Celebrações da Cova da Iria assinalam 100 anos do nascimento de Karol Wojtyla e a sua ligação ao Santuário

Foto: Arlindo Homem/Ecclesia

Fátima,17 mai 2020 (Ecclesia) – O Santuário de Fátima vai celebrar esta segunda-feira a Missa Votiva de São João Paulo II, no dia em que se completam cem anos do seu nascimento, anunciou a instituição.

O atentado contra a vida de João Paulo II, atingido a tiro na Praça de São Pedro, a 13 de maio de 1981, mudou a relação deste Papa com Fátima, onde viria a realizar três visitas, em 18 anos.

Um ano após os disparos do turco Ali Agca, João Paulo II veio à Cova da Iria reconhecer publicamente a sua convicção de que houve uma intercessão de Nossa Senhora de Fátima na sua recuperação.

Logo na primeira audiência após o atentado, a 7 de outubro de 1981 – memória litúrgica de Nossa Senhora do Rosário – o santo polaco deixava clara esta sua certeza interior: “Poderia esquecer que o acontecimento na Praça de São Pedro se realizou no dia e na hora, em que, há mais de 60 anos, se recorda em Fátima, em Portugal, a primeira aparição da Mãe de Cristo aos pobres e pequenos camponeses? Porque, em tudo aquilo que sucedeu exatamente nesse dia, notei aquela extraordinária proteção maternal e solicitude, que se mostrou mais forte do que o projétil mortífero”.

Em maio de 1982, no aniversário desse primeiro atentado contra a sua vida, Karol Wojtyla (1920-2005) chegava a Fátima.

Antes de partir, em Roma, João Paulo II explicava que queria ir à Cova da Iria, “lugar abençoado, também para escutar novamente, em nome de toda a Igreja, a Mensagem que ressoou há 65 anos nos lábios da Mãe comum, preocupada com a sorte dos seus filhos”.

Em Fátima, o Papa falou para “agradecer à Divina Providência neste lugar que a mãe de Deus parece ter escolhido de modo tão particular” (homilia do 13 de maio). Simbolicamente, a bala que lhe atravessou o abdómen repousa hoje na imagem da Virgem na Cova da Iria.

Diante dos peregrinos, na Capelinha das Aparições, agradeceu a “especial proteção materna de Nossa Senhora”.

“E pela coincidência – e não há meras coincidências nos desígnios da Providência divina – vi também um apelo e, quiçá, uma chamada à atenção para a mensagem que daqui partiu, há sessenta e cinco anos, por intermédio de três crianças, filhas de gente humilde do campo, os pastorinhos de Fátima, como são conhecidos universalmente”, acrescentou.

A devoção à oração do Rosário e a preocupação com as “ameaças” ao mundo foram outros temas centrais das intervenções de João Paulo II, que proferiu uma oração de Consagração a Nossa Senhora, a 13 de maio, na qual deixou, entre outras, a seguinte invocação: “Da guerra nuclear, de uma autodestruição incalculável e de toda espécie de guerra, livrai-nos!”

Na Cova de Iria, viria a ser vítima de um novo ataque contra a sua vida, perpetrado pelo espanhol Juan Fernández Krohn, padre tradicionalista que usava um punhal.

Já depois da morte de João Paulo II (2 de abril de 2005), o cardeal Stanislaw Dziwisz, que foi seu secretário particular, assegurava que este tinha sido ferido, embora de forma ligeira.

Foto: Santuário de Fátima

A 25 de março de 1984, o Papa presidiu à consagração do mundo ao coração de Maria, no Vaticano; a mesma imagem que, em 2000, colocou entre os bispos de todo o mundo, consagrando-lhe o terceiro milénio.

Ainda a 25 de março de 1984, o Papa oferece ao bispo de Leiria-Fátima a bala do atentado que, mais tarde, seria colocada na coroa preciosa da imagem de Nossa Senhora venerada na Capelinha das Aparições.

João Paulo II voltou a Portugal em 1991, passando, inevitavelmente, pelo Santuário de Fátima, nos dias 12 e 13 maio; durante quatro dias, proferiu 12 intervenções e enviou ainda uma carta, desde a Cova da Iria, aos bispos católicos da Europa, que preparavam uma assembleia especial do Sínodo dos Bispos, dedicada ao Velho Continente.

Ao despedir-se do país, o Papa disse que “Fátima é sempre nova para quem repete a subida à Serra de Aire e procura penetrar, cada vez mais fundo, nos mistérios da Mensagem de Nossa Senhora, ‘a toda vestida de branco’, nas Aparições de 1917 aos três Pastorinhos”.

A 12 e 13 maio de 2000, já com um estado de saúde debilitado, João Paulo II regressou a Portugal, para presidir à beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto.

Uma decisão assumida contra os serviços burocráticos do Vaticano, que chegaram a agendar a cerimónia para 9 de abril, na Praça de São Pedro.

O Papa proferiu um discurso à chegada, no aeroporto internacional de Lisboa, a homilia na Missa do 13 de maio e uma saudação aos doentes reunidos na Cova da Iria; na mesma ocasião deu-se o anúncio da publicação da terceira parte do chamado “Segredo de Fátima”.

Foto: Santuário de Fátima

“Desejo uma vez mais celebrar a bondade do Senhor para comigo, quando, duramente atingido, fui salvo da morte”, disse, na sua homilia.

Já de regresso a Roma, na audiência geral de 17 de maio de 2000, João Paulo II defendeu que “o apelo que Deus fez chegar mediante a Virgem Santa conserva intacta ainda hoje a sua atualidade”.

Em 2000, o agora Papa emérito Bento XVI era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (cardeal Joseph Ratzinger) e assinou o “comentário teológico” à terceira parte do segredo, no qual se fala de um “Bispo vestido de branco” que caminha no meio de ruínas e cadáveres, imagem associada ao atentado sofrido por João Paulo II.

O texto relativo ao Segredo de Fátima  (uma mensagem anunciada por Nossa Senhora aos Pastorinhos em julho de 1917 e escrita por Lúcia na década de 40 do século XX)  pode ser consultado no sítio do Vaticano.

OC

Em nota de imprensa, o Santuário nacional da Cova da Iria recorda a “devoção mariana do Papa Polaco, particularmente a sua ligação a “Maria Santíssima, tão cultuada e especialmente lembrada em Fátima”, como dizia no telegrama que escreveu em maio de 1979 ao então presidente da República Portuguesa, três anos da sua primeira visita.

“Só não veio antes, ainda como arcebispo de Cracóvia, porque ‘as razões políticas o impediram’, mas não deixou de se fazer presente através de uma mensagem, enviada ao então bispo de Leiria por ocasião do cinquentenário das Aparições, em 1967”, indica o comunicacado.

Se é certo que as viagens papais foram decisivas para a crescente visibilidade e internacionalização de Fátima, as três de João Paulo II em particular, bem como todo o seu pontificado, foram cruciais para o aprofundamento e estudo da mensagem e do acontecimento que lhe deu origem”.

“Foi, de facto, com o Papa polaco que se desenvolveram e intensificaram as relações de proximidade entre o Vaticano e Fátima”, conclui a nota.

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