Homilia do Arcebispo de Évora na Missa da Ceia do Senhor

Caros Senhores Cónegos e demais Sacerdotes, estimados Diáconos, queridos Consagrados e Consagradas, esperançosos Seminaristas, zelosasIrmandades e Confrarias, amadas famílias cristãs, caríssimos jovens, meus Irmãos e minhas Irmãs.
Com a Missa vespertina da Ceia do Senhor, em Ǫuinta- feira Santa, a Igreja inicia o Tríduo Pascal e faz memória da instituição do Sacramento da Eucaristia, da instituição do Sacerdócio ministerial e do mandamento sobre a Caridade fraterna. Esses três mistérios recordados são compreendidos e vividos à luz do Lava-pés (Jo. 13,1-15) que é o centro do evangelho de hoje.
Na primeira leitura, (Ex. 12,1-8.11-14), ouvimos as orientações da ceiapascal judaica a qual era em essência uma ação de graças pelas ações salvadoras de Deus e ao mesmo tempo umaproclamação da esperança da verdadeira libertação. Sem dúvida, a identidade do povo de Israel fortaleceu-se com o êxodo. Ao longo dos tempos, a celebração daPáscoa foi adotada por Israel como memória singular deste acontecimentolibertador. No entanto, a celebração da Páscoa não era para o povo de Israel uma simples recordação do passado, mas era um caminho que os orientava para a libertação futura e definitiva, que aconteceria com a vinda do Messias. Embora a celebração contenha outros elementos simbólicos, o cordeiro é o essencial, pois eleé a oferta de cada família e de toda a comunidade, reconhecendo a bondade divina. Assim se ensina que a graça divina e libertadora age e realiza conforme adisposição humana do mesmo modo que a multiplicação dos pães se tornoupossível graças a doação de cinco pães e dois peixes realizada pelo rapazinho do Evangelho de São João (Jo. 6,8-9). O cajado na mão, as sandálias e os rins cingidos são símbolos da urgência da libertação. As ervas amargas ajudam amanter viva a memória da vida cheia de amargura e desalento produzida pela escravidão. O pão ázimo, pão sem fermento; é pão puro, por isto símbolo da fidelidade necessária para a conclusão da libertação.
Não foi por acaso que Cristo escolheu instituir a sua Eucaristia durante a celebração da páscoa judaica. Logo, a humanidade pode compreender que Jesus Cristo é o verdadeiro e definitivo Cordeiro Pascal. Assim, como foram marcados com o sangue do cordeiro as portas dos hebreus durante a libertação do Egito noAntigo Testamento. Também nós somos marcados com o Seu sangue e somos alimentados com a Sua carne. E do mesmo modo que as famílias deveriam oferecer um cordeiropascal, Cristo se oferece na Eucaristia e pede aos discípulos através do Lava-pés que eles permaneçam com a disposição de oferecer-se aos irmãos através doserviço da caridade fraterna.
Na segunda leitura (1Cor. 11,23-26), escutamos o mais antigo relato sobre a instituição da Eucaristia. O Apóstolo Paulo afirma que a Ceia do Senhor (naquela época já celebrada pelas comunidades) é o memorial da Morte do Senhor e quedeve ser celebrada até “que Ele venha” no fim dos tempos. Na Igreja da era apostólica a Ceia, mesmo já contendo algumas orações e cantos, era celebradana forma de uma refeição familiar, a ágape, e não continha ainda as fórmulas e orações fixas que hoje conhecemos na liturgia eucarística. Aqui, trata-se de um lampejo do nascimento da Tradição Apostólica consignada por São Hipólito e do Magistério dos Apóstolos gerados ao redor da ceia eucarística. Por isto, percebe-se no texto elementos essenciais da Eucaristia. É sacrifício sagrado; memória permanente da morte de Jesus; morte como dom pleno de sua vida dada livremente para a salvação do mundo; a sua Carne e o seu Sangue que são sustento para quem comunga e se compromete na prática da caridade.
No entanto, a beleza poética e teológica do texto paulino converge para uma contradição, graças à incoerência do contexto histórico que impulsionou o Apóstolo a escrevê-lo. Paulo dirige-se em tom de censura e repreensão pastoral,pois a comunidade de Corinto celebrava a Ceia com critérios egoístas que levava os ricos a menosprezar os pobres. A comunidade corria o risco de transformar amemória da morte do Senhor num rito sumptuoso e sem espiritualidade eucarística, marcada pelo amor agápico.
