Centro de Espiritualidade em Ílhavo mostra a fé das gentes do mar

Foto: C. M. Ílhavo

Ílhavo, 17 set 2021 (ECCLESIA) – O Museu de Ílhavo, na Diocese de Aveiro, tem um novo polo dedicado à sensibilidade religiosa daqueles que fazem do mar o seu modo de vida e sustento.

Foto: Agência ECCLESIA/HM

O Centro para a Valorização e Interpretação da Religiosidade Ligada ao Mar resulta de um encontro de vontades entre a Paróquia de Ílhavo e a Câmara Municipal. “Considerámos que o ideal era colocar à disposição da comunidade este espólio valiosíssimo” reconhece Fernando Caçoilo. O responsável autárquico sublinha também o interesse da paróquia em salvaguardar um património vasto e a necessitar de restauro.  

O Museu Marítimo de Ílhavo conta agora com três núcleos: o Edifício central onde se podem observar bacalhaus num aquário que recria o seu habitat natural; um arrastão bacalhoeiro musealizado que está fundeado no Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré; e o Centro de Espiritualidade Marítima (CEM), inaugurado a 8 de agosto.

Foto: Agência ECCLESIA/HM

O curador do novo espaço, Hugo Cálão é também membro da Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja. O responsável revela que o levantamento e inventariação do património religioso na diocese de Aveiro vem sendo feito desde 2006 e destaca a ação da autarquia de Ílhavo na recuperação e restauro de grande parte das peças que podem ser vistas neste CEM. 

Quem visita este espaço depara-se, ainda no exterior, com o “bispo do mar” – assim era apelidado localmente D. Manuel Trindade Salgueiro, natural de Ílhavo, que viria a ser bispo auxiliar de Lisboa e arcebispo de Évora.

O prelado presidiu em Lisboa, por diversas vezes, à bênção da frota bacalhoeira quando esta partia para a Terra Nova, numa celebração eucarística no Mosteiro dos Jerónimos com a bênção dada no exterior, diante da ‘white fleet’, a frota branca, como eram apelidadas as embarcações pesqueiras nacionais.

O CEM é composto por quatro núcleos expositivos e acolhe o visitante com uma gravura do século XVI, alusiva ao episódio da tempestade acalmada que se encontra no Evangelho de Marcos. “Esta foi a forma encontrada para apresentar o tema que desenvolvemos neste espaço. O mar como elemento de perigo e de desconhecido, mas onde Jesus é presença de serenidade”, explica Hugo Cálão.

Um grande painel do pintor ilhavense Júlio Pires recebe o visitante com a força da cor e a diversidades de motivos que marcam a vida dos que se aventuram no mar. O pintor retrata as tempestades e os riscos, mas também a proteção que se busca e que se traduz nessa expressão tão própria deste lugar: “Ora bamos lá cum Deus…”

Mar e devoção é o tema que enquadra o primeiro núcleo. “Sabemos que existiam na nossa linha de costa, de Viana do Castelo ao Algarve, 140 confrarias e irmandades ligadas aos mareantes e aos pescadores” refere Hugo Cálão.

Nesta sala podem ser vistas uma roda do lema e uma réplica de caravela oferecida pela Parque Expo ao Museu de Ílhavo, onde se inclui a simulação de uma capela com imagens de bordo. 

“São seis imagens de santos que estiveram nas capelas dos paquetes Vera Cruz e Santa Maria. Entre eles a particularidade de figurar Santa Joana Princesa que é a padroeira da Diocese de Aveiro e que foi esculpida pelo escultor Jorge Barradas em 1952”, indica Hugo Cálão, mestre em história e património. 

O segundo núcleo expositivo revela diversas graças obtidas por intervenção divina: vários ex-votos traduzem momentos de aflição vividos nesta região por quem, deles saindo ileso, atribuiu o facto à intervenção divina. 

Um terceiro núcleo partilha com o visitante o que é tido como o tesouro deste museu, as peças de maior valor da Igreja Paroquial de Ílhavo. 

“De realçar a custódia renascentista de 1575 que é uma peça de referência no que é a ourivesaria nacional, e outros tesouros espirituais onde se destaca essa cruz peitoral de D. Manuel Trindade Salgueiro com a relíquia de um fragmento de osso de S. Francisco Marto o pastorinho de Fátima”, refere o curador do CEM.

O último espaço expositivo remete para a devoção pública destas gentes da região de Ílhavo com os andores e imagens diversas que ao longo dos séculos foram saindo nas diversas procissões. Depois dos perigos e das águas revoltas do mar, o CEM termina a colocar o visitante diante da água do Batismo.

É neste momento final que se pode observar também o homem da rede, uma peça da Vista Alegre, empresa local, que retrata o pescador. 

“Não se trata de uma imagem religiosa, mas tem um significado importante para a Diocese de Aveiro. É uma peça oferecida pelo bispo da diocese a cada novo padre que ordena como analogia à sua nova missão pastoral que é a de se tornar pescador de homens”, lembra Hugo Cálão.

O Centro para a Valorização e Interpretação da Religiosidade Ligada ao Mar estará em destaque no programa 70X7 este domingo, pelas 17h30 na RTP2.

HM/OC

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