Em entrevista, Francisco aponta ao pós-pandemia, com desafios para a Igreja e a sociedade

Foto: Lusa/EPA

 

Cidade do Vaticano, 08 abr 2020 (Ecclesia) – O Papa alertou, em entrevista publicada hoje em vários meios de comunicação social, para a necessidade de preparar uma resposta às crises que se vão seguir ao tempo de isolamento, por causa da propagação do novo coronavírus.

“As pessoas que ficaram pobres por causa da crise são os despojados de hoje que se somam aos despojados de sempre, homens e mulheres que carregam o estatuto de “despojado”. Perderam tudo ou estão a perder tudo”, disse.

Francisco abordou, em entrevista ao jornalista e escritor inglês Austen Ivereigh, a sua vivência pessoal da crise provocada pela Covid-19 e os desafios que a pandemia coloca, no presente e no futuro, à Igreja e à sociedade.

“Qual é sentido para mim, hoje, de perder tudo à luz do Evangelho? Entrar no mundo dos despojados, entender que quem antes tinha, agora já não tem. O que peço às pessoas é para que cuidem dos idosos e dos jovens, que os coloquem debaixo das suas asas”, apela o pontífice.

Sobre a sua experiência particular, o Papa destaca que a Cúria Romana tem trabalhado por turnos, respeitando as medidas das autoridades de saúde, e que na sua residência, a Casa de Santa Marta, há dois turnos para almoço, para atenuar a aglomeração de pessoas.

“Cada um trabalha no seu escritório ou em casa com instrumentos digitais. Todos trabalham, ninguém fica no ócio”, precisa.

Neste tempo, diz Francisco, reza “mais ainda” e procura “acompanhar o povo de Deus”, o que o levou a permitir a transmissão em direto da Missa a que preside em cada manhã, pelas 07h00 (06h00 em Lisboa).

“Penso nas pessoas. Preocupa-me isso: as pessoas. Pensar nas pessoas ajuda-me, faz-me bem, subtrai-me ao egoísmo. Obviamente tenho os meus egoísmos”, relata, explicando que se confessa semanalmente, à terça-feira.

O Papa reflete ainda sobre as suas responsabilidades atuais e no que acontecerá depois, sustentando que neste momento, diante de uma crise, “a Igreja é a liberdade do Espírito, e não uma Igreja fechada nas instituições”.

“Qual será, nesse depois, o meu serviço como bispo de Roma, como chefe da Igreja? Este ‘depois’ já começa a ser trágico, doloroso, por isso convém começar a pensar nele desde agora”, indica.

Através da Esmolaria Apostólica, o “braço da caridade” do Papa, o Vaticano tem procurado “acompanhar as situações de fome e de doença”, num momento de “muita incerteza” e também de “criatividade”.

“Penso nos santos do dia a dia, nestes momentos difíceis. São heróis! Médicos, voluntários, religiosas, sacerdotes, profissionais da saúde que fazem o seu serviço para que esta sociedade funcione”, precisa.

Preparem-se para tempos melhores, porque nesse momento isso nos ajudará a recordar as coisas que aconteceram agora. Cuidem-se bem para um futuro que virá. E quando este futuro chegar, fará muito bem recordar o que aconteceu agora”.

Francisco assinala que alguns governos “tomaram medidas exemplares”, com prioridades bem definidas, para defender a população, mas sublinha que as preocupações “estão ligadas à economia”.

“Dir-se-ia que, no mundo financeiro, sacrificar é uma coisa normal. Uma política da cultura do descarte. Do início ao fim. Penso, por exemplo, no diagnóstico pré-natal”, exemplifica, aludindo ao aborto de bebés com a síndrome de Down.

“Uma cultura da eutanásia, legalizada ou oculta”, aponta, criticando o que considera como “onda de neomalthusianismo”, visível na seleção das pessoas segundo a “possibilidade de produzir, de ser útil”.

O pontífice sublinha que esta crise atinge todos, vendo neste momento “um apelo à atenção contra a hipocrisia”, como a dos que falam da fome no mundo, enquanto fabricam armas.

Os sem-abrigo continuam sem-abrigo. Há alguns dias vimos uma fotografia de Las Vegas, na qual eles tinham sido colocados em quarentena num estacionamento aberto. E os hotéis estavam vazios. Mas um sem-abrigo não pode ir para um hotel. Aqui pode ver-se em prática a teoria do descarte”.

Foto: Lusa/EPA

A entrevista aborda as “oportunidades” abertas pela crise, a começar pela consciência da necessidade de “diminuir o ritmo de consumo e de produção”, respeitando o ambiente.

O Papa lamenta que se tenham ignorado os sinais de alarme da natureza e se esqueçam fenómenos como os incêndios na Austrália ou o desaparecimento das calotas polares, considerando que é “tempo de recuperar a memória”.

“Temos uma memória seletiva. Gostaria de insistir nisso. Impressionou-me a celebração do 70.º aniversário do desembarque na Normandia. Com a presença de personagens da política e da cultura internacional. E festejavam. Certamente, foi o início do fim da ditadura, mas ninguém recordava dos 10 mil jovens que morreram naquela praia”, adverte.

Hoje, na Europa, quando se começam a ouvir discursos populistas ou decisões políticas de tipo seletivo não é difícil recordar dos discursos de Hitler em 1933, mais ou menos os mesmos que alguns políticos fazem hoje”.

A entrevista foi publicada em quatro publicações: ‘The Tablet’ (Inglaterra), Commonweal (EUA), ABC (Espanha) e ‘La Civiltà Cattolica’ (Itália).

OC

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