Em entrevista à Ecclesia e à Renascença, o bispo de Leiria-Fátima fala da peregrinação de 12 e 13 de maio a Fátima, da próxima Assembleia Plenária da Conferência Episcopal, que é eletiva, da experiência comunitária no ambiente digital, das relações Igreja/Estado e do regresso das celebrações comunitárias das Eucaristias antes do que pretendia as autoridades

Entrevista conduzida por Aura Miguel (Renascença), Paulo Rocha (Agência Ecclesia)
Imagem e edição Tiago Azevedo Mendes (Agência Ecclesia)

Como é que foi a sua experiência deste 12 e 13 de maio, em Fátima, o altar do mundo, desta vez num recinto tão vazio e em solidão?

Eu creio que todos compreendem que foi uma experiência única, que vivi também pela primeira vez, sobretudo para quem estava habituado a viver um 13 de maio com o recinto a extravasar. Mas confesso que tinha, inicialmente, o receio de sentir solidão, mas não foi esse o sentimento…

Em primeiro lugar, o sentimento foi que vivi uma experiência de comunhão espiritual, que nós em linguagem teológica chamamos a comunhão dos santos. Sente-se que se está unido a toda uma multidão de gente, na celebração que acontece. Aliás, tinha dito no anúncio que fiz, em primeiro lugar, que embora estivéssemos fisicamente separados, estaríamos espiritualmente todos unidos, como Igreja, em comunhão, à volta de Maria e com o coração cheio de fé. E assim aconteceu.

 

E teve conhecimento pessoal de casos, de pessoas que se uniram? Soube disso? Com nomes e apelidos?

Sabia disso. Nomes, enfim… Mas dos ecos que chegavam. Para isso contribuiu a preparação que o Santuário fez, durante oito dias, pelo menos, os dias anteriores à peregrinação, através dos meios digitais. Eu via muita gente que estava a seguir as indicações do Santuário, a pôr a sua vela, cada dia, à janela. Até a minha própria irmã me dizia isso. Depois, a simbólica da própria celebração; os meios de comunicação social, nos últimos dias, aguçaram a curiosidade e o apetite às pessoas de seguirem a celebração – umas por curiosidade, para ver como era, outras mesmo por devoção, para se sentirem unidas.

A simbólica foi belíssima.

 

Sobretudo o dia 12…

Sim, sobretudo a simbólica do dia 12, à noite: milhares de velas, a representar todos os peregrinos. E eu quis, de propósito, salientar que eram os vivos e também os defuntos, daqueles que tinham sido vítimas da Covid-19, para que os familiares se sentissem ali, também; depois, as 21 velas a representar as dioceses e os três metropolitas a representar o episcopado.

No dia seguinte, a oferta do ramo de flores, do Movimento do Apostolado Mundial de Fátima, uma espécie de ramalhete espiritual, que foi recolhido por todo o mundo. Eles fizeram chegar, a toda a parte, também a preparação desta peregrinação e como ela seria, sem a presença física dos fiéis. Houve ainda o gesto do lava-pés, impressionante.

Tudo isto tocou o coração das pessoas. Agora estou a receber dezenas e dezenas de emails a agradecerem e a salientarem esses aspetos.

 

Na homilia do dia 13, disse, por causa deste vírus, “sentimos o chão fugir-nos por debaixo dos pés”. Sentiu isso também? Sentiu momentos de angústia, de incerteza, na preparação, nas decisões a tomar?

Quer dizer, quando referi essa frase, estava a referir-me ao contexto social e mundial. Agora, pessoalmente, todos nós sentimos que vivemos num ambiente de incerteza, de insegurança, sem saber como vai ser o dia de amanhã, seja do ponto de vista pessoal, seja do ponto de vista social e económico, seja do ponto de vista eclesial. Vamos adaptando-nos, dia a dia, às circunstâncias, conforme nos vão sendo fornecidos os dados.

