Júlio Martín é o diretor Artístico do Teatro Universitário da Universidade de Lisboa (TUT). O Carnaval foi o pretexto para um diálogo sobre a festa e o fascínio que, por estes dias, leva alguns a assumir máscaras e personagens.

Entrevista conduzida por Henrique Matos

 

Agência Ecclesia (AE) – Qual é para si o potencial do carnaval, porque é que desperta uma pluralidade celebrativa?

Júlio Martín (JM) – O Carnaval são celebrações que vêm desde o início da humanidade e da sua íntima relação com a natureza e, portanto, são celebrações do espanto. Do espanto em primeiro lugar pela transformação da própria natureza. Ou seja, há um inverno, parece que os dias são mais curtos, as noites são mais longas, está frio, parece que a natureza se retira, adormece e, passado um tempo, tudo se transforma.

 

Os dias começam a ser mais compridos, o sol está mais brilhante, está mais calor e a própria natureza renasce e desabrocha. Começa por ser a natureza, o próprio meio ambiente onde a humanidade vive, a realidade que se transforma.

 

Por outro lado, os seres humanos desde o início que sonham. E quando sonham veem nos sonhos pessoas que já morreram, mas que, nesses sonhos, estão vivas. Veem nos sonhos que às vezes podem voar, fazer outras coisas. Ou seja há todo este espanto pela transformação.

 

Uma natureza que se transforma e dos próprios seres humanos numa relação uns com os outros e nos seus próprios sonhos que também se transformam. E por isso, esse espanto da transformação, de eu me surpreender comigo próprio e com o outro vendo-o a fazer uma outra expressão facial, uma outra atitude corporal, tudo isso despertou sempre na humanidade um grande fascínio.

 

AE – O teatro é uma prática antiga. O que leva as pessoas a esta paixão pela representação de papeis que as colocam noutras personagens?

JM – Há essa atitude natural. E isso acontece no Carnaval, de no fundo, deixarmos de cumprir aquilo que é expectável de nós, assumir uma outra postura, ser outro que não eu próprio. É uma possibilidade de um escape, de uma fuga de uma rotina, daquela máscara social a que muitas vezes somos remetidos… e temos várias ao longo do dia, como pais de família, no emprego, numa coletividade… vamos assumindo diferentes atitudes, diferentes posturas e o Carnaval permite-nos essa experiência de liberdade. De repente posso fazer aquilo que eu quero sem uma autocrítica nem a crítica dos outros.

 

AE – Então o Carnaval é uma época não tanto para colocar, mas para retirar as máscaras?

JM – A questão da máscara é muito interessante precisamente por isso. A máscara serve para ocultar a identidade, mas por outro serve para revelar uma outra identidade que faz parte de nós e que, em alguns momentos, podemos exprimi-la e expressá-la.

 

Mas isto é algo diferente do teatro e do ator. O ator é um profissional, é alguém que está preparado para entrar na pele do outro, encarnar o outro, no fundo dar espaço para acolher o outro, para o interpretar e representar. Um outro que podem ser vários. Um ator representa vários papeis ao longo da sua carreira.

 

No caso do Carnaval e nestes momentos, não é que a pessoa vá interpretar muitos outros personagens, o sentido não é esse, é um sentido mais libertador de inversão de papeis. A possibilidade de ser agora, algo que normalmente não posso ser.

 

AE – Estamos nas vésperas da Quaresma, apresenta-se um período de moderação, será por isso que há nestes dias uma certa pressa em fazer festa? Ou este calendário religioso já não tem assim tanto peso no quotidiano das pessoas?

JM – Já não tanto… Acho que, como diria o poeta, hoje o Carnaval é sempre que um homem quiser… E, portanto, há várias alturas do ano e há vários acontecimentos sociais em que essa transformação pessoal é possível.

 

AE – E como é que um ator, como é o seu caso, vive estes dias? É um folião?

JM – Em criança e adolescente sim, tinha esse gosto de me mascarar, de me disfarçar, de assumir outros papeis, hoje em dia, pela minha profissão é algo que já faço ao longo do ano e numa outra situação.

 

No Carnaval não há propriamente essa interpretação que um ator faz, há mais essa vontade de liberdade, também de crítica social e de uma grande liberdade pessoal e corporal. É um momento em que os corpos não estão condicionados e as pessoas estão livres para vestir e fantasiar aquilo que querem. São momentos importantes como escape de uma rotina, de acesso a uma outra experiência, uma outra forma de estar.

