Espanha: Papa exige economia centrada na pessoa e recusa desporto reduzido a «mero negócio»

Leão XIV encontrou-se com representantes do mundo da economia, desporto e cultura, incluindo António Banderas

Foto: Lusa/EPA

Madrid, 07 jun 2026 (Ecclesia) – O Papa apelou hoje em Madrid à construção de uma sociedade focada na dignidade humana, rejeitando a submissão da arte, da economia e do desporto a interesses elitistas ou financeiros.

“Que a atividade empresarial não veja o trabalhador como apenas mais um fator na equação dos seus interesses; que a arte não vise unicamente as elites; que o desporto não seja reduzido a um espetáculo ou transformado num mero negócio”, apelou Leão XIV, perante representantes do mundo da cultura, da economia e do desporto.

A intervenção decorreu durante a iniciativa ‘Tecer redes com o mundo da cultura, da arte, da economia e do desporto’, que reuniu cinco mil pessoas na Movistar Arena.

“Corremos o risco de ser peritos nos meios e eficazes na produção, mas incertos sobre o porquê, para que fim, com quem e para quem se produz”, advertiu o pontífice, que percorreu em papamóvel algumas ruas da capital espanhola antes de chegar ao pavilhão.

O discurso exigiu que o progresso tecnológico tenha em conta as necessidades dos idosos, dos pobres e daqueles que “não têm voz”.

“Não podemos ignorar que a situação dos pobres representa um clamor que, ao longo da história da humanidade, desafia constantemente as nossas vidas, as nossas sociedades, os nossos sistemas políticos e económicos e a Igreja”, assinalou o Papa.

“Qual é a herança que estamos a deixar ao futuro e, consequentemente, que tipo de comunidade estamos a construir?”, questionou ainda, perante a assembleia.

A reflexão sublinhou que a comunicação, também no mundo digital, tem o poder de “curar ou ferir, destruir expectativas ou abrir novos horizontes, semear a divisão ou despertar a esperança na possibilidade de construir juntos algo genuinamente humano”.

O encontro evocou contributo histórico do cristianismo na formação da matriz do Velho Continente.

“É preciso perguntar, com honestidade, se o mundo — e a Europa em particular — teria forjado a sua identidade sem a marca espiritual que permeou a sua história”, interpelou Leão XIV.

O Papa evocou o magistério de São João Paulo II sobre a força agregadora da prática desportiva e citou Bento XVI para destacar o vínculo entre a fé e a criação artística.

“O desejo pelo bem, pela beleza e pela verdade está enraizado no ADN da humanidade; e é a partir desta aspiração profundamente humana e da nossa experiência secular que a Igreja propõe caminhos para uma vida digna e para o bem comum”, apontou.

A mensagem deixou um apelo à colaboração ativa de todos os setores profissionais na promoção de uma convivência harmoniosa.

“Convido-vos a ser fios novos para tecer redes novas que harmonizem todos os âmbitos da vida, para entrelaçar uma sociedade renovada onde o tempo se impregne de eternidade”, concluiu Leão XIV.

O encontro, que incluiu vários momentos culturais, contou com a intervenção do ator e realizador espanhol António Banderas, o qual apelou à aproximação entre a Igreja e a sociedade civil.

“A relação entre a Igreja Católica e a arte não foi apenas frutuosa, foi determinante”, defendeu o protagonista cinematográfico.

O ator recordou as majestosas procissões da Semana Santa na sua terra natal, Málaga, bem como o despertar para as inquietações espirituais ainda durante a infância.

“Onde quer que ousemos perguntar em profundidade, começa sempre um caminho que nos pode conduzir à espiritualidade”, testemunhou, perante Leão XIV.

A reflexão sublinhou que a expressão cultural não deve procurar apenas a beleza, assumindo-se antes como uma voz de alerta perante as injustiças da sociedade.

Banderas está ligado à adaptação espanhola musical ‘Godspell’, confessando ter sido transformado por essa experiência, que apresentou como um “feitiço de Deus”.

A iniciativa contou também com a intervenção do reitor da Universidade Complutense, José María Coello de Portugal, que apresentou o ensino escolar como um mecanismo insubstituível de equidade e justiça social.

O painel dedicado ao mundo laboral juntou responsáveis patronais e sindicais para debater a integração da inteligência artificial e exigir um novo contrato social focado na dignidade humana.

O desporto esteve representado pelas atletas Teresa Perales e Carolina Marín, empenhadas em resgatar o puro prazer de jogar contra a obsessão generalizada pelo sucesso e pelo dinheiro.

“Competir é crescer com o outro, nunca contra o outro”, alertaram as medalhadas olímpicas.

Leão XIV quis sublinhar a dimensão pedagógica do desporto, no respeito pelo adversário.

“Quantos atletas nos ensinam a perder sem ódio, a vencer sem humilhação ou a levantarmo-nos após uma queda?”, questionou.

Após as apresentações musicais, o Papa deixou o palco, acompanhado pelo cardeal José Cobo, arcebispo de Madrid, em cuja residência janta esta tarde, encerrando o segundo dia de visita à capital espanhola.

A quarta viagem internacional do pontificado, iniciada este sábado, prolonga-se até 12 de junho, com passagens por Madrid, Barcelona e o arquipélago das Canárias.

OC

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