Não senti grandes hesitações nem dramas em relação àquilo que se passou quando tomei a decisão, no 5 de abril, com os colaboradores do Santuário. Sabíamos exatamente o que estávamos a fazer, que tínhamos de preservar a saúde pública e a responsabilidade do Santuário, nesse sentido. Tive ocasião de dizer, na conferência de imprensa, que não queria ficar na história como o bispo responsável, enfim, por um alastramento do vírus que viesse a agravar a situação de saúde pública do país.

Nesse aspeto, tive muitas manifestações, depois de afirmar a decisão ou reafirmar a decisão, que seria assim – consultei também o presidente da Conferência Episcopal [D. Manuel Clemente, ndr], para saber também a opinião dos outros, não era sozinho, e era no mesmo sentido.

 

Ainda a propósito da Covid-19, foi protagonista de um outro momento, histórico, ao fazer a consagração de Portugal aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, no dia 25 de março. Como é que surgiu a ideia, sentiu essa necessidade?

A ideia surgiu do povo. O Povo de Deus, com o diz o nosso Papa Francisco, traduzido à letra, tem o seu faro. Traduzido noutra linguagem: tem o seu sentido comum da fé. E, em 24 horas, foram milhares de assinaturas a fazer esse pedido que chegava à Conferência Episcopal, concretamente ao seu presidente, que depois consultou o Conselho Permanente e este, por sua vez, aceitou fazer essa consagração. Como estávamos na altura do confinamento, o presidente da Conferência pediu-me a mim, como vice-presidente e bispo do lugar, para ser eu a presidir e fazer essa consagração.

Foi tudo muito preparado em cima da hora, mas saiu bem, muito bem. Agora, quando lá cheguei…

 

Até o senhor se comoveu…

Sim. Senti que o sofrimento do mundo me pesava sobre os ombros. Ainda hoje o sinto. E fui resistindo enquanto pude até chegar ao fim e não conseguir mais.

 

No fundo, a visão das Aparições também é isso: sobre um bispo recai todo o sofrimento, carrega sobre si as dores do mundo.

Sim, sim. É verdade. Foi um momento muito significativo para quem seguiu, pelos meios de comunicação. Mesmo em Espanha, logo a seguir ao ato, durante a noite, recebi telefonemas de bispos espanhóis, concretamente do presidente da Conferência Episcopal [D. Juan José Omella], que tinham seguido e se tinham comovido, também.

 

Comunidades no ambiente digital

Todas essas experiências culminaram aqui, em Fátima, com participação através dos meios de comunicação social. Que tempo novo se está a gerar? Há aqui uma possibilidade de participação, de fazer a experiência crente com uma experiência comunitária diferente?

Nós estamos a fazer uma experiência de fé em circunstâncias excecionais,  naturalmente. São as circunstâncias da pandemia, com as consequências que traz de ordem sanitária, aquelas que se fizeram refletir mais na reconfiguração, reprogramação das nossas atividades eclesiais. Por conseguinte, houve a suspensão das celebrações comunitárias da Eucaristia, o cancelamento de quase todas as atividades pastorais que implicavam reuniões, assembleias. Foi o que aconteceu comigo.

O povo diz: Deus dá as habilidades conforme as necessidades. E houve uma criatividade muito grande para que, nestas circunstâncias excecionais, se pudesse continuar a celebrar a fé e a fazer a experiência comunitária, também da própria fé.

 

São mudanças que vieram para ficar?

Algumas poderão ficar, porque têm de se aproveitar para o futuro. Outras durarão enquanto duram estas circunstâncias. Por exemplo, o Papa Francisco, a partir de segunda-feira, diz: terminou [a transmissão online da Missa matinal, desde o Vaticano].

Eu também, a partir do Pentecostes, deixarei de transmitir a celebração do YouTube, para a diocese. É necessário que agora as pessoas vão retomando gradualmente e progressivamente a sua pertença eclesial vivida nas comunidades, nas paróquias.

