Em época de exames – e para muitos de decisões importantes sobre que curso seguir – a Ecclesia e a Renascença conversam com a jovem docente, presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, em Lisboa

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Paulo Rocha (Ecclesia)

Foto Ricardo Fortunato/RR

Como é ser a representante dos estudantes numa Faculdade como esta, de Teologia, sendo mulher?

É uma grande responsabilidade, porque sou das poucas mulheres que existem. Todos sabemos da realidade de Teologia, onde a grande maioria são homens, por grande parte estarem no Seminário. Mas é um desafio muito interessante, porque é tentarmos unir a realidade do Seminário com a realidade dos restantes, que estão simplesmente a estudar Teologia e não estão em nenhuma casa religiosa. E a Associação de Estudantes tem muito este papel – pelo menos eu vejo-a assim – de unir, criar pontes entre nós, possibilitar que estejamos todos juntos e possamos partilhar experiências uns com os outros.

 

Portanto, não há qualquer problema serem na maioria homens e a Mariana estar à frente da Associação?

Não, acho que até é engraçado. Eles são todos homens, estão habituados a viver uns com os outros, e haver ali uma presença feminina, acho que para eles também é interessante, nesta questão de contactarmos uns com os outros. E às vezes há coisas que fazemos, muito femininas, temos de cuidar de alguns pormenores que os homens normalmente não têm, e já houve alturas, até em atividades, em que eles próprios disseram “ainda bem que temos meninas em Teologia, porque vocês é que tomam conta destas coisas, nós somos muito despassarados!”.

 

É inédito este cargo ser ocupado por uma mulher?

Não é inédito, não sou a primeira, antes de mim houve a Rita. E ultimamente tem havido sempre mulheres em Teologia, pelo menos na lista da Associação, sejam leigas ou irmãs. É uma realidade que existe, e muitas vezes também são as pessoas que estão mais disponíveis e têm mais tempo para se dedicar a algumas coisas da associação, seja a realizar conferências ou outras atividades.

 

E a diretora da Faculdade também é uma mulher. E porquê a opção por Teologia?

Optei por Teologia por querer ser professora de Educação Moral e Religiosa Católica, foi assim por ter este objetivo. O problema foi chegar aí, a querer ser professora de EMRC. Foi um grande processo na minha vida, em termos de secundário, questionar-me sobre aquilo que queria e achava que ia ser feliz a fazer.

Andei um bocadinho perdida, mas uma coisa era certa: queria sempre as áreas sociais, também muito relacionado com aquilo que esta disciplina me proporcionou e pelas ações de voluntariado que fiz com EMRC, como o ter ido à Guiné-Bissau enquanto aluna. Isso ajudou-me muito a perceber “ok, eu gosto disto e quero fazer disto a minha vida, mas onde e em quê?”. Foi preciso ter uma ajudas para conseguir perceber que, se calhar, o meu caminho passava mesmo por aí.

 

E como surgiu essa decisão?

Eu já conhecia o curso e já conhecia a disciplina, porque a minha mãe é professora de EMRC. Mas, nunca foi uma coisa que eu pusesse como hipótese na minha vida, porque, lá está, às vezes tentamos sempre desviar daquilo que os nossos pais são, e eu pensei “eu não vou ser igual à minha mãe!”.

No meu ano zero – em que estava a ser aluna ouvinte para repetir os exames de português e matemática -, o professor Juan Ambrósio, com a Associação de Estudantes, foram à Escola Secundária de Peniche falar sobre os cursos, sobre o que é que era isto de Teologia e de Ciências Religiosas, e lembro-me que ao almoço o professor me perguntou: “olha lá, então o que é que tu queres ser?”…

 

Foi um convite personalizado…

Sim. Eu disse “estou um bocadinho perdida, não sei”, e ele disse-me: “e porque não Ciências Religiosas, já pensaste nisso?”. E aquilo ficou ali, o “porque não?”. Comecei a pensar se realmente seria feliz a fazer aquilo que me tinham feito a mim, as experiências que vivi e que me proporcionaram na disciplina, se eu também seria feliz a fazer o mesmo aos outros. E comecei a perceber que se calhar ia ser mesmo feliz!

Estive uns tempos indecisa, “será que é isto, será que não?”, até que decidi: “ok, vou-me inscrever”. Nunca disse “vou para isto”, só verbalizei a primeira vez depois de me inscrever, nem à minha mãe disse. Sempre me acompanhou, percebeu que me ia inscrever na Universidade Católica, foi comigo, mas nunca verbalizei “vou para Ciências Religiosas”. Acho que a primeira vez que o fiz foi a um dos meus antigos professores de EMRC – que foram muito importantes para mim no secundário -, em que lhe disse “sabe, vou para Ciências Religiosas”, e ele respondeu: “a sério? Que bom!”.

 

Foto Ricardo Fortunato/RR

E este foi o primeiro ano em que deu aulas. Coincidiu com uma época tão difícil, de pandemia, com tantas restrições. Como é que foi começar a lecionar, logo num ano destes?

