Cooperação/Desenvolvimento: «Viver com a população, acompanhar projetos, dá-nos muita força interior» – Miguel Amado

Apelidado de «provocador» por um bispo do Congo,  esteve ao serviço das relações externas da Comissão Europeia e chegou a enviar, como relatório, «um cartoon»

Foto: Agência ECCLESIA/LS

Lisboa, 10 jun 2026 (Ecclesia) – Miguel Amado, com 81 anos, trabalhou em vários países africanos e da América latina, ao serviço das relações externas da Comissão Europeia, onde conheceu “voluntários e organizações não-governamentais apostados na construção do mundo”.

“Viver com a população, e sobretudo, acompanhar os diversos espaços para o desenvolvimento, é muito positivo, e muito construtivo. Dá-nos muita força interior, ver as coisas melhorarem, desde novas barragens para a água, para a rega, melhorar as sementes, criar novos equipamentos para produzir mais e melhor, depois o processo da comercialização, todo um processo que é grande e longo, por vezes, difícil, mas que conta com o envolvimento das pessoas que veem passos positivos”, recorda à Agência ECCLESIA.

Foi em 1989 que Miguel Amado, formado em engenharia agrícola, concorre para a Comissão Europeia, e inicia a sua careira ao serviço das relações externas, cujas funções o levaram a trabalhar em países em vias de desenvolvimento.

Começou funções em Madagáscar – “onde acompanhei três golpes de Estado”-, passou pelo Burundi – “onde a guerra entre tutsis e utus foi muito difícil” -, República Dominicana – acompanhando também Cuba – Guiné-Bissau, Bruxelas, Congo Brazzavile foram países onde exerceu funções, às vezes focado em programas de desenvolvimento agrícola, outros em negociações para a paz.

“Na Guiné-Bissau, durante a guerra civil e o golpe de Estado, as negociações de paz aconteceram em minha casa; em Timor, onde estive em cinco missões, procurámos restabelecer a paz e o respeito pela constituição. Em todos os países onde estive procurei sempre com respeito, mesmo ao nível com os presidentes da República, falava abertamente das fraquezas e do que era necessário alterar para melhorar a situação social, económica e de justiça e, sobretudo, o respeito humano”, regista.

Israel e a Faixa de Gaza foram territórios onde esteve e onde percebeu que as negociações “se fazem tantas vezes a partir de critérios económicos”.

Ao longo do seu percurso Miguel Amado privilegiou o diálogo, o acompanhamento próximo das populações, procurando que a sua ação desencadeasse processos em benefício da população.

No final de cada missão diplomática, era seu dever enviar um relatório onde apresentava o trabalho realizado: “O que eu mandava para Bruxelas era a situação do país real e procurava fazer entender como a cooperação e o desenvolvimento tinha que ser sempre atualizado”.

“Lembro-me de uma ocasião, na República Dominicana, em que encenei um teatro sobre a pobreza. Consegui entregar o texto e a peça de teatro foi com crianças. E quando eu comecei nos 40 segundos a falar sobre pobreza, a criança interrompe e diz: «Senhor, a pobreza somos nós». A mensagem passou. Fiz isto em vários países. O meu relatório mais curto foi um cartoon, sobre o Congo, onde se via um país presente muito rico, o dinheiro a sair da algibeira do presidente e os pobres a chorarem sem dinheiro”, recorda.

Miguel Amado reconhece que alicerçava o seu trabalho nos Direitos Humanos mas também na Doutrina Social da Igreja, usando o diálogo e o respeito sobre o diferente como instrumentos de trabalho.

“O diálogo muito importante e o respeito. No diálogo que tive com a Frelimo, no mato, falaram-me de Deus várias vezes. Um deles disse-me, olhando para um crucifixo no carro: «Aquele que está ali naquele crucifixo morreu pelo povo». Muitos deles tinham uma formação num seminário e havia uma certa inspiração cristã. Aprendi isso com eles”, explica.

A reforma e o regresso a Portugal, e com isso a doença terminal da esposa, aproximaram Miguel Amado do Instituto Português de Oncologia onde hoje é voluntário da capelania.

“O IPO dá-nos uma experiência muito rica na vida. Embora me custe entrar, saio de lá mais rico. Na vida vi muita coisa – muitas mortes sobretudo nos países em guerra, muitos refugiados. O IPO também é uma escola”, finaliza.

A conversa com Miguel Amado pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, emitido na Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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