Francisco Ferreira, professor no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e Presidente da “ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável”, uma organização não-governamental de ambiente com atividade nacional é o convidado desta semana da entrevista Renascença/Ecclesia

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Foto: RR/Joana Bougard

A COP26 de Glasgow decorre seis anos após a Conferência de Paris, na qual se estabeleceu um Acordo que visa limitar o aumento da temperatura média global do planeta. Há uma preocupação em estabelecer, mais uma vez, objetivos palpáveis, como a limitação do aquecimento a 1,5 graus, a proteção das flores, a preservação da biodiversidade… Mas a opinião pública fica, às vezes, com a sensação de que estamos a andar em círculos e não se consegue avançar… é assim?

Exatamente é uma conferencia absolutamente decisiva. Como diz o secretário-geral das Nações Unidas é decisiva para a humanidade. E ele vai mais longe quando diz que está em causa a própria extinção da espécie humana. Eu acho que aquilo que ele quer dizer é que esta conferência decide efetivamente que uma parte grande da humanidade que vive em condições piores, que já está num estado de pobreza significativo, com aquilo que serão as secas, as cheias, a subida do nível do mar; essa parte da humanidade está efetivamente em risco de extinção. Porque são os povos mais vulneráveis aqueles que irão sofrer mais com as consequências do aquecimento global, cujos responsáveis historicamente são os países desenvolvidos, mas onde também já os países em desenvolvimento têm a missão de reduzir a emissão destes gazes com efeito de estufa. O nosso planeta felizmente, a nossa atmosfera funciona como uma estufa e por isso é que a temperatura média é de cerca de 16 graus, mas se nós colocarmos determinados gazes como dióxido de carbono, metano, entre outros em quantidades excessivas, esta atmosfera vai aquecendo e já aqueceu cerca de 1,1 graus celsius desde a era pré-industrial.  Temos uma folga muito curta de 0,4 graus porque acima de um aquecimento de 1,5 os cientistas de forma inequívoca dizem-nos que as consequências serão efetivamente dramáticas.

 

Quão urgente é agir de imediato, como têm pedido tantos cientistas e ativistas? A humanidade enfrenta, efetivamente, uma ameaça sem precedentes?

Muito honestamente eu acho que é exatamente isso. A humanidade enfrenta um desafio sem precedentes. Não apenas pelas alterações climáticas em si, mas também porque estamos a perder a nossa biodiversidade e o próprio aquecimento global põe ainda mais em causa a sobrevivência dessa mesma biodiversidade. Portanto, nós estamos num momento extremamente complicado porque esta conferência em Glasgow é verdadeiramente a última das últimas chamadas. Tudo aquilo que nós atrasarmos a partir daqui começa a ser praticamente irreversível para garantirmos que não vamos acima de um grau e meio. E é tão mias irreversível quando falamos principalmente dos oceanos. O que os cientistas nos dizem é que: eu até posso conseguir que o clima ao longo dos próximos tempos atinja um grau e meio, possa subir ligeiramente, e estabilize e depois até decresça; mas há um lastro muito maior naquilo que é a resposta da parte dos oceanos em termos de subida do nível do mar devido à expansão térmica dos oceanos porque está mais quente e também devido ao degelo. E essas consequências não falamos de décadas. Podemos falar de séculos.  E há muitos países que ficarão literalmente inundados, desaparecerão. Falo de ilhas no Pacífico, países como o Bangladesh, onde realmente está em causa o seu próprio território.

 

Foi iniciado um processo de transição, que incide na questão das emissões de gás com efeito de estufa, mas quão rápido será esse processo de transição e será capaz de respeitar os prazos ditados pela ciência?

Em primeiro lugar a própria ciência através do painel intergovernamental para as alterações climáticas, quer no seu relatório especial de 2018, quer agora nos relatórios que começaram a ser anunciados em agosto deste ano e cujos detalhes vão ficar a ser conhecidos ao longo dos próximos meses, nos diz que é possível. Mas é possível se realmente nós fizermos compromissos políticos que cumprimos e se esses compromissos políticos forem ambiciosos. Ora, não é isso a que nós temos assistido. E realmente, mais uma vez citando António Guterres, ele no início desta conferência, na segunda-feira passada dizia basta, não podemos continuar se quisermos realmente assegurar um planeta onde as próximas gerações possam viver com qualidade, e nalguns casos penso que é mesmo já possam viver; nós não podemos continuar a queimar o carvão, o gás natural, o petróleo como temos feito. E mesmo entre Paris e agora Glasgow, tirando o ano da pandemia, e apesar de todos os compromissos, o que é facto é que nós estivemos sempre acima do que aquilo que muitos dos países tinham já assumido que iriam inverter e tratar e resolver. Portanto, há aqui um forte pessimismo porque a urgência é grande. Daí o apelo de todos. O apelo de quem está nas manifestações….

