«Esta participação da comunidade ucraniana e russa juntas é um sinal de que a fé se sobrepõe» – Luís Parente Martins

Sintra, 24 mai 2022 (Ecclesia) – O ‘Encontro Cristão’ em Sintra, organizado por cristãos de várias denominações, com o tema ‘A caminho’, teve participações da comunidade ucraniana e russa, mobilizando os presentes a refletir sobre a religião e a paz.

“O sinal mais bonito deste encontro é esta unidade que se conseguiu construir também entre Igrejas russas e ucranianas, todos estiveram presentes. Isto é um sinal de que a paz é possível, que através do diálogo e do amor recíproco é possível a unidade e superarmos estes conflitos: É um sinal de que a fé se sobrepõe e é capaz de unir todos como irmãos”, disse Luís Parente Martins, da organização do encontro, em declarações à Agência ECCLESIA.

Pelo palco do Auditório Jorge Sampaio, no Centro Cultural Olga Cadaval (Sintra), passaram, na noite deste sábado, um coro ucraniano, um casal do leste da Europa – ele russo e ela ucraniana, que rezaram nas suas línguas maternas, e um ucraniano que rezou em português, para além da peça de teatro que incentivou ao acolhimento.

A organização ecuménica do ‘Encontro Cristão’ em Sintra convidou também os participantes a serem solidários com a Ucrânia e pediu para doarem salsichas.

Segundo o entrevistado, esta ideia é “muito prática” e surgiu por ser um alimento “possível nas situações de fome” em zonas de conflito, onde as pessoas “pudessem comer sem ter talheres”, porque as facas e os garfos ficaram nas casas de onde fugiram ou que foram destruídas.

No final do ‘Encontro Cristão’ 2022, Luís Parente Martins salientou que esta iniciativa não terminava mas “começou ou recomeçou um caminho”.

“Uma coisa que de facto conseguimos quando juntamos os cristãos é perceber que aquilo que nos une é muito maior do que as diferenças: Deus que é um pai só pode sonhar em ver os seus filhos verdadeiramente unidos; É o começo ou é mais um passo neste caminho, de que de facto Jesus Cristo é caminho para todos mas será na medida em que os cristãos caminharem unidos”, desenvolveu.

Roberto Coelho tem 30 anos, colabora com a organização do encontro, e afirmou que “é incrível” ver como as pessoas “se unem para um propósito em comum”: “Deus no meio e o amor de Deus entre nós”.

O jovem da Paróquia de Algueirão-Mem Martins-Mercês, no Patriarcado de Lisboa, sublinha que o que “mais se destaca são as relações que são criadas” neste encontro, que “acaba por ser a tomada para ligar as baterias para carregar para o resto do ano”.

“O encontro não pode ficar aqui, tem de ir com cada um que veio e com cada um que vamos falar a seguir, com quem vamos estar e queremos transmitir esta unidade. Não só entre católicos e evangélicos, mas entre todos os cristãos”, realçou Roberto Coelho.

Foto: Encontro Cristão

Para Arlete Santos, da Igreja Evangélica de Sintra, esta dimensão das confissões religiosa se juntarem “tem sido um marco” na sua vida, e também “um reforço da fé”, que deve ser vivida em pleno e no “respeito pela diferença da forma como cada um conheceu Deus”.

“Em Sintra, as comunidades que constituem o nosso concelho, há uma partilha muito grande, principalmente nas situações em que há algum problema e tem havido esta possibilidade de trabalharmos juntos muito na componente social, consegue-se encontrar estratégias em conjunto para se dar resposta a várias necessidades”, desenvolveu em declarações à Agência ECCLESIA.

Para além das músicas, das reflexões de responsáveis das Igrejas Cristãs e dos testemunhos, o encontro refletiu sobre as relações intergeracionais – através do relacionamento entre uma jovem neta e a sua avó -, sobre redes sociais, solidariedade e acolhimento de refugiados, no contexto concreto da Ucrânia.

Sara Guerra, jovem da Paróquia de Algueirão-Mem Martins-Mercês, considera que hoje os jovens “estão muito virados” para as redes sociais, que tentam imitar, reproduzir, e acabam por se “perder um bocado e não tomar atenção ao que os rodeia”.

“Achamos que era importante trazer esse tema e alertar. Sabe sempre bem ter um ‘abre olhos’ e alguém que nos desperte para o mundo real”, indicou, lembrando que nas reuniões foi “engraçado ver as diferentes idades, o que é que cada uma faz, e quais são as suas preocupações”.

Durante a tarde deste sábado, o ‘Encontro Cristão’ realizou a atividade ‘Unidos a Caminho’, em forma de ‘peddy-paper’, e o fórum ‘O Caminho da História’.

CB/OC

O presidente da República Portuguesa associou-se mais uma vez ao encontro e enviou uma mensagem em vídeo onde afirmou que “mais do que nunca a fraternidade é fundamental, mais do que nunca o espírito ecuménico é fundamental”, e é crucial ultrapassar “capelinhas, visões de campanário”, porque “não há monopólio da verdade”.

“‘A caminho’ não pode ser um tema mais bem escolhido nesta ocasião da vida do mundo, da vida da Europa, da vida de Portugal. A caminho porque todos nós estamos a caminho, não é preciso ser-se cristão para se ter a noção que somos peregrinos na vida terrena, na construção diária da vida eterna. A vida eterna é uma realidade que se constrói no dia-a-dia, na vida de cada um de nós, na vida que se constrói com os outros, para os outros, pelos outros”, salientou Marcelo Rebelo de Sousa.

 

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