Comunicações: Encíclica «Magnífica Humanidade» desafia jornalistas a perseguir a verdade – António Granado

Vogal do Conselho Independente da RTP lamenta que o jornalismo especializado, como a religião, tenha menos espaço nas redações, fala da importância do «serviço público», recusa o jornalismo que serve «o interesse do público», e recorda o Código Deontológico como essencial na prática atual 

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 17 jun 2026 (Ecclesia) – O jornalista e professor universitário António Granado disse que a encíclica do Papa Leão XIV «Magnífica Humanidade» desafia hoje os jornalistas a perseguirem a verdade, e pede para não se afastarem desta “essência” da prática jornalística.

“O Papa fala na verdade como um bem comum e essa é uma questão extremamente interessante e importante para o jornalismo. A verdade é a essência do jornalismo e muitas vezes este afasta-se da procura da verdade. Muitas vezes a Inteligência Artificial serve para a desinformação, para produzir conteúdos, para influenciar eleições, para polarizar opiniões, as redes sociais criam bolhas, e não podemos, como alerta o Papa, deixar que o sistema esteja nas mãos de empresas privadas”, adverte à Agência ECCLESIA.

Para o jornalista a educação assume um “papel absolutamente fundamental para combater a desinformação” e chama a atenção para a partilha de conteúdos “falsos” que a iliteracia digital provoca.

Jornalista desde 1989, professor universitário a formar gerações de profissionais desde 1996, António Granado olha com “relativa esperança” para o jornalismo atual, afirma a certeza de “aprender muito com os alunos” mas confessa um desconforto perante a distância entre o que se ensina e o que se pratica nas redações.

“O jornalismo é uma profissão que tem imensas responsabilidades, não é uma profissão como outra qualquer. O jornalismo tem um código de deontológico, tem uma obrigação de servir o público e não de servir a si próprio”, destaca.

“Eu sinto que podemos estar a ensinar coisas que eles depois têm um choque completamente distinto quando chegam às redações. Mas eu acho que os melhores alunos percebem onde é que está a verdade”, acrescenta.

António Granado lamenta a falta de tempo para investigação – “o New York Times tem uma equipa de 25 jornalistas dedicada a ler e a investigar os ficheiros ‘Epstein’”, as “redações sem memória” que conduzem ao esquecimento de personalidades e reduzem a contextualização, “erros com a língua que a falta de editores provoca”, a “a exposição de pessoas que deveriam ser protegidas”.

Sempre acompanhado Código Deontológico, que guarda na carteira, António Granado afirma ser o documento mais importante e explica que durante as aulas recorrentemente o mostra aos alunos.

“Infelizmente que é algo que em muitas redações se está a tornar uma espécie de letra morta”, lamenta.

Sobre a expressão “serviço público” afirma ter aprendido no jornal «Público», com profissionais como Vicente Jorge Silva e José Vítor Malheiros, que não o deixavam publicar nada sem ter a certeza.

“Hoje serviço público rima mal com jornalismo. Na academia, falamos muitas vezes da dicotomia que há entre duas expressões – interesse público e o interesse do público. E eu acho que, cada vez mais, nós estamos a servir um interesse de algum público – corremos atrás de audiências, corremos porque outros correm também, seguimos o que os outros seguem, e não estamos, efetivamente, a concentrar-nos naquilo que deve ser o interesse público”, destaca.

António Granado lamenta ainda que o jornalismo especializado esteja a ser reduzido, constatando que a religião está a desaparecer das redações.

Vogal do Conselho Independente da RTP, o professor universitário sublinha a importância do trabalho deste órgão de informação “para a democracia” em Portugal, lamenta o “subfinanciamento” persistente “mantido por sucessivos governos”, realidade que o faz “recear o futuro do serviço público”.

A conversa com António Granado pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, emitido esta quinta-feira depois do noticiário da meia-noite, na Antena 1, e disponibilizada no podcast ‘Alarga a tua tenda’.

LS

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