Comunicações Sociais: «Quem consegue fazer uma comunicação com qualidade no interior é herói» – D. Francisco Senra Coelho

Arcebispo de Évora denunciou «asfixia» económica dos órgãos regionais e  considerou «aflitivo» quando vozes, imagens e discursos sobre o interior são adulterados

Foto: Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Évora, 18 mai 2026 (Ecclesia) – O arcebispo de Évora denunciou, na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, a “asfixia” económica dos órgãos de comunicação social regionais e alertou para os riscos da inteligência artificial

“Quem consegue fazer uma comunicação com qualidade no interior é herói”, afirmou D. Francisco Senra Coelho, destacando as dificuldades crescentes que profissionais e estruturas locais de informação enfrentam, informa o departamento de comunicação da arquidiocese.

“Como é que será possível as regiões terem presença, terem voz, terem protagonismo, terem opinião, se não são ouvidas? E como é que é possível ser ouvido se não há comunicação social sustentável e sustentada?”, questionou.

A Igreja Católica celebra, em cada ano, no domingo antes do Pentecostes, o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que este ano teve como tema ‘Preservar vozes e rostos humanos’.

O arcebispo de Évora referiu que a sobrevivência da imprensa regional é hoje uma questão diretamente ligada à própria qualidade da democracia portuguesa e defendeu que uma comunicação dependente exclusivamente da publicidade fica vulnerável a condicionamentos externos.

A liberdade regional só acontece quando a comunicação social regional é economicamente independente e pode dizer o que pensa e pode dizer o que sente”, destacou

Nas declarações de D. Francisco Senra Coelho, no âmbito da celebração anual assinalada este domingo, o arcebispo de Évora criticou o modo como muitas vezes o interior do país é retratado pelos grandes meios nacionais e, sem nomear órgãos concretos, condenou aquilo que que considera ser uma abordagem superficial, sensacionalista e desligada da realidade local.

“Não pode ser um país feito de comunicação a partir de Lisboa e do Porto”, enfatizou, acrescentando que a comunicação tem de ser “vivida e convivida no contexto onde se vive e se respira, onde Portugal é Portugal”.

O responsável católico deixou também críticas às deslocações rápidas ao território apenas para recolha de imagens ou acontecimentos dramáticos que alimentem manchetes nacionais.

“Vêm aqui rapidamente, num carro, com um determinado tempo marcado, com as suas siglas comerciais, buscar notícias que são depois enquadradas no caminho de viagem de regresso, sem uma hermenêutica concreta da localidade”, disse.

Nesse sentido, D. Francisco Senra Coelho salienta a importância de um jornalismo enraizado no território e capaz de interpretar os contextos sociais e humanos de forma séria e aprofundada.

No caso do Alentejo, o arcebispo de Évora recordou o peso territorial, cultural e humano da região, reforçando que o país não pode continuar a pensar-se apenas a partir dos grandes centros urbanos.

“Este cerca de milhão de pessoas que formam o Alentejo são portugueses que têm a sua dimensão cultural, a sua vivência e têm uma palavra a dizer sobre o seu país, até porque territorialmente são um terço do país”, salientou.

A mensagem do arcebispo de Évora incidiu uniu-se também às preocupações demonstradas pelo Papa para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, com centro no perigos da manipulação tecnológica e da utilização abusiva da inteligência artificial (IA).

É aflitivo nós ouvirmos uma entrevista ou acompanharmos uma exposição e, a certa altura, darmos conta que não é o próprio que está a falar”, expressou.

Para D. Francisco Senra Coelho, o uso da IA para colocar palavras falsas na voz de figuras públicas ou pessoas reconhecidas socialmente representa uma grave degradação ética.

“Acho que isto se reveste de uma indignidade, de uma dimensão de falta de ética, de imoralidade, que diria mesmo que é maquiavélica”, declarou, abordando também o perigo de fazer circular mensagens ideológicas extremistas recorrendo artificialmente à imagem e voz de personalidades respeitadas.

“É o cúmulo pegar na sua voz, pegar no seu rosto, e pô-lo a dizer aquilo que eles querem que diga”, disse, dando o exemplo de figuras universalmente reconhecidas como o Papa.

O arcebispo de Évora insiste que o problema não é apenas tecnológico, mas profundamente humano e civilizacional.

A reflexão advertiu ainda para os riscos de um relativismo radical onde a distinção entre verdade e manipulação se dissolve progressivamente.

Chegamos a um momento em que é tão fluido o nosso ambiente, que nós deixamos de ter pontos seguros, pontos de referência, porque não sabemos o que é verdade”, lamentou.

Recorrendo à mensagem papal, D. Francisco Senra Coelho realçou ainda a necessidade de transparência na utilização de conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial, sublinhando que “devem ser sinalizados e claramente distinguidos dos conteúdos criados por pessoas”.

Na conclusão, o arcebispo de Évora apelou à recuperação da qualidade, independência e credibilidade da comunicação social portuguesa, defendendo um jornalismo livre, ético e comprometido com a verdade.

“Eu faço votos que não percamos em Portugal a qualidade que já tivemos de comunicação social, que tentemos manter o que temos e reconquistar o que já tivemos”, desejou.

LJ/PR

Comunicações Sociais: Papa alerta para riscos da IA e pede proteção dos «rostos e vozes» humanos

Partilhar:
Scroll to Top