 

Regresso das celebrações comunitárias

O que diria àquelas pessoas que anseiam por participar fisicamente nas celebrações, aceder à Eucaristia, de confessar-se?

Nós temos de seguir o exemplo do Santo Padre! Ancho que foi o melhor exemplo. Se o Santo Padre, fez o que fez… também lhe custou, a ele, mas foi para dar o exemplo a toda a Igreja, e não fomos só nós. Foi em todo o mundo, praticamente, que se suspenderam essas celebrações.

Procuramos dialogar sempre com as autoridades e, concretamente, com a Direção Geral da Saúde, para ir tomando as nossas decisões. Eu, por exemplo, estava à espera que fosse possível recomeçar 15 dias antes do que está previsto, mas dado o risco elevado de contágio, ainda, segundo as previsões das autoridades de saúde, optou-se pelo Pentecostes (31 de maio) e já foi conseguir algo mais do que estava previsto, inicialmente. As autoridades desejavam que fosse pós-Pentecostes e nós dissemos: bom, o Pentecostes é uma data muito significativa para a Igreja. Chegou-se a um acordo, facilmente. Não houve tensões, no diálogo.

 

Mas comparando com a situação de outros países, onde foi mais grave a pandemia, que já abriram as igrejas, houve muita gente que achou que, se calhar, terá havido uma cedência…

Não houve uma cedência, houve um diálogo. A paciência é uma virtude cristã, eu também gostaria que abrissem antes. Mas, se não é possível, também temos de dar este testemunho e lembrar-nos de que Cristo está sempre junto de nós, não deixa de estar presente. Há algo que penso que se deve conservar, juntamente com a Comunhão sacramental, pela qual se anseia: é a Comunhão espiritual.

A certa altura, em várias comunidades, banalizou-se a Comunhão sacramental, sem a dimensão espiritual profunda que agora se redescobriu, na melhor tradição da Igreja. O Papa fazia, todos os dias, no final de cada Eucaristia, e isso deve acompanhar novamente, e simultaneamente, a Comunhão sacramental. É uma das lições a interiorizar, a permanecer para o futuro da Igreja. Jesus continua sempre, mesmo quando não é possível celebrar a Eucaristia.

Devemos olhar para exemplos de outros: os cristãos do Japão, católicos, estiveram 200 anos sem um sacerdote, sem um religioso ou religiosa que lhes desse assistência, sem a Eucaristia. Conservaram a fé. Postos à prova.

 

Se calhar mais fiéis…

Exatamente. A fé não diminuiu, aprofundou-se. Aqueles que viveram debaixo do totalitarismo do comunismo, nos países de Leste, muitos deles celebravam clandestinamente ou não tinham celebração. O cardeal Van Thuân, na cadeia, que recorreu a um meio absolutamente excecional, que era fazer das mãos o altar. Ele pedia um remédio, que deixavam passar na cadeia, e era o vinho para a Missa: era uma gotinha de vinho numa mão e um pouco de pão na outra. Foi excecional. São exemplos para nós, também.

 

E é um problema que se pôs em relação à Amazónia, muito recentemente.

Sim.

 

Este tempo foi também de debate, até teológico, em torno da possibilidade da prática sacramental em moldes diferentes. Por exemplo, a Reconciliação. Podemos recordar que o padre Spadaro coloca essa possibilidade, olhando para o ambiente digital como um ambiente cheio de realismo, para essa prática. Acha que é uma possibilidade?

O Papa já se referiu a isso: há um risco que devemos evitar, como ele diz, porque não podemos viralizar, tornar viral a prática sacramental da Igreja que, por si, é uma prática que requer encontro físico, pessoal, requer o toque. Porque tem toque, por exemplo a unção, em vários sacramentos. Nada substitui aquela relação pessoal.

