Especialista sublinha que experiência de pandemia deve afastar qualquer plano de legalização da eutanásia

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 24 abr 2020 (ecclesia) – A psiquiatra Margarida Neto, membro da Associação de Médicos Católicos Portugueses, defende a necessidade de acompanhamento especial para idosos e profissionais de saúde, no pós-pandemia, rejeitando que após esta experiência se volte ao tema da eutanásia.

“Sabemos todos, pela forma como o vírus se propaga, que vai ser preciso confinar e proteger mais os idosos. Essa proteção tem de ser bem explicada, e tem de se arranjar maneiras de combater a solidão e fazer um acompanhamento diferente”, refere, na entrevista semanal conjunta Renascença/Ecclesia, publicada e emitida à sexta-feira.

A especialista destaca que os mais velhos devem ser acompanhados para evitar que sejam discriminados “na sua solidão” e realça que os profissionais de saúde vão precisar de acompanhamento, após a atual crise sanitária.

“Não me lembro de, em Portugal, os profissionais de saúde terem trabalhado com tanto espírito de missão, são verdadeiros defensores do Serviço Nacional de Saúde, verdadeiros soldados do país! Mas, isto tem um preço, e às vezes – quase sempre – quando estamos na linha da frente, quando é preciso agir, as pessoas agem ultrapassando os seus limites”, justifica.

A psiquiatra na Casa de Saúde do Telhal, da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, e uma das responsáveis pelo Gabinete de Escuta do Patriarcado Lisboa, espera que a sociedade aprenda a lição do confinamento, para salvar vidas.

Este esforço, que é um esforço da sociedade toda, em que estamos todos empenhados, que coerência tem com a eutanásia e com a cultura de morte que grassava há dois meses por aí?”.

A entrevistada fala das mudanças que a pandemia obrigou a fazer naquele que é o maior hospital psiquiátrico do país, mas diz que os doentes têm sido “verdadeiros heróis”, e que cada novo dia sem casos de Covid é “uma batalha” ganha.

“A área de alcoologia tem sido uma surpresa também, porque os doentes estão a beber menos. Provavelmente iremos assistir a um aumento de consumos, mas depois do confinamento”, acrescenta.

Margarida Neto fala ainda da sua experiência pessoal de aprendizagem, durante a pandemia, em particular no recurso às tecnologias.

“Fazer consulta de psiquiatria por telechamada, com imagem, era uma coisa que eu nunca na vida pensei fazer, mas tenho feito e as coisas não tem sido más. Parece que o valor da palavra, a atenção à palavra readquire aqui um valor importantíssimo”, aponta.

Ângela Roque (Renascença)/OC

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