Braga: «Sem as Misericórdias, a Cáritas, as Fundações, os Centros Sociais Paroquiais e outros, a sociedade civil ruiria», afirma arcebispo

D. José Cordeiro presidiu à Eucaristia, na Sé Primaz, no final do segundo dia do 15ºCongresso Nacional das Misericórdias

Foto: União das Misericórdias Portuguesas

Braga, 06 jun 2026 (Ecclesia) – O arcebispo de Braga destacou a importância do papel das Santas Casas da Misericórdia e outras instituições sociais no apoio aos mais frágeis em Portugal, na Missa a que presidiu esta sexta-feira na Sé Primaz.

“Sem as Misericórdias, a Cáritas, as Fundações, os Centros Sociais Paroquiais e outros, a sociedade civil ruiria. Honrando o nome que temos, que sejamos rosto de misericórdia, capazes de estar sempre ao lado dos pobres, dos fracos e dos oprimidos”, afirmou D. José Cordeiro, na homilia divulgada no site Arquidiocese.

O arcebispo celebrou a Missa que concluiu o segundo dia do 15º Congresso Nacional das Misericórdias, que se iniciou no dia 4 de junho e termina hoje, no Fórum Braga, com o tema “A atualidade de uma evolução segura”.

D. José Cordeiro alertou que, “tal como no século XV, no século XXI continuam a existir pobres, marginalizados e abandonados” e que, por isso, “a missão das Santas Casas da Misericórdia continua atual sendo um pilar fundamental do setor social em Portugal”.

“Por isso, agradeço o vosso serviço dedicado àqueles que mais precisam”, expressou.

Ser misericordioso é sentir as dores do outro como se fossem as nossas próprias dores; é pôr o nosso coração sobre a miséria do outro”, assinalou o arcebispo.

Na homilia, D. José Cordeiro fez referência “aos tremendos avanços tecnológicos, lembrando a primeira encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas” (a magnífica humanidade), publicada a 25 de maio.

“Num tempo em que em que parece que alguns defendem que a inteligência artificial irá resolver todos os problemas; num tempo em que alguns querem fazer crer que a dignidade de uma pessoa depende da sua eficiência ou da sua produtividade […] ouso dizer que a missão das Santas Casas da Misericórdia de Portugal neste séc. XXI é humanizar e misericordiar, para vencermos a lógica da eficiência e utilidade”, referiu.

Foto: União das Misericórdias Portuguesas

O arcebispo recordou que “aqueles que dirigem as Misericórdias em Portugal tem a particular missão de orientar toda a sua ação colocando a dignidade de cada pessoa como foco principal da sua atividade assistencial, olhando para Cristo como modelo da humanidade redimida”.

O responsável católico exortou a “zelar para que aqueles que trabalham nas suas valências vejam reconhecidos os seus direitos laborais e lhes seja pedido que exerçam as suas profissões no respeito pela dignidade de cada utente, porque um ser humano será sempre um fim e nunca um meio ou um instrumento para atingir determinado objetivo”.

“Do mesmo modo, os utentes das Misericórdias, novos ou velhos, devem ser olhados como um outro igual em dignidade ao qual, pela graça batismal, sou chamado a tratar como um irmão, colocando-me sempre na disponibilidade de o carregar e de lhe tratar as feridas”, defendeu.

O 5.º Congresso Nacional das Misericórdias reúne dirigentes, especialistas, decisores políticos e representantes das Santas Casas de todo o país para refletirem sobre os desafios e oportunidades do setor social em Portugal.

O segundo dia deste encontro ficou marcado pela reflexão em torno dos principais desafios que o setor enfrenta, com enfoque na transformação digital, no envelhecimento e na construção de respostas sustentáveis na área da saúde e da ação social.

O secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, Silvério Regalado, realçou o papel das Misericórdias como “pilar fundamental na coesão territorial”, ressaltando a importância de lhes assegurar estabilidade para continuarem a responder às necessidades do país.

O governante foi um dos intervenientes do painel sobre a sustentabilidade do setor, no qual foi sublinhada a necessidade de garantir maior previsibilidade financeira e novos modelos de financiamento para estas instituições.

“A maior parte” delas, assinalou José Rabaça, vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), “precisa de investimento para adequar e qualificar os seus equipamentos às exigências legais e às necessidades dos utentes”, alertando para as limitações dos atuais mecanismos de financiamento.

Foto: União das Misericórdias Portuguesas

No painel anterior, foi debatida a presença destas instituições na saúde, tendo sido reforçado o seu papel como parceiras estruturais do sistema de saúde, salientando-se também a sua capacidade de resposta de proximidade, integração territorial e complementaridade ao Serviço Nacional de Saúde.

“[Existe] uma parceria não só de confiança, mas acima de tudo uma parceria onde as Misericórdias têm papel determinante para conseguirmos responder às necessidades crescentes que os nossos cidadãos têm neste século”, disse a ministra da saúde, Ana Paula Martins.

Humberto Carneiro, vice-presidente da UMP, frisou que estas instituições têm mantido uma intervenção consistente nesta área, muitas vezes onde o Estado não consegue chegar, assumindo-se como “âncoras de coesão social” e agentes essenciais na prestação de cuidados, desde os cuidados de saúde primários até aos hospitalares e continuados.

“Foram também identificados desafios estruturais, como o elevado número de internamentos sociais, que comprometem a capacidade do SNS, o subfinanciamento da rede e a necessidade de requalificar infraestruturas e melhorar o aproveitamento da capacidade instalada”, informa o comunicado da UMP.

Na parte da manhã, o congresso destacou a necessidade de colocar a tecnologia ao serviço da pessoa, num equilíbrio entre inovação e identidade, sublinhando-se que a inteligência artificial constitui uma oportunidade para melhorar a eficiência e a gestão de recursos, mas levanta alguns riscos relevantes.

Foto: União das Misericórdias Portuguesas

No painel dedicado ao “Envelhecimento e felicidade”, foi evidenciada a necessidade de alinhar políticas públicas e respostas institucionais com uma abordagem mais humana e integrada ao envelhecimento.

A secretária de Estado da Ação Social e da Inclusão, Clara Marques Mendes, enfatizou a urgência de passar da reflexão à ação, referindo as medidas adotadas ao nível da comparticipação e correção de desigualdades.

Além disso, indicou a necessidade de uma estratégia nacional para a longevidade, articulada com a área da saúde e orientada para garantir qualidade de vida e liberdade de escolha entre permanecer em casa ou recorrer a respostas residenciais.

Notícia atualizada às 14h10

LJ

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