Joseph Ratzinger deu «um grande contributo» ao trabalho de doutoramento do então padre António Marto, depois de tocar piano no seu quarto, em Roma

Foto: Santuário de Fátima

Lisboa, 04 jan 2023 (Ecclesia) – O cardeal D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima, destacou “grandes aspetos” do perfil e do pontificado de Bento XVI, como “o ato corajoso da renúncia”, encontros que começaram como estudante e a sua reflexão sobre Fátima.

“O melhor comentário teológico que se encontra é o que ele fez enquanto prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, em que resgatou, por assim dizer, embora já tivesse começado com o Papa Paulo VI e João Paulo II, em que aprofundou a dimensão mística e profética da mensagem de Fátima”, disse em declarações à Agência ECCLESIA, ao partir para Roma para participar na celebração do funeral de Bento XVI.

D. António Marto recordou “duas grandes homilias” do Papa alemão no Santuário de Fátima, a 12 e 13 de maio de 2010, onde disse “ninguém se iluda que a mensagem se esgotou para a época em que foi dita”, porque a “dimensão histórico-profética” também se aplica para a história do mundo, e lembrou faltavam sete anos para o centenário das aparições.

Para o bispo da Diocese de Leiria-Fátima esta visita foi “outro momento marcante” de encontro, aqui teve “ocasião de ver de perto a alegria, entusiasmo”, com que Bento XVI viveu a peregrinação a Fátima, e lembra que no final da procissão de velas, “contemplando aquele mar de luz”, disse-lhe uma “frase inesquecível”: ‘Não há nada como Fátima em toda a Igreja Católica no mundo’.

A viagem apostólica a Portugal realizou-se de 11 a 14 de maio de 2010, para além de Fátima esteve em Lisboa e no Porto e, segundo o cardeal português, foi “um belo momento de conforto e de ânimo no seu pontificado”, onde encontrou “fortaleza para fazer face aos problemas da Igreja”.

O Papa emérito Bento XVI faleceu aos 95 anos de idade, no dia 31 de dezembro de 2022, no mosteiro ‘Mater Ecclesiae’, do Vaticano, onde residia desde 2013, após a sua renúncia ao pontificado, em fevereiro desse ano, “ato corajoso, de muita humildade e de muito amor à Igreja” que ficará marcado em toda a história do Papado.

“Um ato de lucidez de quem foi capaz de confrontar a sua existência pessoal, fragilizada, com os desafios que a Igreja e o mundo punham e que para o serviço da Igreja, para o bem da Igreja. Ele renunciou ao cargo por não sentir as forças físicas e anímicas para o desempenhar adequadamente”, salientou.

O bispo emérito de Leiria-Fátima lembra um Papa “que se impôs já pela sua cultura teológica”, sobretudo pelo diálogo que sempre procurou com a “cultura de modernidade para ser capaz de transmitir a fé ao mundo de hoje”, o diálogo que continuou com o islamismo, o judaísmo, com os não-crentes, como no ‘Átrio dos Gentios’.

O corpo de Bento XVI está na Basílica de São Pedro para a veneração dos fiéis até ao final do dia desta quarta-feira; as cerimónias fúnebres realizam-se esta quinta-feira, dia 5 de janeiro, às 09h30 de Roma (08h30 em Lisboa), sob a presidência do Papa Francisco, na Praça de São Pedro.

D. António Marto recebeu a nomeação para bispo de Leiria-Fátima, por decisão de Bento XVI, 22 de abril de 2006, e recorda que conheceu o cardeal Joseph Ratzinger “desde os tempos da juventude em Roma”

“Frequentei um curso opcional em que ele era o professor. Era uma pessoa muito próxima, muito afável, gentil, acolhedora, sempre disponível a escutar os alunos, sobretudo nos intervalos das aulas”, explica.

O entrevistado estudou Teologia Sistemática na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (de 1970 a 1977), onde fez o doutoramento, com a tese ‘Esperança cristã e futuro do homem. Doutrina escatológica do Concílio Vaticano II’, e teve “um grande contributo, uma grande ajuda” de Joseph Ratzinger neste trabalho.

“Um dia convidei-o a ir ao quarto onde eu morava no Colégio Alemão, ele acolheu o convite. Recordo-me que a primeira coisa que fez, no quarto havia um piano que era do colégio, foi sentar-se ao piano a tocar; No colóquio deu-me indicações concretas sobre o trabalho de doutoramento, que era sobre o Concílio Vaticano II em que ele participou como perito. Foi uma ajuda preciosa”, disse D. António Marto, em declarações à Agência ECCLESIA.

PR/CB

 

 

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