Vacinação e cooperação entre Estados-membros é «teste» à «coesão e solidariedade», diz professor universitário

Foto: Lusa

Lisboa, 14 jan 2021 (Ecclesia) – José Miguel Sardica, professor universitário, afirmou que a vacinação entre os 27 Estados-membros da União Europeia (UE) é uma “teste” à “coesão e solidariedade” e indica estar na hora de ser discutida uma “política de saúde europeia”.

“É um teste à coesão e solidariedade – não haver países mais ricos que açambarcam mais vacinas. É também um teste a uma política de saúde europeia, que não existe. Existem macro económicas, mas curiosamente ou não, não há uma política de saúde europeia. Isto pode ser um excelente teste e estudo de caso para ver se a cooperação europeia é realidade ou apenas uma retórica sobre o ideal europeu”, afirmou o docente da Universidade Católica Portuguesa (UCP) à Agência ECCLESIA, em entrevista a ser emitida hoje na Antena 1 da rádio pública.

O professor e historiador fez um “elogio” à ciência e à “rede internacional de sábios que desenvolveu o conhecimento médico suficiente” para, em cerca de dez meses, se ter encontrado uma vacina para combater a Covid-19 e elogiou também a distribuição entre os 27 países da UE.

A vacinação em curso é um dos dossiers que a presidência portuguesa da União Europeia, que começou em janeiro, vai acompanhar.

José Miguel Sardica considera que as mais recentes indicações mostram que o processo “correrá bem”.

Em agenda para a quarta presidência de turno de Portugal na UE está o Brexit, “temporariamente resolvido, uma vez que há acordo”, além da regulamentação do Fundo de Recuperação Económico – “cuja aprovação de 750 mil milhões de euros” fez descansar os estados mais frágeis economicamente – e a continuação do processo de vacinação da população para que se atinja a imunidade de grupo.

“Será um tempo de esperança, que permite pensar num semestre mais calmo e, como nas anteriores presidenciais, 1992, 2000 e 2007, valorizar a imagem do país lá fora. No entanto, caminhamos sobre uma linha muito fina: Basta que a vacina não chegue em quantidade suficiente ou não tenha o efeito médico que se quer, para as coisas começarem a correr menos bem”, indica o entrevistado.

José Miguel Sardica afirma que falta ainda perceber como será a relação com o Reino Unido e a relação com os Estados Unidos da América de Joe Biden.

Na agenda comunitária está também o relacionamento com África e com o Oriente, através de cimeiras que irão acontecer – UE/África, UE/China e Índia, valorizando o diálogo Norte/Sul em locais onde a “vacina vai levar mais tempo” e a sua “distribuição tem de ser supervisionada, caso contrário, pode não chegar a todos”.

“Os laços históricos com África podem levar a UE a um olhar africano mais atento neste semestre, do que se liderada por uma Alemanha, Polónia ou Hungria, que são países cuja geoestratégia mental é exclusivamente europeia”, reconhece o docente da UCP.

Em maio está ainda agendada uma cimeira social, a decorrer no Porto, que está apresentada como “uma das grande iniciativas da presidência portuguesa da UE”, e onde Portugal quer evidenciar o pilar europeu dos direitos sociais.

José Miguel Sardica indica que a Igreja Católica “terá algo a dizer nesta matéria” e assinala ser importante ouvi-la, recuperando, desta forma a necessidade de uma Europa social.

“Nos últimos anos tivemos uma agenda europeia muito centrada no aspeto institucional, sobre a sua federalização, ou sobre as dívidas económicas, a coesão do euro, e o pilar social passou para último lugar. A pandemia veio lembrar, não fundar porque já existia, a necessidade de uma Europa social. Se a Europa quer continuar a ser uma das regiões mais importantes e ricas, mais confortáveis do mundo, tem de cuidar da solidez social em geral”, destaca.

Esta semana, o programa Ecclesia na Antena 1 apresenta uma conversa com o professor e historiador José Miguel Sardica, perspetivando os acontecimento do ano em diferentes áreas – Igreja, Política, Sociedade, Europa e Ambiente.

LS

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