Autor tem dedicado a sua reflexão teológica ao diálogo entre crenças e descrença, analisando agora o impacto da pandemia e o tempo das «Igrejas vazias»

Entrevista conduzida por Octávio Carmo

Estamos a passar por uma emergência sanitária, social, política, económica, mas também uma crise de sentido. O que pode dizer a teologia aos que não compreendem a pandemia?

A crise não é necessariamente uma tragédia. A crise é um kairós (expressão grega que denomina um tempo oportuno), uma oportunidade, um desafio. A crise é um tempo para ajudar os outros, em primeiro lugar, e também um tempo para a reflexão, para voltar a pensar, para avaliar. Penso que esta crise é um tempo para reavaliar muito dos nossos valores, dos nossos estilos de vida.

A teologia deve dizer que há momentos de “noite escura” na nossa vida pessoal, na vida da sociedade, na vida da Igreja. A própria história da Páscoa é a história da ressurreição através da Cruz, do sofrimento; a ressurreição não é apenas um final feliz, na história da Páscoa. Cristo ressuscitado chega até nós de uma forma diferente, foi transformado nesta experiência de morte. Como cristãos, devemos aceitar a crise e o sofrimento como uma espécie de participação mística na Cruz.

A Igreja e a nossa teologia espiritual devem ensinar-nos que estes momentos obscuros, crises, são tempo de purificação, de aprofundamento.

 

Escreveu que muitos “não-crentes” começaram a fazer perguntas fundamentais. Este foi um tempo em que as pessoas vieram bater à porta da Igreja, oferecendo a possibilidade de falar a uma audiência mais amplas?

Sim. Quando a morte está a espreitar por cima do nosso ombro, todos fazem perguntas importantes.

Este é um tempo em que temos muitos peritos em pandemias, sobre as suas causas e soluções, muitas vozes. A voz da Igreja deve ser clara, mas não devemos oferecer soluções simples: em primeiro lugar, temos de ajudar as pessoas a passar por esta crise com a mente aberta e o coração aberto, tentando compreender os desafios que existem, para a Igreja e para todos. Para todos. Pode ser uma mensagem especial para cada pessoa.

Conheço pessoas que reavaliaram o seu estilo de vida, descobriram que a vida familiar era mais importante para elas do que fazer negócios, ter mais dinheiro. Numa crise, reconhecemos sempre o que é realmente importante para nós.

 

Há um ano começamos o tempo das Igrejas fechadas. Como avalia as prioridades da pastoral católica, no acompanhamento de quem procurava respostas? Ou foi apenas um compasso de espera, para pode voltar ao que se fazia antes?

A Igreja é muito plural e também dividida, há muitos entendimentos sobre “ser Igreja”, muitos estilos de pastoral. Haverá, certamente, pessoas que querem regressar ao que era antes, ‘business as usual’, mas isso não funciona.

O mundo está a mudar e os desafios desta pandemia vão aparecer durante muito tempo. Não devemos apenas suprimir esta experiência, porque cada sofrimento, cada tragédia, cada crise que é suprimida pode virar-se contra nós, do ponto de vista pessoal e coletivo. Devemos refletir, falar sobre isto. Muitos dos efeitos deste tempo vão aparecer lentamente, passo a passo, em muitas áreas da nossa vida – economia, política, mas também na nossa vida espiritual.

Este é um tempo em que muitos valores e muitas certezas são abaladas. As pessoas falaram do abalo das antigas certezas religiosas, mas agora também as certezas seculares foram sacudidas. Estamos num mundo sacudido.

Um professor falava da solidariedade dos sacudidos. Penso que a Igreja também deveria ser uma solidariedade dos sacudidos não apenas oferecer respostas simples, antigas, mas também apoiar as pessoas neste tempo…

Julgo que haverá pessoas a regressar ao que faziam sempre, mas para outros cristãos será uma oportunidade para se questionarem sobre o que é importante na nossa vida espiritual. Há quem pense que o Cristianismo é um passatempo para pessoas pias, que vão à Missa aos domingos.

Este tempo das Igrejas fechadas é um tempo para nos questionarmos, porque o Cristianismo não existe só quando há velas no altar. Cristo está em todos os lugares onde as pessoas ajudam outras pessoas. Deus não está apenas por trás da cortina do nosso mundo, Deus está presente no amor, esperança e amor das pessoas. E não só dos crentes.

Falo do amor não só como sentimento, mas como autotranscendência, o amor e solidariedade com as pessoas em necessidade. Vejo tanta energia de amor em muitas pessoas, que não são os crentes tradicionais, mas que também procuram pela fonte da sua energia espiritual e precisam de acompanhamento, de inspiração.

 

Alerta na sua reflexão que este tempo de Igrejas vazias pode ser um alerta para o futuro próximo. As pessoas estão mesmo a afastar-se de Deus ou procuram algo que não encontram na Igreja?

Insisto que devemos mostrar que o Cristianismo não é apenas um passatempo para os pios. A Igreja não existe apenas para si, para os seus membros, é um convite para todos. Temos de superar o nosso narcisismo eclesiástico, o nosso isolacionismo, deixar de estar centrados em nós mesmos. É o que o Papa Francisco chama de clericalismo, temos de superar este modelo, estamos numa sociedade diferente, não temos o monopólio da vida espiritual.

