Responsável pelo secretariado nacional da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) em Portugal lamenta que o Ocidente feche os olhos à violação dos direitos humanos na China, pondo à frente os negócios e as relações comerciais. Em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia sobre o relatório ‘Perseguidos e Esquecidos?’, Catarina Martins Bettencourt diz que o documento mostra que o acordo da Santa Sé com Pequim não garantiu mais liberdade religiosa aos católicos chineses. Pelo contrário.

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença), Octávio Carmo (Ecclesia)

Fotos: Manuel Costa (Ecclesia)

O novo relatório ‘Perseguidos e Esquecidos’ mostra claramente que o cristianismo é a religião mais perseguida em todo o mundo, sendo que em alguns locais podemos falar mesmo de um “genocídio”.  Porque é que isto quase não é falado? Há um alheamento dos média, e também dos responsáveis políticos em geral, para a perseguição religiosa e a falta de liberdade de culto?

O que nós sentimos – e isso também é mencionado neste relatório – é que há cada vez mais uma maior perceção e preocupação das entidades oficiais, das instâncias internacionais para esta questão da liberdade religiosa, e em particular para o que está acontecer com os cristãos. Mas é evidente que continuamos a sentir que é muito pouco, e que muitas vezes a comunidade cristã acaba por ficar relegada para um segundo plano, não tem a expressão, nem a dimensão. Por tudo o que se passa no mundo, pela forma como os nossos governantes também lidam com estas questões, vemos que não conseguem ainda falar abertamente da perseguição aos cristãos. Muitas vezes há pruridos em defender a comunidade cristã, por poder parecer que estamos a favorecer uma comunidade em detrimento de outra…

 

Em Portugal também?

Em Portugal também, muitas vezes é difícil falar desta questão dos cristãos. Enquanto instituição sentimos que precisamos de continuar a falar mais, de trazer cada vez mais estes assuntos para os meios de comunicação social, para que as pessoas estejam alertadas de que esta não é uma coisa do passado, é uma coisa de hoje, que há perseguição, que há muitos países onde não há liberdade religiosa e não se pode exprimir livremente o nosso credo. E ao mesmo tempo dizer com clareza – e os números e todos os factos que temos apontam para isso – que a comunidade cristã é mais perseguida hoje em dia.

 

Foi importante em termos de impacto ter uma personalidade como Paulo Portas a apresentar este relatório? Ele considerou muito importante o trabalho da AIS para garantir que os cristãos não são esquecidos.

Sim, e esperamos que tenha, de facto, impacto a sua presença, porque Paulo Portas é um homem que tem estado ativo no meio político, que continua ativo nos meios de comunicação social, e é preciso trazer esta questão para os media, para o público em geral, dizer a todos claramente que o cristianismo  é o mais perseguido e que precisamos de fazer alguma coisa. Porque estamos a assistir ao fim da presença da comunidade cristã em muitos países do mundo, e isto deveria preocupar a todos, porque a partir do momento em que não temos liberdade de expressão da nossa fé, as outras liberdades ou já se perderam, ou estão em risco de se perder. Portanto é preciso olhar para estas questões da fé e da religião como um assunto que é um assunto público que deve ser debatido.

 

A Ecclesia e a Renascença acompanham há muitos anos o trabalho da AIS e a publicação destes relatórios, que são periódicos. Mas, que impacto é que eles têm? Já mudou alguma coisa na forma como a comunidade internacional encara as violações à liberdade religiosa e o tema específico da perseguição aos cristãos?

Sim. Os relatórios são muito importantes e tem havido declarações das Nações Unidas, de alguns governos do mundo, houve a declaração da própria ONU do Dia Internacional das Vítimas da Violência em Relação à sua Religião ou Crença (22 agosto). Tudo isto resulta do lobby que tem sido feito pela AIS e por outras instituições no sentido de levar estes relatórios e estes testemunhos, trazer pessoas dos vários países que estão a sofrer e levá-los a estas instâncias, e isto tem sido  muito importante para alertar e para despertar as consciências dos governantes de que é preciso olhar para isto, que a realidade não é o que se passa no nosso gabinete ou no nosso continente, que há muito mais para além disso. Estes relatórios são o testemunho do dia-a-dia de sofrimento de muitos cristãos no mundo, e só com esses relatórios, com factos, é que conseguimos alertar as pessoas.

 

Em Portugal já tem havido diálogo com o parlamento. Este último relatório também será apresentado às autoridades portuguesas?

