Sandra Côrtes-Moreira, Diocese do Algarve

«Expresso aos sacerdotes da França proximidade e apoio paternal diante desta provação, que é dura, mas saudável e convido os católicos franceses a assumirem as suas responsabilidades para garantir que a Igreja seja uma casa segura para todos». São palavras do Papa Francisco, proferidas no passado dia 6 de outubro, na sua Catequese, durante a Audiência-geral (fonte Vatican News).

Acabava-se de saber, no dia anterior, os resultados de um relatório independente sobre os abusos sexuais dentro da instituição, o relatório Sauvé (https://www.ciase.fr/rapport-final/), assim conhecido por ter sido liderado por Jean-Marc Sauvé, vice-presidente do Conselho de Estado da França e presidente da Comissão Independente sobre Abuso Sexual na Igreja (CIASE). Os números revelados por este trabalho, que foi realizado ao longo de dois anos e meio, são aterradores: entre «2.900 a 3.200 homens» foram «predadores sexuais» entre os anos 1950 e os dias de hoje, abusando de um número total de vítimas que chega a 330.000 menores, se forem somados os «leigos em missão da Igreja» (na educação católica e nas organizações juvenis) e não apenas os sacerdotes.

Foi um duro golpe. E, infelizmente, não um golpe inesperado. Já anteriores investigações (nos EUA e na Austrália, por exemplo) nos deram a conhecer a dimensão desta trágica situação dentro da Igreja. E esse é um dos primeiros pontos que dói.

Existe pedofilia dentro da Igreja. Todos sabemos. Mas a questão que temos de nos colocar agora já não é essa, mas outra: se todos sabemos, porque não tomamos medidas para que ela acabe, para que se identifiquem os culpados e sejam devidamente punidos pelos seus crimes?

Dói. Dói saber que se varreu para debaixo do tapete (e continuará a varrer??!…), em tantos lugares do mundo, histórias de gente que sofre, de vítimas que ficaram marcadas para sempre.  Esta conivência faz de quem sabe destas situações, o quê? Esta pergunta, que me assalta desde o momento em que ouvi o Papa Francisco proferir a palavra vergonha, com grande veemência, que resposta tem, por parte dos que possuem autoridade para agir? É mais confortável ignorar, ou fazer de conta que se ignora, mas será essa a atitude verdadeiramente cristã e aquela que a Igreja precisa e merece?

Espera-se que sejam as vítimas a expor-se, a ter a coragem de denunciar, como também afirmou o Papa, que salientou a «longa incapacidade da Igreja em colocá-los no centro das suas preocupações». E depois? O que acontece e o que se faz para promover, junto dessas vítimas, uma nova imagem da Igreja, de uma Igreja solidária, compassiva e onde o sofrimento atroz, de quem é mais vulnerável, deve significar muito? Volta a doer.

E quem trabalha nestas questões ou os jornalistas que as divulgam, dando o seu tempo e o seu empenho, para as trazer ao conhecimento público, como é visto pela Igreja, ou pelo menos, por alguns sectores dentro da Igreja? Dizem esses que são gente sem amor à instituição, que só quer trazer ao de cima os factos negativos e que trabalha para a destruição da Igreja…. Tudo o que afirmam é questionável, afiançam esses sectores: só se fala de estimativas, não se mencionam todos os factos, não se comparam os números de abusadores com os de outras classes profissionais, como professores ou médicos e o retrato destes estudos é exagerado e viciado…. Dói muito ver esta incapacidade de aceitar a verdade.

Pior ainda: esta gente, esses que revelam estas situações, aludem esses sectores, é instrumental nas lutas de poder que se vivem dentro da Igreja, porque falam do clericalismo, da rigidez do celibato, da inclusão de leigos (e entre eles, mulheres) nos cargos de responsabilidade da instituição, tudo coisas que o próprio Papa vê como pontos necessariamente a melhorar… Há, então, uma luta dentro da Igreja, ou a Igreja, composta por cada batizado, tem de ser, é uma força do bem, do bem total, aquele proposto por Jesus Cristo no mandamento do Amor? Se há quem não consiga ver isto, como dói!

É-me impossível não recordar o episódio do cego de nascença (João 9:39-41) e as palavras de Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece». Porque o pior cego, diz a nossa tradição, é o que não quer ver, nem agir, nem defender o que é justo e digno. E dói, dói mesmo, perceber que se questiona o mérito de devolver a quem sofre, a paz e a dignidade. Volto a ser criança e escuto as palavras da minha mãe: «Sabes, filha, quando fazemos mal e percebemos que o fizemos, é um ato de nobreza pedir desculpa e procurar reparar o mal que fizemos».

 

Sandra Côrtes Moreira

É Licenciada em Comunicação Social, pela FCSH da Un. Nova de Lisboa, Mestre em Comunicação Educacional, pelas Faculdades de Letras e de Ciências Humanas e Sociais das Un. de Lisboa e Algarve e Mestre em La Educación en la Sociedad Multicultural pela Universidad de Huelva. É doutoranda em Educomunicación y Alfabetización Mediática pela Universidad de Huelva.

Técnica Superior de Línguas e Comunicação na Câmara Municipal de Faro, é também Assessora do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, membro da equipa da Pastoral do Turismo e da ONPT.

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