Historiador António de Jesus Ramos lembra figura de D. Manuel Bastos de Pina, Bispo de Coimbra

O historiador António de Jesus Ramos considera que, “ao contrário do que se pensa, com a implantação da República, em 1910, a relação entre a Igreja e o Estado acabou por ser fortalecida”.

“Digamos que a República, pretendendo acabar com a Igreja ou, pelo menos, molestá-la gravemente, acabou por libertá-la do regalismo que a sufocou durante todo o século XIX”, refere o especialista, em entrevista à Agência ECCLESIA.

Jesus Ramos admite que “por parte de alguns mentores do regime republicano houve mesmo uma atitude de ódio à Igreja”, ódio este que “vinha sendo alimentado pela imprensa anticlerical, e aparecia igualmente em muitos autores do republicanismo do final do século XIX”.

“A hostilidade pode não estar baseada no ódio, mas em conceitos diferentes de organização social”, precisa.

Jesus Ramos considera que, na I República, é possível “falar de anti-clericalismo e, como uma alínea deste anti-clericalismo, o «anti-jesuitismo»”.

O historiador, da Diocese de Coimbra, estudou na faculdade de história eclesiástica da Universidade Gregoriana, onde elaborou uma tese de doutoramento sobre o bispo de Coimbra D. Manuel Correia de Bastos Pina (1830-1913), que defendeu em Junho de 1993.

Este Bispo, que estudou de perto, é apresentado como “um monárquico, mas não um regalista, pois colocava sempre os direitos da Igreja acima dos direitos do Estado, embora fosse um defensor de uma íntima ligação trono-altar”.

António de Jesus Ramos destaca, por outro lado, que quando chegou a República, a 5 de Outubro de 1910, D. Manuel Bastos de Pina tinha 80 anos e “uma saúde muito debilitada”.

O Bispo saiu de Coimbra para a casa que mandara construir na sua terra natal, Carregosa, e por lá ficou durante algum tempo. “Quando voltou a Coimbra, o paço episcopal tinha sido ocupado, como aconteceu a todos os outros paços episcopais do país”, lembra o historiador.

Nestas circunstâncias, viu-se obrigado a aceitar o acolhimento que lhe o seu sobrinho, o poeta Eugénio de Castro.

Em relação à pastoral dos Bispos de Novembro 1911 e o seu pedido de beneplácito para o documento, Jesus Ramos considera que D. Manuel Bastos de Pina “já não estava na plenitude das suas faculdades” e que o próprio pediu depois “desculpa ao clero e membros do episcopado”.

Viria mesmo a pedir a resignação, que a Santa Sé não aceitou. “No entanto, ele nomeou um governador para o bispado, o Cónego Alves Matos, e foi viver para a sua terra, ali vindo a falecer a 19 de Novembro de 1913, no dia em que completava 83 anos de idade”, destaca António de Jesus Ramos.

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