Responsável pelo Centro de Escuta e Acompanhamento Espiritual da Arquidiocese de Braga pede «normalização do luto», uma «pastoral das exéquias» e revela que a pandemia nada mudou sobre tema da morte mas expôs incapacidades

Braga, 02 nov 2021 (Ecclesia) – O padre Jorge Vilaça, diretor do Centro de Escuta e Acompanhamento Espiritual da Arquidiocese de Braga, disse que a pandemia veio “expor” a incapacidade e a forma “cirúrgica e inconsequente” com que a sociedade lida com a morte.

“Sobre a morte, considero que (a pandemia) expôs uma evidência: Que nós não somos capazes de, com seriedade, com esperança, falarmos de um tema que afeta todos. Só expôs o que estava escondido”, sublinha à Agência ECCLESIA o sacerdote responsável, há 10 anos, pelo centro criado em Braga.

“Não sei se a pandeia alterou a conceção de finitude mas considero que já existia uma anonimização, uma tentativa de pintar a realidade. Como sociedade, temos uma abordagem à morte, cirúrgica e inconsequente”, evidencia, indicando um “crime de ausência, por omissão, no antes e no depois”.

O padre Jorge Vilaça, coordenador da Pastoral da Saúde na arquidiocese, sustenta que o acompanhamento em Portugal à saúde mental “é claramente insuficiente”, que esta realidade “já existia antes do Covid-19”, e que os números que agora emergem expõem uma situação ignorada.

A pandemia, continua, veio “expor o que já existia antes”: “As nossas feridas, as ausências, as fragilidades. Não sei se mudou assim tanto a nossa conceção da morte”, acrescenta.

O sacerdote fala num “equívoco” quando o tema é a “morte”.

“Os miúdos, frente a um computador, matam mil inimigos mas se dissermos para ele ir ao funeral do avô, eles não gostam. Há um equívoco – lidar com o tema da morte mas não lidar com a morte dos meus ou a minha. Lidamos com a morte todos os dias, mas um tema diferente é a minha morte. E aqui percebem-se quadros de ansiedade em miúdos que não conseguem enfrentar a morte de um familiar ou de um animal”, explica.

O responsável afirma a necessidade de se “normalizar o luto” e pede uma pastoral das exéquias pois, afirma, ser esse o momento em que as pessoas “estão abertas a uma mensagem”.

“Há um direito à tristeza, ao choro, à desesperança e à revolta, inclusive contra Deus. Os chavões de uma certa positividade balofa impedem o luto. Sabemos que do ponto de vista técnico, o luto precisa de validação de sentimentos, sendo esse o primeiro passo para uma relação e para a elaboração do que tem em si”, afirma.

O Centro de Escuta e Acompanhamento Espiritual recebe cerca de 300 pessoas anualmente, num trabalho que o padre Jorge Vilaça indica ser um serviço “inutilitário”, uma vez que “não tem retorno imediato”, sendo, no entanto, uma porta aberta para um caminho de libertação, promovido pelo escutar.

“É um serviço de escuta terapêutica orientado pela espiritualidade cristã. A escuta, mesmo civilmente falando, produz felicidade. A escuta, por si só, produz sentido; Quando aliada à espiritualidade cristã, abre um manancial de libertação”, indica.

Para o padre da diocese de Braga, escutar deveria ser preocupação primeira da Igreja.

“Nas últimas encíclicas que o Papa Francisco escreveu, ele afirma a necessidade da escuta cerca de 100 vezes. Em 2019, disse aos bispos que deveriam ser apóstolos da escuta. Quando o Papa Francisco nos diz «escutem», precisamos de uma terapêutica da escuta, (e está a pedir) para termos calma na intervenção; Ele está a dizer-nos que estamos a servir muitos senhores ao mesmo tempo. Precisamos de apóstolos da escuta. Só temos de entender: ele diz «sentem-se», porque a escuta faz-se sentada, e sobretudo, com o dom mais precioso que temos que se chama tempo”, explica.

O responsável pede uma escuta de “tu a tu, de coração a coração”, capaz de “conseguir perceber a dimensão da história divina na história humana”.

Ao Centro acorrem “lutos não elaborados, patológicos, e muitas pessoas que sentem que não encontram na liturgia ou nas ações rituais comuns respostas para a sua fé”, mas também pessoas em processo de divórcio.

“Quando confrontados com um casamento que falhou, toda a vida perde sentido. E a Igreja o que me diz? Excomunga-me? Há muito «diz que disse» e as pessoas querem encontrar alguém, com rosto e nome, e que fale e faça caminho junto”, explica.

Assinalar a Solenidade dos Fiéis Defuntos permite, um ano e meio depois de despedidas sem os “lugares da morte” provocadas pela pandemia, “localizar os mortos, senti-los e homenageá-los”.

“(Acontece) não apenas uma dimensão religiosa importante mas uma dimensão terapêutica, termos a oportunidade de novamente estarmos juntos, junto de alguém que já partiu e da sua memória. Os cemitérios fazem falta aos vivos, não aos defuntos. As pessoas vão voltar (aos cemitérios) porque precisam de sentir a morte de quem lhe morreu”, sublinha.

A entrevista ao padre Jorge Vilaça vai estar em destaque no programa ECCLESIA, emitido hoje, na RTP2.

PR/LS

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