Organização católica trabalha para «defender os povos tradicionais»

Foto: Caritas.org

Lisboa, 25 set 2019 (Ecclesia) – A Cáritas Internacional afirma a defesa e apoio das “pessoas tradicionais” na Amazónia e refere que estas “estão com muito medo”, segundo os relatos das comunidades indígenas na preparação para o Sínodo dos Bispos dedicado a esta região.

“Sentimo-nos abandonados pelo Governo; o problema dos incêndios não é novo, mas costumava acontecer de forma oculta. Agora está aberto”, disse um líder da comunidade Tururukare, citado pela ‘Caritas Internationalis’.

A confederação de organismos católicos de solidariedade  divulga que foram registados “mais de 100 mil incêndios” no Brasil até o final do mês agosto, 73 mil dos quais na Amazónia.

A comunidade indígena Tururukare sente-se em “risco”, dado que os fogos florestais estão mais próximos e “dependem inteiramente” da floresta, desde a pesca a plantas para alimentação, aos remédios tradicionais e o artesanato.

“Temos medo pelo futuro dos nossos filhos”, afirmou o líder da comunidade.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (INPE) indicou que a maior parte dos fogos nesta região têm ação humana e, segundo dados de satélite, houve um aumento de 85% de incêndios no país em comparação com 2018.

“A Amazónia está sob séria ameaça, devido à expansão maciça de fazendas de gado, plantações de soja, mineração, desmatamento e expulsão de comunidades de suas terras”, afirmou o advogado de direitos humanos José Batista Afonso, que trabalha para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), no Estado do Pará.

A Cáritas revela que as comunidades indígenas e outras “não têm dúvidas” que os incêndios são provocados por “agricultores sem escrúpulos” para se apropriarem de terras que “devem ser protegidas por lei como florestas nacionais e território indígena”.

Segundo José Batista Afonso estão “no meio de um grande conflito”, de um lado estão os que “lutam para proteger a floresta e os seus povos” e do outro “aqueles que querem destruí-la”.

Neste contexto, o advogado que trabalha com a CPT, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, contabiliza que registaram mais de 900 assassinatos de trabalhadores rurais e defensores dos direitos à terra em 50 anos apenas no Pará, estado no norte do país lusófono.

A Cáritas destaca que a Amazónia está “no coração” da Igreja e dá como exemplo o Sínodo dos Bispos dedicado a esta região, que foi convocado pelo Papa Francisco, vai decorrer de 6 a 27 de outubro, no Vaticano.

Com 185 participantes, o sínodo especial para a região Pan-Amazónica tem como tema ‘Amazónia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral’.

Neste contexto, dá outros exemplos, como o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC) no Brasil que apoiou esta assembleia, no final de agosto, a Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM) que alertou para a situação de “extrema gravidade”, um “ponto de não retorno”, que se vive na região, e ajudou na consulta de 87 mil pessoas.

A rede da Caritas Brasil tem 29 membros na Amazónia a trabalhar para “fortalecer e apoiar” as “pessoas tradicionais do país”, que são os “grupos indígenas, os habitantes do rio, os quilombolas (descendentes de escravos afro-brasileiros)” e as populações urbanas que “vivem em condições economicamente vulneráveis”.

A região pan-amazónica tem uma extensão de 7,8 milhões de km2, incluindo áreas do Brasil, Bolívia, Perú, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa; dos seus cerca de 33 milhões de habitantes, 3 milhões são indígenas pertencentes a 390 grupos ou povos.

Esta terça-feira, na Assembleia Geral da ONU, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, considerou que existem “falácias” na informação sobre a Amazónia, considerando que a mesma “permanece praticamente intocada” e que o Brasil “é um dos países que mais protegem o meio ambiente”.

O chefe de Estado criticou o que denominou como “ambientalismo radical e indigenismo ultrapassado, que representa o atraso, a marginalização e a total falta de cidadania”.

CB/OC

Partilhar:
Share