Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor
Esta é uma semana que deveria celebrar o nosso compromisso perene durante todo o ano e para o resto da nossa vida. O compromisso de nos mantermos humanos através de uma renovada (ou redescoberta) relação com a família da criação. A semana a que me estou a referir é a que dedicamos à Laudato Si’. Mas, por que razão uma relação com a família da criação nos haveria de manter humanos? Não é evidente que o somos?
Não há dúvidas quando à nossa origem biológica como espécie de denominámos de humana. Mas o facto de estarmos conscientes disso, implica existir uma dimensão existencial mais profunda que a biológica, e não estou a pensar na dimensão mental que rege os nossos comportamentos, mas a espiritual que rege as nossas escolhas.
Estou cada vez mais convicto de que o ser humano está em permanente devir, isto é, em transformação interior (porque a exterior é evidente ao envelhecermos). Não somos ainda aquilo que somos chamados a ser, como demonstra a sede de infinito que temos. Uma sede de infinito que se revela de muitos modos, como o transhumanismo que apregoa a convicção de podermos usar a ciência e tecnologia para superar os nossos limites biológicos e atingir a imortalidade física, ou o pós-humanismo que não encara a forma humana como o nosso destino final, mas pretende fundir-nos à máquina para alterar o nosso contacto com a realidade, implicando, por exemplo, a concepção de uma existência virtual consciente como aquela que experimentamos agora no nosso corpo biológico. Esta última visão, mais estrita, é radical por admitir ou aspirar a uma existência potencialmente desencarnada, reduzindo essa a bits de informação. Por que razão encaramos a nossa corporeidade como uma prisão? Dois pensamentos.
Um primeiro pensamento sobre essa razão é o da falsa separação entre corpo e espírito. O espírito corresponde a uma dimensão da experiência humana que transcende, isto é, vai para a além do espaço e do tempo, a experiência física que fazemos da realidade à nossa volta através dos sentidos do corpo e da mente. É uma dimensão que na minha opinião está muito ligada à nossa consciência, sendo esta um aspecto da existência humana misterioso e que não se pode reduzir às conexões neuronais que se dão no nosso cérebro. O facto de as usarmos para experimentar a consciência, não implica, necessariamente, que se reduzem a essas. A corporeidade e os seus limites são a génese da experiência humana que fazemos quando choramos, rimos, nos chateamos, ou suspiramos. Daí que seja difícil, senão impossível, a uma máquina tornar-se humana. Deixemos que a máquina, ainda que inteligente, faça o seu percurso existencial. Quando forçamos a nossa consciência a reduzir a existência à corporeidade, negando a espiritualidade que, intrinsecamente, perfaz a nossa identidade, fechamo-nos à possibilidade de nos transformarmos interiormente, impedindo o nosso devir humano.
Um segundo pensamento dirige-se para o contacto com o mundo natural. Experimentar, cada vez mais e melhor, o que significa ser parte da família da criação, é uma forma de tomarmos contacto com a dimensão espiritual da nossa existência, por nos sentirmos, misteriosamente, unidos em relação de amor com todas as coisas. Ser família da criação significa estar ciente de como o jogo entre o inesperado e os limites do mundo são o berço da novidade que emerge livremente e permite evoluir tudo neste universo ao longo do tempo. Um contacto com a natureza é o confronto com os nossos limites que nos pode fazer experimentar como podemos transformar o nosso interior na direcção de uma maior clareza sobre o que significa, em última instância, ser parte da família da criação.
Quer isso dizer que um vírus mortal faz também parte da família da criação? E por que não? Como é possível aceitar isso se, como intui o livro do génesis, Deus ao contemplar toda a criação expressaria que tudo é muito bom? Deus quis o mal tanto quanto quis o bem? Posso amar o “pequeno irmão” que me faz mal? Não rezou Jesus — «Pai, perdoa‑lhes, pois não sabem o que fazem.» (Lc 23, 34)? Se admitimos o perdão a uma pessoa humano que não sabe o que faz, mas sabemos que podia saber se fizesse um esforço para isso, por que nos custa tanto perdoar um vírus?
Não é fácil aceitar que tudo o que vive seja parte da família da criação. Até um vírus. Será que se deve à dificuldade que naturalmente temos de aceitar os limites como possibilidades transformativas? Dificuldade em aceitar a morte como parte do limite-último que dá beleza à vida? O que é mais fácil? Esmagar o insecto repugnante que pousa sobre a nossa mão, ou abrir a janela e deixá-lo voar? O matemático e filósofo Alfred North Whitehead dizia que a beleza consiste na harmonia dos contrastes. Por isso, até na diversidade de vivências daquilo que significa para cada pessoa sentir-se parte da família da criação, encontramos os contrastes que um coração aberto é convidado a contemplar como beleza, mesmo que não consiga entendê-la como tal. Ainda.
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