Cardeal português convida a valorizar perguntas e espírito crítico, na formação das novas gerações

Fátima, 02 out 2026 (Ecclesia) – O cardeal português D. José Tolentino de Mendonça defendeu hoje que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) exige uma aposta na preservação do acompanhamento humano nas escolas portuguesas.
“A inteligência artificial pode processar, como sabemos, enormes quantidades de dados, reconhecer padrões, produzir textos, imagens, simular algumas funções da inteligência humana. A pessoa, porém, não é um sistema que processa informações”, advertiu o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação (Santa Sé), na abertura do Simpósio sobre a Educação e a Escola em Portugal, subordinado ao tema ‘Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização’.
A iniciativa, que decorre até este sábado, é promovida pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé no Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima.
“A pessoa compreende e atribui significado àquilo que vive, ama e sofre”, assinalou o responsável do Vaticano, insistindo na separação entre o cálculo informático e o sentir antropológico.
A intervenção, previamente gravada, partiu do simbolismo dos descobrimentos portugueses para explicar a atual encruzilhada pedagógica.
“Navegavam sem o mapa que faziam, porque surgiam as costas luminosas”, recitou o responsável católico, recuperando um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen.
O cardeal Tolentino Mendonça que as transformações da sociedade alteram o modo como as novas gerações procuram respostas para o sentido da própria existência.
“A inteligência artificial coloca-nos com uma nova radicalidade perante a questão do ser humano”, sublinhou o colaborador do Papa, evocando a encíclica ‘Magnifica Humanitas’, de Leão XIV.
O responsável da Santa Sé lembrou que os estudantes conseguem hoje interrogar as plataformas digitais sobre Deus ou sobre a morte numa questão de segundos, recebendo textos perfeitamente articulados.
“Se o acesso às respostas é cada vez mais fácil, o que significa hoje educar?”, questionou o cardeal madeirense, numa intervenção acompanhada por centenas de participantes.
O responsável da Santa Sé sustentou que a hiperpersonalização de exercícios, por “formas muito sofisticadas de tutoria”, falha em substituir a escuta presencial.
“A máquina pode transmitir informação, mas o educador pode ser o parteiro de algo”, ilustrou o poeta e teólogo, valorizando a intuição docente para descodificar sofrimentos escondidos.
A comunicação apontou o ritmo excessivo das máquinas como um perigo para o tempo de gestação necessário ao amadurecimento.
“A ‘Magnifica Humanitas’ recorda que a escola deve oferecer aquilo que o digital por si só não pode dar”, defendeu.
D. José Tolentino de Mendonça defendeu que o avanço tecnológico deve servir primeiramente para libertar a carga burocrática dos professores, devolvendo esses minutos ao encontro com os alunos.
“É necessário que a escola desenvolva o pensamento crítico”, acrescentou, pedindo que se devolva à máquina a pergunta sobre o caminho que percorreu até chegar a uma resposta.
“Se nós afastamos o erro da aprendizagem, afastamos a possibilidade de uma autonomia humana no seu pensamento”, insistiu.
O membro da Cúria Romana apontou à necessidade de identificar a origem e a credibilidade de toda a informação recebida.
“A escola que cria cidadãos livres é uma escola que cria mulheres e homens capazes de dizer não e de pensar pela sua própria cabeça”, declarou.
A intervenção realçou que a tecnologia só se torna verdadeiramente útil quando as populações conservam a vontade absoluta de prescindir da mesma.
“Os novos mapas de que precisamos não servem simplesmente para descrever o mundo em mudança, devem ajudar-nos a compreender para onde queremos ir”, apontou.
Após a conferência, decorreu um momento de diálogo e comentário, com o padre Luís Miguel Figueiredo Rodrigues, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.
OC
