Enfermeira há 42 anos, Mercedes Bilbao fala de um «mundo paralelo» dentro dos hospitais que a pandemia revelou e do filho adotado que conheceu na mesa do bloco operatório

Lisboa 08 mar 2021 (Ecclesia) – Mercedes Bilbao, enfermeira há 42 anos, afirma que numa profissão de mulheres se encontram muitos homens “mães, irmãos, com capacidade de cuidar” e que, mais importante do que a divisão de género, “é ter com quem repartir o caminho”.

“No ser homem ou mulher o importante é ter com quem repartir o caminho, ter suporte e ter com quem dividir o caminho, porque estar sozinho é difícil. O suporte familiar, dos amigos é essencial, assim como o suporte espiritual também para nos mantermos, pelo menos, mentalmente e espiritualmente saudáveis”, destaca à Agência ECCLESIA a enfermeira atualmente a trabalhar no Centro Hospitalar de Lisboa Central.

Numa profissão onde o número de mulheres está em maioria, Mercedes Bilbao explica ser comum encontrar “homens com muita capacidade de ser mães, próximos, irmãs que cuidam”.

“É verdade que há sempre o toque do cuidado, da presença, do conforto, do estar próximo, porque nós invadimos o doente pelos procedimentos que fazemos quando lhe prestamos cuidados. Há características que estão ligadas ao ser mulher, mas eu reconheço que há muitos homens com capacidade de ser assim: mães, próximos, e irmãs de quem cuidam”, sublinha.

Do sonho de ser arquiteta, Mercedes Bilbao deixou-se encantar pela enfermagem, depois de ter sido voluntária, ainda jovem, no Hospital da Estefânia, em Lisboa, no serviço de pediatria, onde recorda ter encontrado situações muito difíceis mas que se revelaram motivadoras para seguir a área da saúde.

“É uma parte que é sempre motivante porque tem muito nível de stress, trabalho de equipa e muita necessidade de atualização permanente; estamos em permanente desafio, fica-se até viciado no stress, mas é motivador”, revela.

Mercedes Bilbao acompanhou a formação do Serviço Nacional de Saúde, “um bem que hoje todos reconhecem” e foi fazendo carreira na área perioperatória, estando atualmente no Hospital de Santa Marta, mas gerindo equipas do Centro Hospitalar de Lisboa Central, que compreende os Hospitais de S. José, de Santo António dos Capuchos, de Santa Marta e o Hospital D. Estefânia.

“A população percebe hoje a importância, o valor e a riqueza de ter um serviço para todos. Na altura não me apercebi, muitos não nos apercebemos, mas tivemos uma oportunidade única, que foi evoluir e fazer evoluir a população, e, ao mesmo tempo, fazer evoluir os cuidados de saúde. Eu, concretamente, estava num hospital inovador – Santa Cruz – com doentes de alto risco, numa equipa jovem, muito disponível para a mudança, e foi uma escola muito marcante que me ajudou no resto da progressão na minha carreira”, recorda.

O mundo no Hospital, apresenta, “é um mundo paralelo, à parte”, onde um profissional de saúde entra e esquece a sua vida fora, focado na prestação de cuidados, numa missão que tantas vezes tem consequências na vida pessoal das equipas de saúde.

Este mundo é hoje visível pelas consequências que a pandemia trouxe à sociedade: “Eu brincava a dizer que um dia em que fui ao supermercado onde vi toda a gente de luvas e máscara, pensei que o hospital tinha saído para a rua… toda a gente se preocupa com a limpeza, bastou um vírus para nos transformar”.

“A pandemia deu visibilidade ao nosso contexto pela negativa, num nível de trabalho, stress e sofrimento que nós não estávamos habituados”, prossegue.

 Mercedes Bilbao está envolvida na Associação dos Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses, um organismo que tem permitido lutar por condições mais completas para os profissionais, nomeadamente na circulação europeia de enfermeiros e na elaboração de práticas corretas para que os profissionais se sintam seguros no bloco operatório.

“O apoio do meu marido foi essencial desde o princípio da minha profissão, desde os início para as opções que tomo, para discernir. Mas é difícil hoje ter, em permanência, a capacidade de responder a tantas facetas ao mesmo tempo”, indica.

Habituada a gerir equipas, Mercedes afirma o quanto a espiritualidade inaciana a tem ajudado a olhar para as pessoas, a optar pelo que é melhor para todos “num trabalho de” e a acreditar que as pessoas são mais do que aquilo que mostram.

“A espiritualidade inaciana tem-me ajudado muito a considerar que as pessoas são melhores do que aquilo que na verdade são. Isso para mim ajuda muito na relação. Acreditar, fazer acreditar aos outros que eu as considero melhores, mais capazes, e normalmente as pessoas respondem”, apresenta.

Depois de um tempo difícil na sua vida, por ter perdida uma filha, Mercedes e o marido, Vasco Archer, adotaram um menino, que a enfermeira conheceu na mesa de um bloco operatório.

“Conheci o João em cima da mesa operatória. Estas crianças que nascem com cardiopatias congénitas associadas, no caso do João, a trissomia 21, são clientes habituais. Ele foi um desses, numa altura que estávamos inscritos para adoção”, recorda.

“Encontrei uma criança que ia ser operada, mas estava entregue à Segurança Social e teria condições para ser adotado mas ainda não estava nessa fase – por isso digo que não se deve fazer. O que fizemos foi algo arriscado. Esse caminho foi difícil, arriscado porque podia não acontecer e a criança ser devolvida, mas ele acabou por ficar em nossa casa e é mais um filho que temos”, afirma.

LS

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