Vamos apresentá-lo, e esperamos vir a ser chamados ao parlamento para o poder também discutir com os deputados. Mas temos feito esse esforço de levar estes documentos ao parlamento, às instâncias de governo, ao presidente da república, para que eles tenham consciência do que se está a passar e que também possam, na medida do possível, exercer a sua pressão junto das entidades internacionais, de forma a que este tema seja debatido e sejam tomadas medidas. Porque é disso que se fala neste relatório, que temos de tomar medidas concretas para poder ajudar estas comunidades que sofrem e que estão a ser perseguidas nos seus países.

 

Foto: AIS

Olhando agora para os dados do relatório, o que é que mais a surpreendeu este ano?

O mais surpreendente deste relatório foi comprovar o que dissemos há quatro anos atrás, de que poderíamos estar a assistir ao fim da presença da comunidade cristã no Iraque, e talvez na Síria. De facto, os números são dramáticos, este relatório aponta para apenas 150 mil, com possibilidade de serem menos, fala-se de 120 mil, ou seja, estamos praticamente sem presença da comunidade cristã no Iraque…

 

Onde já foram cerca de 1 milhão e 500 mil.

Eram 1 milhão e meio em 2003.

 

E esta é uma presença histórica, vem do início do cristianismo e a comunidade caldeia, por exemplo, ainda hoje reza o Pai Nosso em aramaico.

Em aramaico, sim. No fundo é o fim das nossas raízes enquanto comunidade cristã no ocidente, e infelizmente o que nós escrevemos há quatro anos parece agora concretizar-se pelos factos. E é bom frisar que este relatório – que quem quiser pode consultar no nosso site – acaba em julho de 2019, portanto, de julho até hoje, outubro de 2019, a situação ainda se deteriorou mais, tanto no Iraque como na Síria.

 

Na Síria houve uma intervenção militar por parte da Turquia.

Exatamente, e não sabemos o impacto que possa ter ainda mais sobre esta comunidade que é cada vez mais pequena. No relatório apontamos para um decréscimo de 90% da comunidade cristã no Iraque, nos últimos anos, no período de uma geração caiu 90%, portanto estamos a assistir a dias históricos, tristes mas históricos, no sentido de que estamos a assistir ao desaparecimento desta comunidade. É um facto marcante neste relatório. Outro facto marcante é a mudança de continente, ou de zona do mundo, onde há maior perseguição.

Nos últimos anos o Médio Oriente era a grande preocupação da Fundação AIS, era onde havia maior perseguição aos cristãos, neste relatório, neste período que é analisado, vemos que há um desvio para a Ásia. Temos os ataques do Sri Lanka, temos os ataques das Filipinas, temos a situação que se está a deteriorar na China.

 

Portanto, a Ásia é o continente menos seguro neste momento para os  cristãos?

É o menos seguro. Mas continuamos com focos muito importantes, que são também mencionados no relatório, mas que já vêm infelizmente dos anteriores, relativamente a África.

Outra conclusão muito importante é que neste período houve uma grande preocupação da comunidade internacional para esta questão da perseguição, mas também dizemos neste relatório que nos parece que, infelizmente, poderá ter sido tarde para estas comunidades, se olharmos para o que está a acontecer no Iraque e na Síria. Esperemos que não seja demasiado tarde para todas as outras comunidades cristãs que estão a passar neste momento o mesmo que o Iraque e a Síria já passaram.

 

Quer dizer que no Iraque e na Síria a derrota aparente do autoproclamado Estado Islâmico não foi a tempo de evitar males maiores em termos de destruição do cristianismo?

Não foi a tempo. De facto há muitas famílias que regressaram às suas casas, às suas terras de origem, mas temos problemas gravíssimos de segurança, a comunidade cristã continua a não se sentir segura. Temos problemas gravíssimos de emprego para os cristãos, e continuamos a sentir pressão, porque está neste momento a ser discutida uma nova Constituição no Iraque em que as minorias ficam ainda mais desprotegidas do que foram até agora. Há uma preocupação muito séria da Igreja no Iraque neste sentido de perceber qual vai ser o futuro destes poucos que restam, até que ponto é que a pressão que foi exercida durante anos pelo autoproclamado Estado Islâmico marcou o ponto final da presença desta comunidade, apesar de todos os esforços.

 

Estas comunidades são muitas vezes o alvo de quem quer atacar o Ocidente, ou seja, a sua pertença cristã é vista como sinónimo de ser ocidental. Mas, de que forma é que o Ocidente olha para estas minorias?

Muitas vezes esquecemo-nos. Dou um exemplo: no domingo Páscoa, quando houve os ataques no Sri Lanka, na missa onde fui o padre nem sequer falou nisso. E este é apenas um exemplo, provavelmente isto repetiu-se em várias paróquias, em vários países da Europa.

