Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Num artigo; do New York Times escrito pelo jornalista John Schwartz, colocou-se uma questão pertinente: se conseguimos ir à Lua há 50 anos, e isso foi um feito, por que razão não poderíamos fazer algo com a mesma envergadura em relação às alterações climáticas? A resposta é duramente simples. Ir à Lua dependia da engenharia, mas as alterações climáticas dependem da vontade política. Mas eu acrescentaria que depende de ti e de mim, de cada um.

O Papa Francisco escreveu uma Encíclica inédita, a Laudato Si’, que coloca o relacionamento com o mundo natural ao nível da nossa união com Deus. Se amas Deus, ama a sua criação. Assim, uma falta de amor para com a criação é uma falta de amor para com Deus. É como chegares à Mona Lisa de Leonardo da Vinci exposta no Louvre, e pintares uns bigodes com uma caneta de marca branca. Muitos considerariam um crime, mas umas gramas a mais de CO2 equivalente não se sentem, ou vêem, logo, não produzem o mesmo impacte que vandalizar uma pintura como a Mona Lisa. Basta pensar na Emailoecologia.

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Não é só por motivos políticos que se torna difícil pôr a nossa inteligência ao serviço da criação de Deus, mas deve-se, sobretudo, à nossa consciência, distraída pela economia da atenção, que leva a lentas ou ineficazes mudanças no nosso estilo de vida. Aparentemente, a Encíclica do Papa não chega (ainda). Nem mesmo iniciativas como a protagonizada por Greta Thunberg. Muitos ficam sensibilizados, enchem o espaço de informação internético com mãos de polegar para cima, mas continuam a usar o carro como antes, viajar como antes, consumir como antes, responder-a-todos por email como sempre, etc. O que fazer?

Enfrentar um problema global leva-nos a pensar que a minha parte e a tua são demasiado pequenas para produzir efeito, mas essa é a idea de alguém que se considera solitário nesta cruzada. Bastaria mudar uma letra para se abrir todo um horizonte e o solitário converter-se em solidário. Tudo depende de todos, e de cada um, porque, na natureza, tudo está em relação com tudo, cada coisa com cada coisa, cada um com cada um. Assim, o que eu e tu fazemos, não afecta apenas a nossa vida pessoal, mas o planeta porque a vida é relacional.

Se o Universo tem milhares de milhões de anos, e se nós surgimos somente no último parágrafo da história deste pequeno planeta que navega pelo espaço, e se a emergência do ser humano na Terra correspondesse ao aparecimento da inteligência poderíamos dizer – ”por que razão Deus demorou tanto para produzir tão pouco…” – mas não. Em nós, Deus criou a consciência e a capacidade de entrar em comunhão, ou seja, a capacidade de entrar em intimidade relacional interior, exterior e para além disso. E o que fizemos dessa capacidade de comunhão consciente?

Hoje sentimo-nos mais conectados entre nós do que nunca. O fluxo de informação permite-nos estar do outro lado do mundo e conseguir comunicar com os que mais amamos. A rede permitiu-nos esse feito, mas surgiu, também, um efeito secundário inesperado. Não usamos apenas a rede para comunicar, mas consumir grandes quantidades de informação, de tal modo que, contemplamos mais o nosso ecrã, do que o mundo ao nosso redor. O efeito secundário de nos ligarmos à rede foi desligarmo-nos do mundo. Entrar em comunhão implica re-conectarmo-nos com a realidade natural à nossa volta. Mas está a ser difícil porque andamos depressa demais.

Se GPRS não chegava, criámos o 2G, 3G, 4G e estamos a caminho do 5G. O que queremos atingir só fica satisfeito com o já e agora. Gradualmente esquecemos o lado escatológico da nossa vida, isto é, o já, mas não ainda. Quando andamos a uma velocidade vertiginosa, a única forma de não enjoar é olhar para o ponto mais inerte no nosso horizonte, ou seja, aquele que relativamente a nós se encontra mais lento. Só me pergunto, é preciso continuar à mesma velocidade? E se, simplesmente, desacelerássemos?

O ritmo das conexões entre nós e o mundo natural não obedece à velocidade da rede, mas ao equilíbrio dos diversos ritmos. Mesmo cada um nós tem dificuldade em desacelerar e encontrar o ritmo certo para avaliar se o seu estilo de vida é, ou não, compatível com os ritmos do planeta e de outros com quem co-habitamos.

”Existe mais na vida do que aumentar a sua velocidade.” (Gandhi)

Não estamos apenas a esgotar os recurso do nosso planeta, mas esgotamo-nos, também, a nós próprios. A velocidade certa não é a rápida, nem a lenta, mas aquela que permite o espaço e tempo necessários para entrarmos em comunhão com os ritmos do nosso planeta. Isso significa darmo-nos conta desses ritmos e fazermos a experiência de sermos parte deles e não viver à parte. Desacelerar é reclamar o tempo e a serenidade de criar conexões – com as pessoas, a cultura, a natureza – com significado espiritual. Mas em tudo isto, qual é o ponto de partida para realizar com o planeta um feito maior do que chegar à Lua?

Talvez, reavaliar o nosso relacionamento com o tempo, começando pelas pequenas coisas, tais como, tempo para parar.

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