Responsáveis católicos sublinham necessidade de recentrar holofotes da opinião pública em crises esquecidas

Lisboa, 05 mai 2020 (Ecclesia) – A pandemia de Covid-19 mostrou a necessidade de repensar a mobilidade global, assumem os responsáveis católicos que protagonizam hoje as “Conversas na ECCLESIA”.

Eugénia Quaresma, diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM), considera que é preciso investir no “desenvolvimento local”, com respeito pelas “regras do encontro”.

“Este é um tempo que nos obriga a parar, pensar e refletir. Se temos o direito a mover-nos, também temos o direito a não nos movermos”, aponta.

A responsável destaca a interação que se tem gerado através das redes sociais, com as comunidades portuguesas, onde se multiplicam gestos de solidariedade e criatividade “para não deixar ninguém para trás”.

“Todo este tempo recorda-nos a importância da interdependência, de estarmos ligados”, acrescenta a diretora da OCPM.

Precisamos que pessoas continuem a mover-se, precisamos de turistas, precisamos de trabalhadores especializados, de estudantes”.

O padre Rui Pedro, religioso scalabriniano e missionário junto da comunidade de língua portuguesa no Luxemburgo, sustenta por sua vez que a mobilidade é “uma grande dádiva para a humanidade”, convidando a uma superar a suspeição sobre quem se desloca.

“É na mobilidade dos conhecimentos, neste momento, que estamos a tentar encontrar uma resposta” para a crise, exemplificou.

O sacerdote admite a possibilidade de uma nova vaga de emigração, como aconteceu no período da “troika”, em função da crise social e económica que a pandemia está a gerar, recordando que existe um “dever de solidariedade” das comunidades católicas.

“O Papa Francisco tem sido, neste tempo de pandemia, o maior cuidador de quem está em sofrimento”, acrescenta.

O padre Rui Pedro antigo diretor da OCPM, aponta o desafio de gerir “melhor” a mobilidade, porque todos os países “precisam uns dos outros”, e pede que os católicos sejam “porta-vozes” das crises esquecidas, num momento em que a Europa está centrada em si própria.

Catarina Martins Bettencourt, responsável pelo secretariado nacional da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), assinalou que a pandemia “apagou” todos os outros temas da atenção mediática, como a guerra na Síria, com particular impacto na comunidade cristã

A entrevistada aludiu ainda aos ataques na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, que desde 2017, provocaram centenas de mortes e milhares de deslocados internos.

“São pessoas que já viviam de uma forma pobre e que, de repente, são obrigadas a fugir das suas casas”, alerta Catarina Martins Bettencourt.

Esta tarde, a AIS divulgou um alerta do bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa, que fala em “mais de 200 mil deslocados”.

“As pessoas aqui têm muito pouco e o pouco que têm está a perder-se por causa desta guerra. Peço ajuda e solidariedade para o meu povo para que eles possam viver novamente em paz, que é o que eles querem e merecem”, apela.

O projeto “Conversas na Ecclesia” tem objetivo de para partilhar, de segunda a sexta-feira, um tempo de diálogo sobre cinco temas, publicados nas redes sociais, a partir das 17h00.

A semana começa com temas direcionados para jovens, depois a solidariedade e o cuidado da casa comum, as novas formas de liturgia e de pertença, os acontecimentos vividos a partir do Vaticano e, a terminar a semana, uma conversa com propostas e perspetiva culturais.

PR/OC

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