Através do texto paulino compreendemos que ao comungar na Ceia celebrada em memória do sacrifício de Cristo, as comunidades cristãs podem associar-se ao acontecimento sacrificial do Calvário realizado de “uma vez parasempre”, e que é atualizado em cada Eucaristia vivida em todo e qualquer tempo elugar.
Ao contrário dos outros evangelistas, São João (Jo. 13, 1- 15) substituiu noseu Evangelho a narração da instituição da Eucaristia pela apresentação do gesto do Lava-pés. Por que optou ele por este critério? Porque para São João, doar a própria vida foi o maior serviço realizado por Jesus. Deixar o seu Corpo e o seu Sangue para nos alimentar foi a perpetuação deste serviço. Logo o Lava-pés e a Eucaristia apresentam a mesma realidade. A Eucaristia – máxima expressão dadoação de Jesus Cristo – é apresentada através de um gesto de caridade fraterna. Se na Páscoa do Antigo Testamento o povo sente Deus através da passagem deum anjo e se esconde com temor diante dessa presença divina, no Novo Testamento o povo corre em direção a Deus, para o ouvir, ver e tocar; Ele é o Emanuel. Deus nãofoge do contacto, lava os nossos pés e entrega-se por inteiro no seu Corpo e noseu Sangue. Temos consciência de que quando recebemos a Eucaristia, podemos dizer: Hoje, comunguei do Corpo e o Sangue de Cristo, o Filho deDeus?
A Igreja, seguindo uma tradição de muitos séculos, recomenda o rito do lava-pés durante a Missa da Ceia do Senhor, em continuidade com o evangelhoque se proclama nesta celebração.
O gesto de Jesus na última ceia inspira-se num detalhe de hospitalidadecomum a muitas culturas orientais, pelo uso das sandálias nas empoeiradas estradas destas terras. No Antigo Testamento, Abraão insiste em lavar os pés aos três viajantes que passam por sua casa (cf. Gn 18, 4) e entre os primeiros cristãos, valorizava-se quem, como boas obras, tinha «praticado a hospitalidadee lavado os pés aos santos» (1Tm 5, 10).
No entanto, neste especial momento de despedida dos seus apóstolos, as palavras do Mestre dão ao gesto um significado mais profundo. Lavar os pés é manifestação de humildade e de serviço, em certo sentido antecipa a humilhação final da cruz salvadora, que se realizará poucas horas depois.
Primeiro, Jesus pede aos seus discípulos que O deixem lavar-lhes os pés. Assim como a todos os cristãos nos pede que nos deixemos servir, que nosdeixemos salvar pelo Filho de Deus sem nenhum mérito da nossa parte. Apremissa de qualquer empenho de vida cristã é receber a salvação, o perdão deDeus: «Se eu não te lavar, não terás parte comigo».
O passo seguinte é «lavarmos os pés uns aos outros», que é como que umavariante do mandamento do amor, «que vos ameis uns aos outros». Nesse convitedo Senhor podemos ver a importância de cuidar e acompanhar o caminho dosoutros. Os pés, de facto, são meio para caminhar, são imagem do nossoseguimento de Jesus. Lavar os pés dos nossos irmãos significa, portanto, sentirmo-nos responsáveis pela sua fidelidade, servir com alegria a cada um,pondo o «coração no chão para que os outros o calquem»[1]
Há uma última possibilidade, não explicitada nesta passagem, mas que podemos tirar de outra página do Evangelho: lavarmos nós os pés a Jesus. Trata-se do episódio da mulher que lava os pés do Senhor com as suas lágrimas, enxuga-os com os seus cabelos, beija-os e unge-os com perfume (cf. Lc 7, 44-47). Jesus tem palavras de louvor pela manifestação do grande amor desta pecadora: «são-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou». Pode considerar-se este gesto como a inauguração do culto eucarístico, que estanoite, de maneira especial, se prestará em todas as igrejas do mundo.
Celebremos, pois, estes santos mistérios pascais com piedade, espírito deadoração e profunda gratidão para com o Redentor que por nós morreu na cruz.Nesta celebração que recordamos a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, bem como o mandamento novo da caridade, no supremo símbolo do lava-pés peçamos ao Senhor, o Cordeiro de Deus, que o seu Amor conceda a todos nós a graça de podermos ser, um dia e para sempre, convidados do Seu eterno banquete nupcial.
D. Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora
