«Caminhos na minha terra»: Os lugares de Eva Neves da nascente de Alcobertas à Catedral de Santarém

Conservadora do Museu Diocesano visitou igreja onde celebrou os sacramentos de iniciação cristã, casou e batizou os filhos e a Capela Dourada, onde coordenou a intervenção de conservação e restauro

Santarém, 20 ago 2026 (Ecclesia) – Eva Neves, da Comissão dos Bens Culturais da Igreja da Diocese de Santarém, apresenta hoje, no programa Ecclesia, um percurso por locais ligados à sua infância e percurso profissional, incluindo património natural e edificado, desde Rio Maior até à capital do gótico.

“Estamos no meio do Parque Natural Serra de Aire e Candeeiros e este é um dos espaços de referência porque é uma nascente, uma nascente perene deste Parque Natural”, afirmou a conservadora, referindo-se ao Olho de Água de Alcobertas, que se situa numa área de maciço calcário extremenho.

Caracterizado pela “beleza natural”, Eva Neves destaca que este lugar é marcado pela “riqueza patrimonial do encontro das pessoas”, sobretudo noutros tempos, quando ali se deslocavam para recolher água para consumo próprio e para os animais, bem como para lavar a roupa.

Natural da paróquia de Alcobertas, a entrevistada conta que esta nascente é a sua “vista diária” desde que nasceu, tendo sempre morado ali proximamente, e confessa que este foi um espaço que lhe fez “muita falta” quando saiu para ir estudar, devido à “tranquilidade” que transmite.

Na mesma localidade, que pertence ao concelho de Rio Maior, encontra-se a igreja de Santa Maria Madalena que, descreve a conservadora, está associada a um “extraordinário monumento do período neolítico”, “uma anta que se tornou capela” e que está “na origem do culto cristão”.

“Este templo funerário do megalítico foi adaptado posteriormente, talvez no século XV, XVI” para se tornar “um lugar de culto cristianizado”, indica Eva Neves, que relata que depois foi colocada, por cima da estrutura, “uma cobertura”.

“Este é um dos únicos monumentos deste cariz na Península Ibérica, serão cerca de dez, e antas-capelas em Portugal também temos muito poucas, sendo que esta será a mais extraordinária e por isso é que é imóvel de interesse público, um dos poucos patrimónios deste concelho que tem este nível de classificação”, disse.

Esta igreja é o “primeiro contacto” que a conservadora do Museu Diocesano de Santarém tem com o património, tendo ali sido batizada, realizado todos os sacramentos de iniciação cristã, celebrado o casamento e batizado os filhos.

“Nós na escola começávamos por estudar como sendo um monumento de exceção aqui na nossa comunidade e tínhamos muito gosto em divulgá-lo e preservá-lo por isso mesmo. Sem saber o que seria a minha vida futura aqui nesta igreja, destaca.

Em Santarém, encontra-se outro templo, conhecido como Capela Dourada e que consiste na Capela dos Terceiros de São Francisco, um pequeno edifício anexo à Igreja do Convento de Nossa Senhora de Jesus do Sítio.

“É um espaço que é construído já nos últimos 40 anos do século XVII e, portanto, tem esta linguagem já também bastante barroca e com esta predominância de obras de arte no seu interior”, começa por dizer Eva Neves.

“E, por esse mesmo motivo, ela também é conhecida como uma obra de arte total, porque reúne aqui desde talha dourada, pintura sobre tela e um conjunto de painéis de azulejos, esses sim que representam a vida de São Francisco de Assis e que pensamos que é também um elemento importante para visitar neste ano, que é um ano franciscano”, salienta.

A Capela Dourada foi adaptada a casa mortuária do Hospital de Jesus Cristo, estrutura que funcionou no complexo desde 1836 até 1985 e onde Eva Neves nasceu.

A conservadora do Museu Diocesano de Santarém visitou esta capela durante o percurso académico durante uma atividade de escuteiros e fiquei sensibilizada pelo seu estado de degradação, na altura longe de imaginar que trabalharia na cidade.

“Nós tínhamos telas rasgadas, telas a cair, tínhamos aqui elementos em talha também muito fragilizados, estruturalmente muito fragilizados, e causou-me muita impressão”, testemunha.

Em 2020-2021, a entrevistada coordena a intervenção de conservação e restauro que lhe devolvem o esplendor à capela.

Ligada ao percurso profissional de Eva Neves está também a Catedral de Santarém, que o define como “um dos mais emblemáticos edifícios” da cidade, não só pela sua monumentalidade, mas por aquilo que oferece no interior e exterior.

Foto: Agência ECCLESIA/LJ, Catedral de Santarém

A conservadora destaca os dois tetos pintados, que são “uma referência da produção artística, local, regional e nacional” e o grande retábulo da capela mor e as “duas esculturas produzidas pelo artista italiano” João António Bellini de Pádua.

“É o projeto mais arrojado que trabalhei e onde trabalho diariamente”, referiu Eva Neves.

A Sé Catedral de Santarém está na final regional das Novas 7 Maravilhas de Portugal, nas categorias Século XX e Religião, que se realiza a 29 de agosto.

“Para nós é uma alegria podermos perceber que este património, que é muito significativo”, consta “entre os melhores que estão agora nessa corrida do concurso”, assinalou.

O percurso pela cidade de Santarém encerrou nas Portas do Sol, que Eva Neves realça que representa o momento da reconquista de Santarém aos mouros, por D. Afonso Henriques, em 1847.

“É um dos lugares mais emblemáticos, hoje transformado em jardim, já há muitos anos um jardim da cidade”, elucidou, referindo que o miradouro permite vislumbrar o Tejo e a Lezíria e os concelhos que pertencem ao território da diocese.

“Eu recordo-me também de visitar, em pequena, com os meus pais, portanto, é sempre um ponto de referência. É um lugar fresco, numa cidade que no verão também é um bocadinho mais quente”, indicou.

O programa Ecclesia está a apresentar, em cada quinta-feira do mês de agosto e na primeira de setembro, na RTP2, um percurso pelos “Caminhos na minha terra” de várias personalidades, que destacam lugares que marcaram o seu trajeto de vida e os apresentam como proposta de visita neste verão.

LJ/PR

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