Em casos excecionais, não me repugna, mas não havendo outra possibilidade. O Papa concretizou um aspeto que vem no Catecismo da Igreja: se uma pessoa não tem a possibilidade de celebrar a Reconciliação, pode fazer o ato de arrependimento, diante de Deus, com o propósito de, depois, se reconciliar sacramentalmente quando tiver ocasião, de novo. E diz: ficam-lhe perdoados todos os pecados, inclusive os mortais. A misericórdia de Deus é tão grande…

Devemos ter uma preocupação de não tornar a nossa expressão de fé virtual, somente.

 

Ainda nesse sentido, não se preocupa, por exemplo, quando isto começar a abrir, que haja muita gente que até se sinta confortável na modalidade que encontrou em sua casa, online. Uma espécie de bolha que pode gerir. Não tem medo que venham menos pessoas agora à igreja?

É um risco, é um risco… Mas eu penso que isto também serviu para personalizar a fé. Às vezes, para alguns, era fé rotineira, agora também só participada. E mesmo através dos meios de comunicação social, só participava quem queria. Não era por rotina, era quem fazia essa opção.

Às vezes, diz assim: “Assistiam à Missa de casa”, como se fosse só um espetáculo. Isso também não é completamente verdade, havia uma participação espiritual e eu penso que o Espírito Santo também agia através desses meios, não era só o espetáculo de quem vê e presencia o que se está a passar ao longe. Havia uma união espiritual, havia uma comunhão espiritual também, que a gente aconselhava a fazer.

Quando celebrei o Tríduo Pascal, na Sé, quando chegava o momento da comunhão, éramos pouquinhos, havia um mestre-de-cerimónias que tinha um texto em que lia a comunhão espiritual para que, quem estivesse em sua casa, também fizesse essa comunhão espiritual.

Devemos valorizar aquilo que é de valorizar, saber aquilo que foi necessário e ainda é, ou em circunstâncias excecionais, e depois retomar outra vez a vida comunitária, sacramental, presencial, porque não há nada que substitua isso.

 

Relações Igreja/Estado

Há pouco o senhor cardeal já referiu essas conversações entre a Igreja e o Estado por causa do retomar das celebrações comunitárias. Este tempo, esta pandemia, colocou esta relação Igreja-Estado em cima da mesa para decisões que eram importantes. O que é que vai ficar para a história na relação entre a Igreja Católica e o Estado, nesta pandemia?

As relações têm sido, dentro dos dois princípios ou parâmetros da Concordata: autonomia própria na colaboração com o bem-comum.

 

Há quem diga que a medida de proibir as celebrações comunitárias é anticonstitucional?

Ninguém proibiu as celebrações comunitárias. Foi a Igreja que assumiu. A Igreja antecipou-se a isso, é preciso notar isso! A decisão foi da Igreja que se antecipou e bem, até para dar o exemplo, porque a Igreja, quer queira quer não queira, é uma instituição de referência fundamental na sociedade.

Se agora tivesse provocado um caos em Fátima, do ponto de vista do contágio viral, ficaria para a história.

 

A autonomia esteve sempre salvaguardada?

Esteve sempre salvaguardada, na colaboração, no diálogo. Foi tudo feito no diálogo. Eu não participei nesse diálogo, mas havia uma comissão própria sobretudo em relação a estas questões do aspeto sanitário. São essas que obrigaram a fazer essas normas todas…

 

O Senhor D. António incomodou-se muito quando vimos as imagens do 1º de maio? Muita gente protestou porque o espaço do recinto Santuário de Fátima era maior do que aquele, na Alameda em Lisboa, e também daria para fazer igual. Teve esse problema?

Na altura estranhei, mas estava permitido por decreto… É uma manifestação… Mas nunca imaginei logo que poderíamos fazer o mesmo em Fátima.

A minha decisão estava tomada e era firme e a Igreja não segue os mesmos critérios que são, às vezes, de ordem política, de ordem partidária. A Igreja segue o critério da dignidade da pessoa e do bem-comum.

 

As respostas da Igreja Católica, por exemplo a nível litúrgico, foram tomadas a nível nacional, com orientações comuns. Na sua opinião poderia ser necessário também a afirmação de posições a outros níveis, de participação na construção da sociedade, de motivação também a nível nacional ou a autonomia de cada diocese é um lugar para essas intervenções?