Foi um desafio. Eu já via como um desafio porque, como costumo dizer, eu sei ser aluna, não sei ser professora. Ou não sabia, agora já sei um bocadinho…

Foi um desafio, mas em relação à pandemia, eu não sei como é lecionar sem ser em pandemia…

 

Não tem termo de comparação…

Não tenho, só sei enquanto aluna, como professora não. E enquanto ambiente escolar, nesse sentido também não sei. Então, nisso não foi uma dificuldade. Difícil foi saber como é que ia fazer, será que vai correr bem, será que não? Aquelas inseguranças, ter medo de falhar, de se calhar este não ser o meu caminho, ter medo por ser muito nova comparativamente com outros colegas, da disciplina ou de outras.

 

E como é que correu? Esta escola onde lecionou, a escola pública Luis António Verney, em Lisboa, tem 800 alunos, mas poucos frequentaram a disciplina de EMRC?

Foram apenas 19. A grande maioria do 5º e 6º anos. Tive seis turmas, quatro do 5º ano e duas do 6º, mas estão todos juntos, são 13 alunos. Depois tenho uma aluna que está em ensino à distância e o restante são alunas do 8º ano, noutra turma. E foi um desafio…

 

Isso não a desanimou?

Não, não.

 

Acabou por ser um incentivo?

Eu tinha consciência de uma coisa: aquilo que eu vivi enquanto aluna, seja nas escolas básicas, seja na Escola Secundária de Peniche, foi uma realidade com muita percentagem de alunos em EMRC, mas eu sabia que (como professora) provavelmente iria encontrar situações em que não era assim. Mas, acho que até foi um incentivo para mim…

 

E no caso desta escola onde lecionou não havia aulas de EMRC há quatro anos. 19 alunos pode parecer pouco, mas acaba por ser um feito…

Acho que também se justifica o facto de serem 19: se não havia EMRC há quatro anos, os próprios alunos não conheciam a disciplina, nem os próprios pais, por isso era normal que na altura de matrículas acabassem por não os inscrever, por desconhecimento, ou porque inscreveram no ano anterior e não houve professor. Agora, havendo um professor já ajuda a esse conhecimento. E depois é trabalhar e dar a conhecer a disciplina. Não a impôr, não é por aí, mas dar a conhecer: a disciplina quer trabalhar isto, quem quiser aceita, quem não quiser, tudo bem.

 

Que expectativas tem para o próximo ano, quanto ao número de alunos e ao acolhimento desta disciplina na escola?

Nesta escola, pelo feedback que tenho tido dos próprios diretores de turma, acho que vai aumentar o número de alunos inscritos. Eu não sei se vou continuar lá, porque isto depende tudo dos concursos. Quem é professor sabe, que não está tudo nas nossas mãos. Mas, acho que o número de alunos vai aumentar, e se assim for fico muito contente. Mesmo que fosse só um aluno eu já ficava contente, porque é um aluno ganho.

Se tiver que ficar lá fico, se não tiver de ficar fico contente na mesma, por a escola ter mais alunos na disciplina. Fico de consciência tranquila, só me pesava se eu não tivesse dado o meu melhor e não tivesse feito tudo para dar a conhecer a disciplina. E isso acho que fiz, ou tentei fazer.

 

Este contexto de pandemia pode ter sido uma mais-valia para a disciplina chegar com outra relevância aos alunos e às famílias?

De certa maneira, sim. Principalmente nesta questão: a disciplina tem esta abertura de tentar descodificar algumas coisas que estão nas cabeças dos miúdos, e com a pandemia, esta questão de estarmos muito sozinhos, começámos a perceber que realmente precisamos dos outros, que o estar com os outros faz diferença, e acho que abordar esses temas na disciplina ajudou.

 

Foto Ricardo Fortunato/RR

Há quem confunda Educação Moral e Religiosa Católica com Catequese. Que temas é que são dados nesta disciplina? Que abordagens é que são feitas?

Acho que o principal é tentar valorizar a pessoa. Qualquer pessoa, e não só os cristãos, todos. A disciplina tem esta dimensão, como digo aos alunos, não fecha as portas a ninguém. Não é porque um aluno não acredita em Deus que a disciplina fecha as portas.

A EMRC tem esta abertura para o diálogo. Dialogar questões ligadas a Deus, e outras. Não se esconde, nem tem de se esconder, damos a conhecer uma pessoa que existiu na História, Jesus Cristo, mas não impomos a forma como isso é vivido e acreditado pelos cristãos. Damos a conhecer uma pessoa que viveu e fez coisas concretas: não julgar, amar o outro, cuidar, são coisas que Jesus fez há 2 mil anos e que nos convida a fazer hoje, crentes ou não. Isso é importante para o trabalho com os miúdos, perceber que Jesus é importante para todos, não só para os cristãos, e que pode ser um exemplo, mesmo que não se acredite. Mas é sempre uma proposta, nunca se obriga ninguém a nada.

 

Mas há uma leitura cristã da atualidade? E fala-se de tudo?

