Padre José Alfredo Patrício, Roma

Roma é um museu a céu aberto. Cada rua, cada esquina, cada lugar teria muito que contar se as pedras falassem uma linguagem que conseguíssemos decifrar. E, à semelhança de tantos outros sítios, transformou-se num museu sem visitantes. Os lugares estão lá: as pessoas é que deixaram de passar. É uma beleza sem contempladores.

E, no entanto, no meio de um deserto pode haver muita vida. Em muitos casos, é vida que passa despercebida e não faz notícia: é o caso dos vizinhos que, antes, mal se falavam e agora trocam bens de primeira necessidade; daqueles que partilham música das suas varandas ou dos seus terraços, ao final da tarde; que rezam no silêncio dos seus quartos (cf. Mt 6, 6); que usam as redes sociais e as plataformas online como modo de se reunirem e de partilharem os seus anseios, preocupações e projetos.

Mas, também no meio do deserto, o que tem vida ganha outro realce e capta mais a atenção: foi o que aconteceu ao mundo, quando viu o Papa Francisco, numa Praça de S. Pedro fustigada pela chuva, ao final da tarde daquele dia 27 de Março, caminhar como se levasse aos ombros o peso do mundo. “Demo-nos conta de estar no mesmo barco”, afirmou o Papa na sua homilia desse dia, confiando-nos um comentário ao Evangelho que vale a pena ler sem pressa, como quem saboreia.

E se a dimensão celebrativa da fé não deixa de ser essencial, o Papa não tem cessado de manifestar a sua proximidade e oração por outras vidas que se movem neste deserto: a daqueles que estão na primeira fila para ajudar os doentes, para acompanhar os que pereceram, para consolar os tristes e aflitos. Dar a vida pelos amigos, apesar de, por vezes, ser árduo, é compreensível e aceitável. Mas dar a vida pelos desconhecidos, pelos que não têm mais ninguém e jazem em hospitais e em lares, é um testemunho de vida que brota no meio deste deserto onde nos vimos obrigados a viver.

Esta cidade deserta, imagem de um país e de uma humanidade que se vê obrigada a repensar as suas prioridades, não deixa de ter uma vitalidade que, para muitos, nasce da fé, mas para todos, é uma oportunidade de redescobrir o valor da partilha e da vida em abundância oferecida por Jesus Cristo, que ressuscitou verdadeiramente e se põe a caminho connosco.

 

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