O autoproclamado Estado Islâmico perdeu o seu território, mas não perdeu a sua força, a sua ideologia mantém-se nestes territórios, e isso é o mais perigoso e o mais difícil de controlar. De facto quando há um ataque a estas comunidades é como se tivessem também a atacar o Ocidente, mas a verdade é que estamos muitas vezes distraídos com as nossas coisas e infelizmente ainda não olhamos para isto como sendo uma coisa nossa, não sentimos que nos estão a atacar a nós também, como cristãos, como comunidade.

 

Se há pessoa que tem dedicado atenção a estas minorias é o Papa Francisco. A AIS é uma fundação pontifícia, dependente da Santa Sé. Estes dados são conhecidos e acompanhados pelo Vaticano?

Sim, receberam-nos antes do público, são do seu conhecimento. O Papa Francisco tem sido, de facto, uma pessoa extraordinária, neste sentido de nos alertar para o que se está a passar no mundo, de nos chamar a atenção enquanto cristãos: há comunidades que estão a sofrer e nós, como cristãos, temos este dever de nos lembrar deles, de rezar por eles, apoiá-los na nossa solidariedade e nas nossas orações. Isso tem sido extraordinário para chamar a atenção, porque muitas vezes estes ataques que acontecem pela África, a Ásia, passam como que despercebidos, no Ocidente.

 

No caso da China, os dados também apontam para o aumento da perseguição aos cristãos, apesar de ter havido um acordo entre Pequim e o Vaticano para a nomeação de bispos. Que impacto é que teve este acordo?

Os dados de que nós dispomos – recolhidos através das viagens que fazemos a estes países e através das próprias congregações, da Igreja local – apontam para uma deterioração da situação. Hoje é mais difícil, apesar de haver um acordo provisório, a presença da comunidade cristã. Tem havido como que uma ‘limpeza’ dos símbolos, uma pressão sobre a comunidade cristã muito grande, nos últimos tempos, maior até do que antes do acordo. Isto são factos que podemos mostrar: a situação piorou para a comunidade cristã na China nos últimos dois anos.

 

Aqui voltamos ao tema do Ocidente. A China é uma potência mundial e estes dados, entre outros relativos a violações de Direitos Humanos, não deveria levar os países ocidentais a repensar as suas relações com Pequim? Ou o dinheiro fala sempre mais alto?

O que nós vemos, de facto, é que o dinheiro acaba por falar mais alto. As relações económicas acabam por ter uma força muito grande, não vemos os governos nem as instâncias internacionais a falar desta questão abertamente, ou a dizer ‘não há negócios, não há relações comerciais e económicas se não houver respeito pelos Direitos Humanos’ na China. Portanto, continuamos a ver que o dinheiro tem mais poder do que tudo o resto.

 

Antes de avançarmos para áfrica gostava de voltar de novo ao Médio Oriente, para falar da Síria. Houve uma ofensiva militar da Turquia, tudo indica que agora haverá um cessar-fogo, mas isso não evitou que neste período da ofensiva tenha havido a morte de civis e a fuga de alguns cristãos, de novo. Que ecos é que têm, do terreno?

Isso não está incluído no último relatório, porque aconteceu agora, mas os relatos que temos é que nalgumas zonas onde a comunidade cristã estava presente, mais uma vez, foram obrigados a fugir e a ir para outras zonas. Continuam a ser uma comunidade pequena e continuam a ser uma comunidade desprotegida. Os últimos relatos que recebemos mostram que a Igreja está preocupada com a situação, com qual será o impacto destes ataques numa comunidade tão pequena e que, provavelmente, vai tentar fugir e escapar de novo. É mais um fator que fará aumentar o êxodo e deixar de vez o Médio Oriente.

 

Houve territórios em que já se tinha iniciado um processo de reconstrução e de regresso dos cristãos. Isso pode estar em causa?

Nas zonas em que nós estamos a ajudar, neste momento, à reconstrução e ao regresso, ainda não está em causa. Não sabemos, efetivamente, o que vai acontecer, pelo que temos de esperar. O que sabemos, porque recebemos essa informação da Igreja local, é que já há pequenas comunidades – em zonas historicamente cristãs, mas para as quais os cristãos ainda não tinham voltado -, pequenos grupos que ainda resistiam, e que tiveram de sair, desta vez.

 

África é um continente onde o cristianismo está a crescer, há muitas vocações, mas a situação é crítica em termos de perseguição religiosa. Onde é que é pior?