Muitas pessoas deixaram a Igreja, mas nem todos são ateus. Mesmo no meu país (República Checa), que é considerado o país mais ateu, não há muitas pessoas que se identifiquem com as Igrejas, mas continuam a ser pessoas espirituais. Outras deixam as Igrejas não porque tenham perdido a fé, mas porque procuram uma vida mais profunda face àquilo que encontraram na sua experiência de Igreja. Por isso, penso que temos de ir para lá das nossas fronteiras, ser um convite para todos. A Igreja, do ponto de vista teológico, é o sacramento, o símbolo da unidade de todos os povos em Cristo. Esta unidade será concretizada na dimensão escatológica, mas temos de trabalhar já para superar as fronteiras.

Particularmente agora, o Papa Francisco fala desta fraternidade, ‘Fratelli Tutti’. E não é só falar, esta viagem ao Iraque e o diálogo com o Islão mostram que a Igreja tem de trabalhar nesta fraternidade universal, solidariedade universal. Isto coloca, contudo, a questão de como entender a nossa identidade cristã neste catolicismo sem fronteiras. Devemos sempre perguntar-nos sobre a nossa identidade, perguntar onde está Cristo, agora, procurá-lo, procurar Deus.

 

Defende que algo tem de morrer para que a ressurreição possa acontecer, uma transformação profunda. O que é preciso deixar de parte para construir comunidades menos fechadas em si?

Este tempo em que as certezas são abaladas é um tempo para que as perguntas fundamentais vão cada vez mais fundo. No futuro, a Igreja será muito importante como um lugar de partilha e diálogo, como escreve o Papa na encíclica ‘Fratelli Tutti’.

Penso em muitos modelos de Igreja, para o futuro. Um é a metáfora usada muitas vezes pelo Papa Francisco, da Igreja como “hospital de campanha”. Temos de entendê-la de uma forma mais ampla: claro que há necessidade de ajudar as pessoas, fisicamente, é parte do nosso testemunho, mas este hospital de campanha também precisa de retaguarda, como espaço de busca, de imunidade, de recuperação. A Igreja deve desenvolver vários serviços, em analogia com um bom hospital, promovendo também a imunidade espiritual, num tempo de tantas notícias falsas, teorias da conspiração por causa da pandemia, tantas mentiras, propaganda, influências políticas. A nossa atmosfera está afetada não só pelo coronavírus, mas também pelo vírus do medo, da ansiedade, etc.

Nós, enquanto Igreja, temos de ajudar a curar esta falsidade, mas também purificar esta atmosfera espiritual, esta atmosfera moral, na transformação que está para chegar. O mundo não será o mesmo, precisamos de transformação na economia, na política…

Depois desta grande experiência de crise, precisamos de um novo estilo de vida. O Papa tem falado disso. E esta nova economia, esta nova política, precisa de uma biosfera moral, e temos de desenvolvê-la para a oferecermos à sociedade. Temos de pensar para as outras pessoas, não existimos só para nós, enquanto Igreja. Essa é a mensagem mais importante: somos para todos.

 

Esta Páscoa vai acontecer de novo, em muitos países, com um ‘jejum forçado da Eucaristia’, como escreve. O que é possível aprender, com esta experiência?

Todas as crises são uma oportunidade de avaliar muitas coisas e penso que precisamos, para o futuro, de centros para uma espiritualidade profundamente vivida. Talvez mais do que as paróquias normais, antigas, locais. Elas são necessárias, mas também precisamos de centros de espiritualidade, onde as pessoas aprendam a refletir sobre a sua vida pessoal, a vida da sociedade, numa abordagem contemplativa. E para partilhar estas experiências.

Este tempo das Igrejas fechadas foi, para muitas famílias, uma oportunidade para falar sobre a sua fé, porque nunca falavam sobre isso. Iam à Igreja, tentavam viver de uma forma ética, mas nunca partilhavam as suas experiências interiores. Agora, o tempo de oração comum nas famílias foi também um tempo de partilhar as experiências pessoais de fé, perguntas, dúvidas. Isso sustenta o modelo de Igreja local.

 

Outra questão que tem abordado é a visão da pandemia como um castigo de Deus…

O nosso Deus não é um Deus de vingança, é um Deus de amor. Esta ideia da pandemia como vingança, como castigo… Que imagem de Deus está por trás disso? Às vezes é uma projeção das próprias pessoas que assim falam, que projetam o seu lado mais sombrio, os seus próprios demónios, a sua agressividade, os seus medos. E criam este Deus de vingança, como instrumento dos seus próprios ódios e medos. Essas pessoas sabem muito bem quem é que tem de ser castigado. Fazem de Deus o instrumento da sua inimizade.

Eu penso que Deus não se faz presente pelas tragédias, Deus está presente nos atos de amor, de esperança e de fé no nosso mundo. Esta crise foi uma oportunidade para encontrar Deus nestes atos de amor das pessoas, Deus é o que há de sagrado no nosso amor.

Temos de refletir sobre esta experiência de amor como doação de si, autotranscendência, há sempre algo de sagrado nesta experiência de amor que se oferece a si próprio. É a experiência de Deus nestas situações.

Não devemos tentar criar esta imagem negativa de Deus como um castigo, como um instrumento nosso.

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