Claro, sim.

 

E isso agrada aos alunos?

Sim, agrada. Às vezes é preciso encontrar formas diferentes de trabalhar os temas. Depende das turmas… Entre as que tenho, é preciso achar maneiras mais dinâmicas para falar dos assuntos, para os interessar e fazer pensar. Se for muito parecido ao que as outras disciplinas fazem, já os começa a desmotivar. Para todos os efeitos, somos uma disciplina que eles escolhem, as outras não…

 

É uma disciplina de oferta obrigatória e de frequência facultativa…

Sim. Por isso acho que os professores de EMRC têm de ter este jogo de cintura, tentando fazer coisas muito dinâmicas.

 

Mas, esses assuntos, quais são? Ambiente, voluntariado?

Sim, fala-se de ecologia, dos valores, do Cristianismo e outras religiões, do diálogo inter-religioso; fala-se do viver em grupo, em particular com os alunos do 5.º ano, que chegam a uma escola nova, saber viver uns com os outros.

A disciplina também aborda temas específicos da Igreja Católica, de Jesus, o Natal…

 

E fala-se de temas que são dados obrigatoriamente na disciplina de Cidadania? Como é que é o encontro destas duas disciplinas, uma facultativa e outra de caráter obrigatório?

Há temas que se cruzam.

 

Foto Ricardo Fortunato/RR

Há perspetivas diferentes para apresentar os mesmos temas?

Pode haver, mas a EMRC tem sempre esta leitura cristã. Podemos falar de fraternidade, e temos uma leitura muito específica, cristã; também se pode falar do mesmo tema, mas de uma maneira que não é cristã, como o próprio Papa Francisco assinala.

 

Há curiosidade dos alunos em relação aos temas da religião, da espiritualidade?

Sim, eles questionam muito, sobretudo os mais velhos. Perguntam muito “quem é Deus?”. São inquietações normais, também as tive – não é por ser católico que se deixa de passar por essa fase – e os miúdos têm muito essas questões, querem saber. Principalmente com situações ligadas às notícias, e isso é bom. É preferível questionarem e a disciplina também pode ajudar, neste sentido de explicar, de dar uma perspetiva, contextualizar as situações.

 

As mais-valias da disciplina foram reconhecidas também pelos pais e  encarregados de Educação? Sentiu isso, este ano?

Sim, alguns mais do que outros, até porque estivemos à distância. Tem sido difícil existir esse contacto, os pais praticamente não vão à escola, mas penso que sim. Consegui falar com os pais de um 8.º ano, porque as meninas participaram num teatro, e percebi que valorizavam a disciplina, diziam que elas gostavam muito, agradeciam.

Os pais valorizam quando percebem o que é a disciplina, que não é catequese, quando entendem claramente o que é trabalhado, acho que acabam por compreender a importância que tem.

 

E na escola, os outros colegas, professores?

Os colegas também.

 

No caso desta escola, como referiu há pouco, não havia aulas de EMRC há quatro anos. O facto de terem corrido bem, que reação gerou?

Os outros colegas gostaram, pelo menos aqueles que vieram falar comigo.

 

E há diálogo com as outras disciplinas?

Sim, há diálogo. Claro que, a nível de atividades, é difícil, porque a escola tem poucos alunos na disciplina – um aluno ou dois, nalgumas turmas. Mas o diálogo entre nós existe, até perguntaram sobre a disciplina, o meu percurso. Tem havido muita abertura.

Eu fui às turmas todas da escola e até houve alguns professores que pareciam estar a divulgar mais a disciplina do que eu – porque tinham os filhos inscritos e gostavam muito, ou porque têm boas referências.

Houve muita abertura também por parte da Direção, sempre me senti muito acolhida, sempre valorizaram a importância da disciplina na Escola.

 

Foto Ricardo Fortunato/RR

Em tempo de matrículas, que argumentos adiantaria para quem possa estar a pensar escolher a disciplina de EMRC?

O primeiro é um cliché, mas se não experimentarem, não vão saber! É mesmo assim. Talvez para outras pessoas não tenha sido uma experiência muito boa, que não lhes interesse, mas sem vermos e nos informarmos, nunca saberemos. Esse é o primeiro argumento.

A disciplina ajuda-nos muito a ser mais humanos. A mim ajudou-me muito nisso. E isso é uma mais-valia para todos, para os alunos e para a própria sociedade. Ser mais humanos ajuda-nos na vida futura, no trabalho, nas relações com os outros.

 

Num balanço mais pessoal: valeu a pena ter feito esta opção? É bom ser professora desta disciplina de EMRC?

Sim, claro! Como em tudo, há dificuldades, mas não me arrependo de ter ido para Teologia e de, neste momento, estar a lecionar EMRC, porque me sinto verdadeiramente feliz e realizada com o que estou a fazer. Acho que era mesmo isto que Deus queria para mim, encontrei o meu caminho. Por mais dificuldades que existam, medos e inseguranças minhas, é para continuar a dizer sim.

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