Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

A consciência ecológica cresce de dia para dia e começa pelas mais pequenas coisas como… o email.

Sabiam que, em média, enviamos por dia 281 000 000 000 de emails? De acordo com o trabalho exaustivo e criativo de Mike Berners-Lee (irmão de Sir Tim Berners-Lee, inventor da www) em How Bad are Bananas?: The Carbon Footprint of Everything, o custo de um email em CO2 equivalente é:

  • 3g para um email spam;
  • 4g para um email normal sem imagens ou ficheiros;
  • 20g para um email com uma imagem ou ficheiro até 1MB;
  • 50g para os reencaminhamentos desse email ou considerando anexos grandes.

A Agência do Ambiente e Gestão de Energia Francesa estima num relatório; recente que, em termos profissionais, os emails gerados podem corresponder até 13.6 toneladas de CO2 equivalente de emissão de gases com efeito de estufa, ou seja, 136 kg por cada funcionário. Algo equivalente a 13 viagens de ida e volta entre Paris e Nova Iorque. Isso deve-se ao percurso energético percorrido pela informação na era digital que pode chegar, em média, aos 15000km. E à quantidade de energia necessária para manter os servidores que fazem essa gestão.

O assunto é mais sério do que poderíamos imaginar.

Por exemplo, se alguém enviar um email simples, e sem imagens, para 10 pessoas (40g). E se todos responderem a esse email, fizendo “Responder-para-Todos” (Reply-to-all) são 400g de CO2 equivalente gerados. Quando era novo ouvi de um especialista em publicidade que, qualquer reacção a uma acção, podemos sempre multiplicar por 1000 para ter uma ideia do impacte. Logo, neste exemplo, se 1000 pessoas tiverem o mesmo comportamento, a quantidade aumenta para 400kg de CO2 equivalente. De acordo com Mike Berners-Lee, a reacção em cadeia de um simples email, seria pouco mais do que emite um carro pequeno eficiente (330kg).

Se 1000 palavras equivalem a cerca de 0.5g de CO2, uma imagem de 1MB num email, como vimos atrás, representa 40x mais. Nunca uma imagem vale mais do que 1000 palavras produziu uma interpretação tão literal como esta.

Não há dúvida de que o email é um dos meios de contacto virtuais mais pessoais que existe no mundo. Mais pessoal do que qualquer mensagem partilhada em redes sociais. Mas não escapa às coisas pequenas que podemos mudar no nosso estilo de vida para diminuir a nossa pegada ecológica.

Há 20 anos, quando alguém enviava um email, considerava-se uma boa prática responder, nem que seja com um “obrigado”, independentemente da pessoa que o enviou esperar ou não uma resposta. É tão simples responder que seria uma falta de educação não o fazer. – ”Não vês emails!?” – começámos a ouvir dos nossos amigos e familiares. Porém, a escalada tornou-se cada vez mais íngreme, e com mais pessoas a dominar a arte de enviar emails, mais e mais começaram a entrar na nossa Caixa de Correio (Inbox). Há quem receba mais de 100 emails de trabalho por dia, fora os emails pessoais. Se tivesse de responder a todos, seguramente que, na sua campa, ao fim de uma vida de trabalho, veria escrito … “Ele via emails.” É isso que queremos para a nossa vida? Será “esta maneira de viver o trabalho [que nos torna] mais capazes de ter cuidado e respeito pelo meio ambiente, impregnando de sadia sobriedade a nossa relação com o mundo”? (Papa Francisco, Laudato Si’, 126)

Algo tem de mudar porque os emails falam mais de nós próprios do que pensamos.

A psicologia tem estudado que, o modo como gerimos o nosso email está relacionado com a nossa abordagem em relação à vida em geral. Há, inclusivé, um estudo; que mostrou como é possível usar o email para alterar o comportamento das pessoas. É cada vez mais relevante questionar diante de cada email – ”pedem-me para responder?”

Existem três SIMs simples que podem colocar-nos no caminho de uma pegada ecológica digital mais amiga do ambiente em relação aos emails.

SIM aos emails longos

Parece um contra-senso que esteja a recomendar que os emails sejam longos quando é representativa a sua pegada ecológica. Mas os emails curtos são mais poluidores ainda porque aumentam o risco de proliferarem sem acrescentar valor à comunicação entre nós.

Pensamos que as pessoas já não têm tempo para ler emails, logo, é melhor encurtar a mensagem. É verdade, mas isso é um fruto da massificação de um meio de comunicação destinado a ser pessoal, relacional, e não banal.

Um email longo:

  • está menos sujeito a ser mal interpretado;
  • dá trabalho a escrever e, por isso, mostra como tem valor o que pretendemos dizer ao outro;
  • ou acabamos por perceber, a meio da sua escrita, que o melhor é telefonar, estimulando o relacionamento entre as pessoas.

Depois…

SIM às respostas longas e pessoais

Se alguém nos envia um email curto e sentimos que seria necessário responder, sejamos longo pelas mesmas razões que antes recomendei do SIM anterior. Assim, além de dar mais valor ao CO2 equivalente que esse email custa, de certo modo, ajudamos os outros a ter um comportamento mais ecológico através do nosso exemplo. – ”se queres que responda ao teu email, já sabes, pode ser que seja longa 😉 porque penso em ti…”

Por outro lado EVITAR ”Responder-para-Todos” (Reply-to-All). Essa tendência deve-se ao modo como algumas aplicações – penso no Gmail – interpretaram o email como se fosse um chat, semelhante ao Messenger, WhatsApp, etc. Porém, o custo ecológico de uma mensagem de texto é 100x inferior ao de um email.

Por fim…

SIM a apagar emails

Não custa tanto como pensamos. Liberta a nossa Caixa de Correio (Inbox) e evita que a informação esteja a gastar energia num servidor, assumindo que esvaziamos o Lixo (Trash).

Por outro lado, quando chegamos a uma Inbox Zero experimentamos um sentido de realização que vale a pena. Faz parte do Reduzir da sustentabilidade, ou do minimalismo das coisas simples. Expressa o desapego. E se porventura pensarmos – ”mas, e se precisar desse email mais tarde?” – acaba por ser uma oportunidade de experimentarmos como saber perder é tão importante na vida como ganhar a valer.

Partilhar:
Share