Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor
«Oh, Meu Deus!» — A expressão do espanto que pode ter múltiplos significados. Ao entrar num período de caminho quaresmal, as iniciais contêm escondidas inúmeras outras palavras. Inúmeros itinerários. A premissa do meu livro “Palavras” é a de que essas mudam fisicamente o nosso cérebro. Por isso, as palavras com que na vida nos cruzamos afectam a vida que levamos. Não é por acaso que o Papa Leão XIV na sua Mensagem Quaresmal de 2026 apela ao jejum das palavras que ferem.
Um dos criadores da realidade virtual, Jaron Lanier, no seu livro “”Dez Argumentos para Apagar já as Contas nas Redes Sociais, escreve que deixou de escrever comentários por experimentar a tendência crescente de usar palavras cada vez mais agressivas. O ambiente que existe nas redes sociais através dos comentários tem-se revelado este espaço que desumaniza as pessoas através das palavras que utilizam.
A experiência de conversão contida em OMD deveria ser a da descoberta do itinerário das palavras que humanizam. Palavras que constroem uma ciberhumanitas que nos mantém numa (re)evolução de amor. Nesse sentido, quando penso em OMD, penso em três palavras simples e evidentes:
- Oração
- Meditação
- Desapego
ORAÇÃO
Podemos pronunciar orações que conhecemos, ou podemos rezar espontaneamente com as palavras que ecoam a partir da nossa interioridade, mas talvez pudéssemos colher um estilo de rezar que se chama oração vital: a oração que nasce da vida quotidiana. Na oração vital, todo o acto pode tornar-se oração, mas refiro-me à acção contemplativa, que, no dizer de Simone Weil ganha uma expressão concreta — «A atenção, no seu mais alto grau, é o mesmo que oração.» (“A Gravidade e Graça”, Relógio D’Água) — Prestar atenção é rezar? Sim, e pode tornar-se numa acção contemplativa, pois, como disse São Francisco de Sales no seu “Tratado do Amor de Deus” — «A contemplação não é outra coisa mais que uma amorosa, simples e permanente atenção do espírito às coisas divinas.» (Livro VI, cap. III) — E haverá coisa mais divina do que procurar escutar o outro estando consciente da presença de Deus nele? Amando-o com a nossa atenção a tal ponto que Deus se manifesta nele? A atenção orante que suscita a acção contemplativa pode levar-nos à meditação.
MEDITAÇÃO
O Papa João XXIII no “Decálogo da Serenidade”, ponto 5, diz
«Só por hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me que assim como é preciso comer para sustentar o meu corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma.»
Meditar através da leitura é uma das formas mais simples que não requer gosto ou jeito, mas treino. Meditar é preparar a nossa mente e o espírito para abrir todas as portas interiores que conhecermos e convidar Deus a entrar do modo como Ele quiser. Quando Ele entra, tudo se renova. E existe um livro muito especial que nos pode ajudar e que encontramos, por exemplo, na experiência de Santo Agostinho quando partilhava,
«Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do coração. Eis que, de súbito, oiço uma voz vinda da casa próxima. Não sei se era de menino, ou se de menina. Cantava e repetia frequentes vezes: — “Toma e lê. Toma e lê.”—Imediatamente, mudando de semblante, comecei com a máxima atenção a considerar se as crianças tinham ou não o costume de trautear essa canção em alguns jogos. Vendo que em parte nenhuma a tinha ouvido, reprimi o ímpeto das lágrimas e levantei-me, persuadindo-me que Deus só me mandava uma coisa: abrir o Códice e ler o primeiro capítulo que encontrasse.» (Livro VIII, cap. 12)
O códice correspondia às Epístolas de S. Paulo, ou seja, no sentido mais geral, ao Evangelho. E se lêssemos o Evangelho usando a imaginação para preencher com o quotidiano da vida cada momento da vida de Jesus? Uma vida que possui um momento crucial de desapego.
DESAPEGO
«Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.» (Lc 22, 42)
Se Jesus o fez, também nós podemos-nos desapegar da nossa vontade para abrirmos o coração à Vontade de Deus. Muitas vezes, essa Vontade manifesta-se em momentos de oração vital quando somos chamados a fazer bem aquilo que temos para fazer no momento presente. E se tivermos dificuldade em desapegarmo-nos da nossa vontade, podemos abraçar o espírito hesicasta que repete a Oração de Jesus até ao desapego—«Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim.»
O facto de comunicarmos, usando palavras, e num mundo onde é cada vez mais fácil comunicar, é lícito pensar que vivemos num excesso de palavras que diminuem o valor de algumas como as três que referi. Mas não disse Jesus que — «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» (Mt 4, 4)? Não quer isso dizer que toda a palavra orante transformada em vida vale, e vale bem, porque através da oração Deus fala?
Não nos poupemos às palavras que nos inspiram a rezar, às palavras que nos impelem a meditar, ou às palavras que nos ajudam a desapegar. E nesse sentido, penso que a mesma expressão para «Oh, Meu Deus» em inglês seria “Oh, My God“, com o acrónimo conhecido OMG, e isso significa que teria aqui uma oportunidade de acrescentar uma quarta palavra às anteriores três, e que vale a pena: “GRATIDÃO”. No final de cada dia, podemos sempre pensar em Jesus e dizer-Lhe, em espírito de oração vital —«Estou-Te grato.»
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