 

Eu queria mesmo falar-lhe disso. Além das questões políticas e económicas, está em causa um “imperativo moral”, digamos, face ao futuro humanidade. A voz do Papa tem sido das mais ativas, na defesa da terra e dos mais pobres, pedindo que este grito seja escutado. Qual é a importância destas intervenções?

 

Voz do Papa Francisco que começou aliás uns meses antes de Paris, com a ‘Laudato Si’ e uns meses antes também de traçarmos os objetivos para o desenvolvimento sustentável e a agenda para o futuro…

 

Como é que uma voz global incontornavelmente tem importância na chamada de atenção para o que se está a passar, por aquilo que o Papa chama o grito da terra, o grito dos povos e o impacto que a alterações climáticas têm sobre o ambiente e sobre as populações mais desprotegidas?

Tem havido, não apenas da parte do Papa Francisco de forma extremamente ativa e assertiva, mas até numa perspetiva ecuménica com outros líderes religiosos, este apelo de que precisamos de agir e de salvar o planeta. E realmente é frustrante como vemos que nós temos aqui uma oportunidade de mostrar a coesão entre os povos, a solidariedade, mudarmos uma sociedade que é excessivamente consumista e à custa disso precisa de mais bens e de mais energia – nós temos de ir buscar lá bem ao fundo todos estes combustíveis que queimamos… é realmente a verdadeira ecologia integral de que o Papa fala que nós precisamos de passar à prática, onde as pessoas estão disponíveis, mas os líderes continuam a pensar muito no curto prazo. Vão cedendo, vão anunciando, mas ainda longe daquilo que é efetivamente necessário.

 

Várias organizações têm chamado a atenção para o impacto das alterações climáticas nas populações mais pobres, obrigadas a emigrar e sem possibilidade de defender os seus modos de vida tradicionais. Há uma “dívida ecológica” do Norte, em relação ao sul global?

Claro que há. Porque foi á custa do uso cada vez extenso da energia proveniente da queima dos combustíveis fosseis que se estruturou toda a nossa sociedade. E obviamente foi por aí que nós atingimos o nível de crescimento económico – nem sempre de desenvolvimento – porque nós termos países considerados desenvolvidos e ricos que têm ainda enormes desigualdades significa que nem sempre toda a população goza desse desenvolvimento que seria desejável. Mas sim, não tenhamos duvidas de que a União Europeia, Os Estados Unidos, a própria Rússia que está aqui numa situação intermédia, o Japão, a Austrália apesar de estar no hemisfério sul… este chamado hemisfério norte foi este grupo de países, aliás só uma pequena nota: há 10 países que são responsáveis por 64% das emissões atualmente, e claro que eu tenho aqui países como a Índia e a China. E depois os últimos 100 países no ranking são apenas responsáveis por 3% das emissões.

 

E há também a promessa de 100 mil milhões de dólares para apoiar a ação climática nos países em desenvolvimento. Essa meta, porém, não foi cumprida no ano passado?

Não. Nós estamos em 87 mil milhões. Não estamos demasiado aquém, mas estamos aquém. E há outras necessidades porque uma coisa é este financiamento que é destinado aos países em desenvolvimento se poderem adaptar a um clima em mudança e por outro lado também poderem inverter aquilo que é o seu desenvolvimento no sentido de apostarem nas energias renováveis, apostarem na eficiência energética. No fundo estruturar uma nova economia com menores impactos no ambiente, mas tenho por exemplo outras questões como aquilo que nós chamamos as perdas e danos. O melhor exemplo foi um tufão nas Filipinas que foi avassalador em 2012. E aí a dimensão daquela tempestade foi muito ampliada por causa das alterações climáticas e levantou-se a questão de como é que os países em desenvolvimento com menos recursos face a uma consequência desta natureza, como é que eles têm capacidade económica de reagir. E, portanto, em cima da mesa desta conferencia está o financiamento. Há um dia específico para esta discussão que é esta segunda-feira, sobre ir buscar mais fontes de apoio para que haja um mecanismo de realmente garantir que no caso de algo excecional – que cada vez é mais provável acontecer em termos climáticos possa ter uma resposta imediata em termos de apoio. Porque uma coisa é furacão no sul dos Estados Unidos, em que em inclusive tenho dinheiro, para os próximos anos. outra coisa é uma tempestade avassaladora em países que não têm os meios para o fazer.

