Francisco alerta para persistência de mentalidade colonialista

Foto: Lusa/EPA

Cidade do Vaticano, 30 jul 2022 (Ecclesia) – O Papa disse hoje que as políticas de assimilação cultural e de ocupação do território indígena, no Canadá, representaram um “genocídio”, palava que não usou durante a sua viagem ao país, concluída na sexta-feira.

“É verdade, não usei a palavra porque não me veio à mente, mas descrevi o genocídio e pedi desculpas, perdão, por esse trabalho [nas escolas residenciais] que é genocida”, referiu, na conferência de imprensa a bordo do avião que o transportou até Roma.

Francisco respondia à questão de uma jornalista canadiana, recordando que, nos seus discursos e homilias, condenou as práticas que levaram as potências coloniais a “tirar as crianças, mudar a cultura, mudar as mentalidades, mudar as tradições, mudar uma raça – por assim dizer – toda uma cultura”.

“Sim, é uma palavra técnica. Genocídio. Não a usei porque não me veio à cabeça, mas descrevi… é verdade, sim, sim é genocídio. Não se preocupe, pode relatar que eu disse que foi genocídio”, acrescentou.

Estima-se que 150 mil crianças indígenas tenham sido forçadas a frequentar escolas residenciais, um sistema de orfanato promovido pelo Governo, para a “assimilação” cultural destas populações, entre finais do século XIX e o séc. XX; mais de 60% destas escolas foram administradas pela Igreja Católica.

Em 2015, após sete anos de investigação, a Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá divulgou um relatório sobre escolas residenciais, revelando que entre 1890 e 1996 mais de 3 mil crianças morreram por causa de doenças, fome, frio e outros motivos.

O Papa falou ainda do que considerou como “doutrina da colonização”, observando que “é má, é injusta e ainda é usada hoje.

“Na nossa colonização, na América – a dos ingleses, dos franceses, dos espanhóis e dos portugueses – sempre existiu esse perigo, mesmo essa mentalidade: somos superiores e os nativos não contam. E isso é sério”, advertiu.

Foto: Lusa/EPA

Questionado sobre se a não revogação da chamada “doutrina da descoberta” teria sido uma “oportunidade perdida”, Francisco assumiu a necessidade de “ir atrás e curar o que foi feito de errado, na consciência de que o colonialismo existe hoje”.

A questão liga-se a documentos papais, do séc. XV, utilizados para justificar a apropriação de territórios indígenas, por parte das potências europeias; o conceito chegou a ser aplicado nos processos entre os novos Estados da federação americana e os povos nativos, tendo mpacto nas leis de propriedade.

O Papa recordou que, no pensamento da época “não só [os indígenas] eram considerados inferiores como alguns teólogos, um pouco tontos, questionavam se teriam alma”.

O Vaticano cita, a este respeito, a Bula ‘Sublimis Deus’, de Paulo III, de 1537: “Definimos e declaramos que os mencionados índios e todos os outros povos que posteriormente venham a ser descobertos pelos cristãos, de modo algum devem ser privados da sua liberdade e posse dos seus bens”.

Francisco evocou o drama “criminoso” da escravatura, sublinhando que algumas vozes da Igreja se opuseram a estas práticas, mas “eram a minoria”.

“A consciência da igualdade humana chegou lentamente. Digo a consciência, porque no inconsciente ainda há algo: temos sempre uma atitude colonialista, de reduzir as outras culturas à nossa”, precisou.

O Papa deixou elogios à defesa, nos povos indígenas, de valores perdidos nas sociedades ocidentais, como o da “grande harmonia” com a natureza.

Já no final do diálogo com os jornalistas, que durou mais de meia hora, Francisco destacou que a viagem ao Canadá foi muito ligada à figura de Santa Ana – com passagens pelo Lago homónimo e a basílica que lhe é dedicada, locais tradicionais de peregrinação dos povos indígenas.

“Sublinhei algo que é claro: a fé deve ser transmitida em dialeto, e o dialeto – disse-o claramente – maternal, o dialeto das avós. Recebemos a fé nessa forma dialetal feminina, e isso é muito importante: o papel das mulheres na transmissão da fé e no desenvolvimento da fé”, indicou.

Francisco defendeu a importância de “entrar nesse pensamento da Igreja feminina, da Igreja mãe”, superando “qualquer fantasia ministerial dominada por homens ou qualquer poder dominado por homens”.

OC

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