Até agora, a sensibilização das comunidades católicas para a importância da transmissão da mensagem evangélica em territórios que a desconheciam ou onde estava pouco enraizada – a chamada “Missão” – era promovida por congregações missionárias.

A estratégia, que vigorou na Igreja portuguesa durante muitos anos, está prestes a mudar. Em Braga, o Arcebispo D. Jorge Ortiga quer que a abordagem ao trabalho missionário parta das estruturas diocesanas, sem deixar de contar com o apoio dos institutos religiosos.

Os Animadores Missionários Ad Gentes (ANIMAG), organismo constituído por congregações masculinas e femininas dedicadas ao anúncio do cristianismo, propuseram ao prelado uma parceria para a dinamização da actividade missionária na arquidiocese.

D. Jorge Ortiga aceitou a colaboração mas decidiu que deve ser a diocese a assumir a “Missão”, uma mudança de perspectiva que foi bem acolhida pelos religiosos.

“Antes, os missionários deixavam a semente na diocese. Mas ela é que tem que ter a iniciativa, ela é que tem de ser o ponto de partida”, salientou à Agência ECCLESIA Fr. José Dias de Lima.

O trabalho que os membros do ANIMAG têm realizado através de encontros com paróquias e grupos em todo o país “podia dar a ideia de ser desgarrado das dioceses, embora tudo o que fazemos seja em comunhão com os bispos”, disse o religioso franciscano, que é responsável pelo memorando da criação do Centro Missionário Diocesano Bracarense.

No entender de Fr. José Lima, um dos religiosos empenhados na criação deste novo organismo, a diocese “é que tem que ser missionária de si própria”, pelo que esta estrutura “é para que o bispo seja o primeiro missionário de todos os diocesanos”.

 

Resposta às orientações dos bispos

A ideia começou a germinar em Janeiro de 2010, durante um encontro que reuniu o arcebispo de Braga e delegados de Institutos Missionários masculinos e femininos presentes naquela circunscrição eclesiástica.

Os propósitos do Centro foram confirmados pela Carta Pastoral subscrita pelos bispos de Portugal a 17 de Junho último.

O documento, intitulado “Para um rosto missionário da Igreja em Portugal”, determina a constituição de “Grupos Missionários Paroquiais” que trabalhem com as Obras Missionárias Pontifícias e os Institutos Missionários”, com o objectivo de “fazer com que a missão universal ganhe corpo em todos os âmbitos da pastoral e da vida cristã”.

De acordo com Fr. José Lima, o Departamento pretende que os fiéis da arquidiocese tomem consciência de que “todo o cristão é missionário” e que esta dimensão, adquirida no sacramento do Crisma, não pertence apenas “aos padres e freiras”.

A nova estrutura quer também que os fiéis ganhem consciência de que “a terra de missão não é somente fora de fronteiras. Portugal e a diocese de Braga também são territórios de missão por causa da desertificação das aldeias e a falta de vocações”, afirmou o religioso.

Neste sentido, prosseguiu, “o primeiro objectivo do Centro Missionário não é tratar das missões ad extra [noutros países ou regiões], porque para isso existem os institutos missionários. A prioridade é começar por evangelizar a própria diocese. Só depois é que é possível começar a enviar padres, religiosos e leigos para outros territórios, porque ninguém pode dar o que não tem”.

O Centro Missionário vai incluir representantes de Institutos e Congregações religiosas de todos os carismas, clero diocesano e leigos – quatro membros por cada um destes grupos –, devendo ter um máximo de 15 pessoas.

Para Fr. José Dias de Lima, o novo organismo, “mais do que estar fechado em si próprio”, deve partilhar ideias com as estruturas análogas das outras dioceses, de forma a respeitar as prioridades que se impõem na realidade local e, ao mesmo tempo, ser capaz de manifestar “a unidade como Igreja, a nível do episcopado português”.

A escolha dos membros que vão integrar o Centro e a redacção dos estatutos serão as etapas seguintes na constituição desta estrutura diocesana.

 

Europa a morrer em termos vocacionais

O conceito de “terra de missão”, tradicionalmente ligado à difusão do cristianismo fora da Europa, acabou por se alargar a este território.

Fr. José Lima considera que o Velho Continente “está a morrer vocacionalmente” e confessa a sua “tristeza” por ver colegas seus a abandonar a consagração religiosa.

“Nesta crise vocacional, em que há poucos a entrar e alguns a abandonar, a verdade é que o ar fresco da Igreja está a vir da Ásia e de África”, constata o frade franciscano.

“É urgente – acrescenta – que a diocese se torne missionária, para começarmos a dar aos nossos jovens motivos para deixarem de ir tanto à discoteca e frequentarem mais a igreja; de deixarem de procurar na moda, no desporto e na música os seus orientadores de vida e descubram que Cristo é o modelo dos modelos.”

Voltando o seu olhar para a realidade portuguesa, o Franciscano mostra-se convicto de que “parte das nossas dioceses está morta”: “A vida de muitas delas é vegetativa. Não é uma vida cristã activa e comprometida”.

Este religioso considera que as estruturas diocesanas têm sido, quase sempre, espectadoras passivas do trabalho de sensibilização missionária realizado pelas congregações religiosas, limitando o seu envolvimento à celebração do Dia Mundial das Missões, em Outubro.

E se é verdade que os bispos “não assumem muito a tarefa missionária”, também é certo que “nunca nos negaram o apoio, confiaram sempre em nós e deixaram-nos abrir as suas paróquias à missão”, reconheceu Fr. José Lima.

“Não houve um compromisso directo” por parte dos prelados, mas indirectamente, no apoio dado aos institutos missionários os senhores bispos têm manifestado muito carinho pelas missões”, conclui.

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