 

Foto: RR/Joana Bougard

A pandemia deixou-nos uma frase marcante: que ninguém fique para trás. Olhando para a mudança que é necessária, há o risco de que medidas positivas, como a descarbonização e a transição energética, poderem vir a gerar novas formas de exclusão?

Esse é um aspeto absolutamente crucial, quer entre países, quer dentro do mesmo país. Por exemplo, em nossa casa usamos a eletricidade e o gás, no dia a dia, em termos de aquecimento e conforto. Mas temos 2 milhões de portugueses sem dinheiro para conseguir garantir esse conforto, durante o inverno. Ora, se vou penalizar os combustíveis fósseis, nomeadamente o gás, por exemplo, isso significa custos acrescidos. É preciso ter mecanismos de apoio, de financiamento, antecipados.

Tenho o caso da Refinaria de Matosinhos, os trabalhadores antes do Natal souberam que ia fechar… Tenho de antecipar, de planear, de levar a sério esta transição energética, que tem de ser feita, mas não pode realmente deixar ninguém para trás.

 

Qual é a importância de uma mobilização global que parta dos cidadãos, das comunidades, das novas gerações, das associações, para pressionar efetivamente quem tem o poder de decidir?

Eu acho que é absolutamente crucial. Essa mobilização global tem diferentes formas, de acordo com os regimes de cada país, mas foi sem dúvida o papel de Greta Thunberg, o papel das manifestações que tiveram lugar em inúmeras partes do mundo que resulta numa forma de pressão imediata, que funciona como alerta. Neste momento, é através desse trabalho, do grito dos povos, dos mais desprotegidos, dos que acreditam que está em causa o futuro do planeta, que os políticos acabam por ouvir. O voto, nos países democráticos, ouve-se de 4 em 4 anos, de 5 em 5 anos, mas a emergência climática é tal que precisamos de vir para a rua mostrar este clamor.

 

Neste contexto, que significado assumem gestos como a declaração assinada a 4 de outubro por vários responsáveis religiosos, no Vaticano, para travar as alterações climáticas? Quem tem a possibilidade de influenciar a opinião pública tem o dever de usar a sua voz?

Eu acho que sim, do ponto de vista ético e moral, não tanto até já com a própria sociedade deste momento ou connosco, mas acima de tudo pela responsabilidade que temos com o futuro. É isso que temos de perceber, não é ficção: há pessoas que se recusam a ter filhos, porque não querem que eles vivam num mundo que os ameaça, que os porá em causa, isso é extremamente grave. Isto significa que não estamos, de forma alguma, a deixar o legado que nos competia.

 

Pouco antes da COP26, 72 instituições religiosas, incluindo 37 do Reino Unido, anunciaram o desinvestimento dos combustíveis fósseis. São mudanças concretas que servem para marcar um novo rumo?

Sem dúvida. É preciso sermos transparentes, esclarecer, há muito “marketing verde” abusivo, diria. Temos de ter algum cuidado com os anúncios que são feitos, com a sua leitura, mas todos esses compromissos são vitais e quanto mais imediatos forem, mais importantes são. É neste juntar de vontades e no manter da esperança – que nasce da nossa ação, do nosso apelo, da nossa força -, que nós – a título individual, os países, as diferentes frentes religiosas – conseguimos fazer esta mobilização.

 

As mudanças necessárias podem parecer assustadoras, pela escala que exigem, mas começam também por uma mudança de hábitos em que todos podem participar. É essencial esta consciência?

Eu iria mais longe: antes de mudarmos os hábitos, precisamos de mudar aquilo que é a nossa ideia de felicidade, percebermos que não é à custa de termos mais, mas de sermos mais, que se faz a diferença. E a seguir vamos aos hábitos…

 

Contrariar uma ideia perversa de que a felicidade depende do que ainda não se tem…

Exatamente. É crucial perceber que essa é a nossa verdadeira mudança de paradigma: aquilo que construímos com os outros, a bem dos outros. A nossa qualidade de vida não tem a ver com termos tudo e mais alguma coisa, porque nessa altura ainda vamos querer mais. A nossa satisfação pode ser feita com menos e mesmo assim temos perfeitamente toda a qualidade de vida, todo o gozo de viver. É essa a mudança de paradigma que é crucial.

Depois, sem dúvida, vamos aos hábitos: vamos preferir o transporte público, sempre que pudermos; moderar um pouco mais a quantidade que comemos, porque faz bem à saúde e ao ambiente; vamos desligar umas luzes que estão a mais. Tudo isso são pequenas dicas fundamentais. Mas o mais importante de tudo é perceber que são precisos empregos, uma sociedade diferente, com uma pegada ecológica muito menor. Só assim é que conseguiremos garantir um futuro melhor.

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