Nós jogamos sempre com isto: cada diocese tem uma autonomia própria e, ao mesmo tempo, procuramos também a comunhão de todos através da Conferência Episcopal.

Há âmbitos em que são necessárias essas normas comuns, como foi este caso porque era do âmbito sanitário, era igual para todos, e portanto as normas são comuns, mesmo respeitando as autonomias regionais.

Também não podemos olhar para a Igreja como sendo uma empresa que comando tudo a partir da cúpula. Dentro da Igreja existem organismos, nos outros âmbitos da atividade eclesial, concretamente no âmbito da caridade, da solidariedade, que têm uma autonomia própria para coordenar todas as ações.

Refiro-me à Cáritas Portuguesa que tem estado sempre em atividade coordenadora com as Cáritas Diocesanas; às IPSS, cuja maioria são da Igreja Católica, que também têm uma coordenação própria, com atividade muito grande durante a pandemia; refiro-me à União das Misericórdias. Todas essas instituições estiveram presentes durante este tempo da pandemia.

Depois houve a colaboração de cada diocese também com as autoridades autárquicas e com as autoridades da saúde. Isso não passou muito para a comunicação mas, por exemplo, sobretudo para disponibilizar casas, imóveis. Em Leira, disponibilizei três casa, uma para idosos de lares, a casa de retiros, para pôr à disposição dos profissionais de saúde, e outra mais particular onde podiam cozinhar também para os profissionais de saúde, médicos, enfermeiros. E o Santuário de Fátima também pôs o Albergue dos Peregrinos à disposição e, além disso, ofereceu três ventiladores, o seminário e o santuário ofereceram camas, que foram pedidas. Tudo isso foi colaboração.

 

Crise económica e social

Neste momento o que é que o preocupa mais neste contexto de pandemia em geral?

Em geral, o que me preocupa mais é as consequências que vem a seguir, o pós-pandemia, sobretudo as consequências laborais, económicas e sociais que já se sentem. Os pedidos de ajuda, seja a título individual de pessoas, seja a títulos familiares, têm aumentado muitíssimo em várias dioceses. Numas mais, noutras menos.

Aqui tem aumentado, mas não tão exponencialmente como por exemplo em Setúbal ou no Porto. Em Setúbal, contou-me o bispo de Setúbal, a Cáritas está a assistir quatro mil famílias, o que totaliza mais ou menos 13 mil pessoas, é muita coisa. Paróquias, li no jornal de Santo António dos Cavaleiros, que agora são 1300 pessoas. No Porto, uma outra que servia 160 refeições neste momento está a servir 400.

Gente que tinha o seu trabalho, gente da classe média, mais ou menos, e que agora, por causa da família, sente necessidade… É a chamada pobreza envergonhada.

 

Uma crise mais grave do que a última que tivemos?

Ninguém sabe dizer. Segundo as notícias de Bruxelas, dizem que será uma recessão mais grave, mais forte do que a última, mas não há certezas. Toda a gente está a ver como vai ser. Agora, vai ser duro, vai, os dias vão ser difíceis.

A Igreja também vai sentir isso, mesmo o Santuário de Fátima vai sentir isso porque vive das ofertas e, não havendo ofertas, durante todo este tempo… Já tenho uma ou outra paróquia em que se está a sentir isso. A diocese tem alguma almofada para poder acudir em alguns casos mas a gente também confia na Providência Divina.  Foi o que eu disse Fátima: aquela questão da mão materna de Maria não deixará faltar o necessário.

 

Eleições em junho na Conferência Episcopal Portuguesa

No início de junho vai decorrer a Assembleia Plenária da Conferência Episcopal, assim se prevê, que é eletiva. Que renovação pode constitui, na própria Conferência Episcopal, para as respostas que é necessário dar nas circunstâncias atuais?

