Pedro Strecht, Médico Pedopsiquiatra

  1. Medo vs Pânico

O que as crianças e os adolescentes pensam e sentem depende ainda muito da atitude dos adultos. Eles são o principal espelho da sua estabilidade emocional. Os medos existem e protegem-nos: são estruturantes. O pânico desorganiza, produz mais riscos sobre uma situação de tensão. Uma função dos pais é serem verdadeiros ansiolíticos das respostas dos filhos.

 

  1. Informação, Conhecimento

É importante mantermo-nos informados. As novas tecnologias de informação permitem o acesso a um mundo infinito de factos e números: geram e desfazem expectativas e ilusões. Mas a função de filtro é muito importante nestes momentos. Nem tudo interessa. Nem tudo é verdadeiro ou tem uma base científica. Demasiada informação já não esclarece: confunde. Convém não esquecer nunca que aceder a informação não é sinónimo de ter conhecimentos (muito menos sabedoria).

 

  1. Desligar

Habituamo-nos a estar sempre ligados, totalmente dependentes da imagem e do ecrã, que agora já é o do telemóvel. O acesso ao que se passa no mundo exterior é imediato, pode levar-nos directamente do interior de nossas casas a um quarto de hospital na China ou em Itália. Ninguém se organiza emocionalmente bem se permanecer como contínuo receptor de tudo quanto sucessivamente está a acontecer. Limitar tempos para estar ligado, a receber informação. Gerar outros para poder desligar, respirar o silêncio, a pausa, um certo vazio estruturante; ajude os mais novos a fazer o mesmo.

 

  1. Isto Não É uma Guerra

A pandemia por coronavírus não é uma guerra. É uma situação difícil que obriga a adaptações importantes e temporárias. Todos os seres humanos estão do mesmo lado! Estamos em família, juntos, não há pais ou filhos a partirem para outros locais, a morrerem longe ou de forma inesperada. Por outro lado, a história recente indica que o homem tem vencido estas batalhas, mesmo que por vezes leve algum tempo. Há cem anos atrás (quase) todos os infectados morriam de tuberculose. Há trinta, o mesmo se passou com o VIH e a Sida. As vacinas estão a caminhos, outros medicamentos também. O tempo que demora a chegar a resposta é cada vez menor!

 

  1. Riscos; Do Possível ao Provável

Neste tipo de situação morrem, infelizmente, pessoas. São sempre os de maior idade, os já fragilizados por outras doenças. Em 2019, nos dois picos de gripe “comum”, só em Portugal morreram cerca de 3.300 pessoas; jamais atingiremos este número na situação actual. Estamos a agir bem! Também no nosso país, quando há cerca de 10 anos surgiu a epidemia por gripe A, os primeiros dados apontavam para cerca de 2 a 3 milhões de infectados e o risco de 75.000 mortos. No final, contaram-se perto de 167.000 infectados, faleceram 122 pessoas.

 

  1. Lidar com o Desconhecido

O que talvez mais inquiete nesta situação é o desconhecido. O que não se vê e o que não se controla. O homem habituou-se demasiado a ter a (falsa) ideia de que sabe e domina tudo em seu redor; o aumento da sua esperança de vida e todos os avanços científicos e tecnológicos criaram a falsa ideia de uma imortalidade física ou, pelo menos, de uma amortalidade, isto é, não morrer mais de causas naturais. Mas, crentes de todos os maravilhosos avanços que conseguimos, vale a pena respeitar um conceito de transcendência: nem tudo depende de nós. Será que ainda conseguimos?

 

  1. Olhar para Dentro

Viver a restrição de uma circulação pública, estar confinado a um espaço de casa ou de quarto, obriga a parar. A cessar transitoriamente determinado tipo de estímulos. A repensar sobre o âmago da vida, da nossa existência até. Então, há que aproveitar para distinguir o essencial do acessório, o central do satélite. Abandonar um registo habitualmente auto-centrado. Rever o conceito de “ser” muito para além do “ter”; “ser no mundo” é, afinal, “ser no outro”.

 

  1. Simplificar

Como no final de um poema de Mário Cesariny, perguntar a nós próprios: “afinal, o que importa?” Por vezes, como referiu o arquitecto Mies van der Rohe, “less is more”: menos é mais. Para quê tanto objecto em casa? Tanta peça de roupa no armário? Tanto detalhe ou complicação no dia a dia? Tanta hora presencialmente gasta no trabalho, afinal a característica maior deste novo “homo laborans”? Eric Schumacher, economista do final do século xx, também adiantava ao referir-se a um sistema em que as pessoas contam: “small is beautiful”.

 

  1. Pedir Ajuda, Manter a Esperança

As situações de tensão podem conduzir ao que designamos como um “pensamento terminal”, sentido como sem ajuda possível ou sem sentimento de esperança algum. Pedir e aceitar ajuda não tem que ser um sinal de fragilidade; todos somos humanos e também nos reconhecemos em diversos pontos fracos. Pedir ajuda pode ser apenas um sinal de humildade e lucidez. Por outro lado, a esperança é a luz que todos recebemos, mas também aquela que emitimos. Há coisas que, mesmo no escuro, brilham: são incandescentes. Assim também nós temos que ser agora: luz de luz. Ou, como se ouvia numa bela canção do grupo The Smiths, “there is a light that never goes out”

 

  1. Prosseguir, sendo

Há um conceito importante em saúde mental, que nos remete para a possibilidade de prosseguir, mesmo diante de situações adversas: “going on beign”, que apela à unidade de cada pessoa, não só enquanto ser individual, mas sobretudo como ser social, em constante interacção com os outros. E também recorda a ideia de que, por vezes, não é mesmo possível fazer mais nada do que serenamente deixar fluir o tempo, boiar à tona de águas difíceis e crer que, mesmo assim, a força da corrente nos levará em breve para a areia quente de uma praia tranquila.

 

Vai tudo correr bem!

VVV… Vamos Vencer o Vírus!

Vamos pôr um V no nosso olhar, nas palavras, nos sorrisos, nos abraços e nos beijos que, por agora, nos aconselham a não dar.

Vamos por um V às nossa janelas.

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