesta encíclica.

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