Esta assembleia vai ser diferente das outras. Ela estava marcada para abril, com uma agenda até bastante extensa, depois por causa da pandemia foi adiada para junho por causa de ser necessário fazer as eleições. (de contrário seria adiada para setembro, como fez a Conferência Episcopal Itália).

Não dura tantos dias, começa segunda à tarde e termina quarta de manhã, a maior parte do tempo é para fazer as eleições dos diferentes órgãos da conferência, prevê-se que tenhamos algum tempo para discutir um esboço para um futuro documento sobre a situação social e eclesial e, por isso, não devem sair ainda grandes linhas de orientação. Até porque acho ainda é cedo. Ainda não sabemos o que vai acontecer nos próximos meses.

Agora, genericamente, penso que se vai abrir uma nova oportunidade para a Igreja, para a reforma da Igreja, que leva o seu tempo. Estas reformas e a renovação não é numa assembleia de bispos que se faz, para realizar as linhas de fundo da reforma, propostas pelo Papa Francisco.

Uma “Igreja hospital de campanha”, quer dizer, uma Igreja misericordiosa e samaritana, próxima das pessoas feridas, porque vivemos hoje, e agora ainda mais, num mundo de gente ferida e com muitas feridas. Feridas do ponto de vista pessoal, familiar, as feridas do coração, as feridas do espírito, das situações económicas, etc.

Igreja em saída, às diferentes periferias: não só geográficas, humanas, existenciais, sociais, aqueles que andam afastados, porque não podemos prescindir, o primeiro papel da Igreja é evangelização. Devia ter começado por ai, certamente (risos).

 

Um arranque de uma nova faceta da Igreja em Portugal?

Sobretudo, o mistério de Deus (abordei isso na homilia, mas não se podia desenvolver tudo). Nós hoje damo-nos conta que não somos pequenos deuses, como às vezes temos essa tentação, somos criaturas de Deus e que nos confrontamos com um grande mistério: um mistério de vida e um mistério da humanidade, que requer uma abertura para um mistério, que nós chamamos Deus, nós cristãos Deus de Jesus Cristo. É preciso redescobrir a beleza e a riqueza desse mistério, porque muitas vezes há imagens muito deformadas também de Deus.

 

E com essa consciência renovada, quem sabe estamos a falar já com o futuro presidente da Conferência Episcopal?

Não… Isso deve perguntar ao Espírito Santo?

Depois, além disso, uma Igreja Sinodal: quer dizer que é composta de toda uma série de serviços e ministérios que procuram caminhar juntos, portanto, menos clerical, menos assente só sobre o clero. A responsabilidade de ser clerical umas vezes é da parte do clero, outras vezes é da parte do povo que também diz “o padre que faça, o clero que faça”.

Mas, agora, por exemplo, durante este tempo notou-se também uma criatividade da parte dos leigos, catequistas, serviços da caridade, juventude, voluntários… São coisas a aproveitar.

O Papa na Exortação Apostólica ‘Querida Amazónia’ diz: “Uma Igreja marcadamente laical”. Usa esta expressão, não é minha.

 

É isso que deseja para a Igreja em Portugal?

Também desejo, sim. Que não seja marcadamente clerical, mas que seja marcadamente laical: é a grande maioria do povo de Deus! Não quer dizer que o clero não seja necessário, de modo nenhum, mas cada coisa nos eu lugar. Marcou-me profundamente essa expressão, porque é que o Papa não disse logo ordenem-se os homens casados?  Primeiro, “uma Igreja marcadamente laical” para não cairmos num clericalismo de homens casados.

Queria ainda sublinhar os novos meios de comunicação. Foi o que valeu neste tempo de confinamento não só para a celebração da fé, mas também para garantir a celebração comunitária, sentido de pertença em comunidade, toda a Igreja. E depois a oferta de elementos, de subsídios para além de celebrar a Missa: da Palavra de Deus, das meditações, de orações, que as pessoas seguiam e faziam em suas casas. Novos meios para a nova evangelização!

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