Neste relatório mostramos que a situação piorou na República Centro-Africana, mas temos a Nigéria, o Sudão, o Egito, onde tudo se mantém igual. Não houve alterações significativas, a situação manteve-se dramática: não piorou, mas também não melhorou. Continuamos a assistir à presença de grupos radicais, que atuam de uma forma impune, com algum esquecimento do Ocidente…

 

No caso da Nigéria, o Boko Haram já surgiu há 10 anos…

E continua a atuar, a provocar o deslocamento de milhares e milhares de pessoas, continua a provocar a morte, a destruir aldeias. No Ocidente continuamos, mais uma vez, a não olhar para a África, um continente riquíssimo, com muitas potencialidades. Em termos de Igreja, é um continente muito vivo, com muitas vocações, mas que continua a sofrer, diariamente, estas perseguições.

 

Além da ameaça radical islâmica, há conflitos tribais, que complicam muito as coisas.

A África tem uma mistura de vários fatores: além da questão da religião, temos também os conflitos tribais, o conflito pela posse das terras, para poder alimentar o gado, para a sobrevivência da tribo. Há muitas dificuldades para as comunidades, além das questões económicas: são países riquíssimos, mas com uma corrupção enorme, em que muitas vezes as pessoas acabam por ser expulsas porque vivem em zonas onde poderá haver exploração. É um conjunto de fatores, não é só a religião que faz com que seja o continente com o maior número de deslocados e o maior número de pessoas pobres. É um continente com muito potencial, mas que está sozinho, muitas vezes, a tentar combater estes grupos radicais, que querem construir um califado e ser um continente islâmico.

 

A Igreja Católica tem aí uma presença social muito importante e a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre tem como missão, precisamente, ajudar as comunidades católicas, sobretudo nos países onde vivem com maior dificuldade. Que tipo de apoio é que a AIS presta no terreno?

Na apresentação do relatório esteve connosco o padre Gideon, da Nigéria, que veio exatamente da diocese mais mártir do país, Maiduguri, onde o Boko Haram nasceu e está muito ativo, ainda. Ele falou-nos da importância da AIS, e disse uma coisa muito bonita: ‘o título deste relatório é ‘Perseguidos e Esquecidos?’. Nós somos perseguidos, mas não somos esquecidos pela AIS’. Ele diz que, se estão vivos, é graças à ajuda da AIS, e à ajuda de outras instituições da Igreja, que dão um apoio fundamental nestes momentos mais difíceis para a sobrevivência.

 

Não é só ajuda pastoral?

Não é só ajuda pastoral, porque neste momento, para se poder ajudar pastoralmente uma comunidade, primeiro tem que se alimentar, que ter segurança. O padre Gideon mostrou fotografias extraordinárias do que foi destruído e que foi reconstruído, duas e três vezes. É necessário ajudar, ter espaços para que as pessoas se encontrem, apoiar a parte da formação e da mobilidade para os padres.

Nós somos um bocadinho da Nigéria, que é um país enorme, onde as necessidades são muitas. A AIS tem estado presente, naquilo que a Igreja necessita, porque essa é uma forma de as comunidades cristãs conseguirem continuar a estar presentes, nos seus países.

 

Quantos projetos estão a apoiar, neste momento?

Em 2018 apoiámos cerca de 5 mil projetos, em 145 países. Há sempre esta generosidade, foram cerca de 80 milhões de euros que nós enviámos para estes países, em projetos concretos de ajuda pastoral: construção de igrejas, de locais de apoio às paróquias, de ajuda à mobilidade, à formação, à comunicação social. Porque em muitos destes países as distâncias são tão grandes que é preciso o apoio da comunicação social. E depois a parte de emergência, da sobrevivência das próprias pessoas, que é fundamental. Tudo isto se vai materializando com a generosidade dos benfeitores, em Portugal e um pouco por todo o mundo.

 

A contribuição de Portugal tem sido significativa?

Tem aumentado, sempre. Há esta preocupação, cada vez mais os portugueses sentem esta necessidade: “não estamos bem, mas há muitos que estão pior do que eu e eu tenho de ajudar”.

O padre Gideon falava de um apoio extraordinário que a AIS tem dado a nível psicológico, de tratamento das pessoas, contou como é difícil, especialmente para as mulheres, e as mulheres cristãs são uma vítima ainda maior. Muitas foram raptadas, estiveram dois, três anos com o Boko Haram, foram violadas e quando regressam as suas famílias, muitas vezes, não as aceitam, porque vêm com filhos que são filhos de terroristas. É muito difícil lidar com tudo isto. A Igreja tem tido este papel de apoio psicológico.

A mensagem que o bispo de Maiduguri nos enviou foi essa: sem a ajuda da Igreja, de instituições como a AIS, não seria possível que eles estivessem vivos e se mantivessem presentes no sítio onde querem estar, porque nasceram ali, viveram ali e têm o direito de ali estar.

Foto: AIS

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