 

AE – Apesar de toda a importação de estilos carnavalescos, há ainda, no nosso país, momentos celebrativos muito etnográficos que nos remetem para uma identidade dos lugares e das suas gentes…

JM – Sem dúvida, e nós temos riquíssimas tradições. No Norte, temos os Caretos que é uma tradição fortíssima, tal como os bonecos, os gigantones. E ainda bem que temos esta tradição portuguesa de celebrar o Carnaval. De alguma forma fomos nós que a globalizámos. Nomeadamente o Carnaval no Brasil foi muito influenciado pelo Carnaval da Madeira, porque a ilha era um ponto de passagem… E mesmo hoje em dia, essas celebrações são ainda muito fortes na Madeira, de onde foram levadas para o Brasil, onde se misturaram com uma cultura própria.

Temos tradições que são longínquas e ancestrais, nomeadamente a do Entrudo que está relacionado também com estas festividades do Carnaval. O Entrudo como um introito, o início da Quaresma, este período de libertação, que tinha também o costume de lançar água que ficou hoje guardada nas bisnagas dos miúdos.

 

AE – É também uma época propícia à crítica social, ou seja, na festa, aproveitar para dizer as verdades e anunciar aquilo que o povo pensa?

 

JM – Sem dúvida! Isso é até um fator muito importante em termos sociais. Claro que hoje em dia, ao longo do ano, temos os humoristas que fazem isso. Mas no Carnaval, de uma forma popular, isso é muito vivenciado. Daí a expressão, no Carnaval ninguém leva a mal.

 

AE – Falamos do Carnaval, falamos da Quaresma, são como que portas que nos permitem passar de uma realidade à outra, como que arrumando o ano em momentos com características próprias?

JM – São ciclos da vida e intimamente relacionados com os ciclos da natureza, apesar das estações do ano hoje já não serem como eram. A verdade é que a própria vida humana necessita destes ciclos, de momentos propícios a determinados tipos de atividades e expressões. Se precisamos de momentos de alegria e de folia, também precisamos de momentos de reflexão sobre a nossa própria vida, sobre a sociedade e sobre o mundo, sem dúvida.

 

AE – Como purificação do excesso dos dias passados?

JM – Sim, de alguma forma é verdade. E essa complementaridade é muito humana, é quase biológica e a própria natureza faz isso e isso repercute-se no próprio viver e no sentido humano sem dúvida.

 

AE – Como é que um dia se apaixonou pelo teatro?

JM – Justamente por esta vontade de querer saber o que é estar na pele do outro. O que é estar num outro tempo, num outro lugar, num outro espaço, num outro corpo e sentir o que se pensa… E essa relação humana para mim foi muito importante. E ao mesmo tempo é uma forma de autoconhecimento, ou seja, eu colocando-me no lugar do outro, descubro em mim dimensões que até então desconhecia.

 

AE – É uma pedagogia? Ajuda a crescer interiormente?

JM – Sem dúvida. E por isso o teatro e a educação estão intimamente ligados, porque é uma experiência fundamental, especialmente nos dias que correm, em que há tantas tecnologias. Vivemos rodeados de écrans de todas as dimensões e é preciso não perder esta dimensão do humano de realmente podermos estar olhos nos olhos e sentir a respiração do outro e nos podermos tocar. E isso tem essa componente pedagógica muito forte.

 

AE – É diretor artístico do Teatro Académico da Universidade de Lisboa, como é que os estudantes vivem hoje esta realidade do teatro?

JM – Cada vez com mais interesse e com mais intensidade. Eu também comecei no teatro universitário, estudava na altura ciências farmacêuticas e, por causa do teatro, acabei por não terminar o meu curso e ir para a Escola Superior de Teatro e Cinema.

É uma experiência muito rica, porque há alunos de todos os cursos, desde medicina, a direito, economia, veterinária, engenharia e todos eles comungam desta experiência que é estar juntos, construir algo juntos e, ao mesmo tempo, no processo de formação, enriquecer-se com o desenvolvimento destas componentes pessoais, aquilo que se chama hoje as soft skills, estas competências de falar em público, de falar com os outros, de trabalhar em equipa…

 

AE – Estes dias de Carnaval podem ser ocasião para se descobrir o gosto pelo teatro?

 

JM – Ás vezes pode acontecer, mas eu acho que são realidades diferentes. O Carnaval é algo mais espontâneo, de liberdade pessoal, coletiva e de festa.

 

AE – É um festejar também em comunidade, ninguém festeja o Carnaval sozinho.

JM – Sim e não há a preocupação de contar uma história, transmitir algo… o Carnaval é uma experiência coletiva de festa.

 

 

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