«Rogito» transcreve, na íntegra, declaração de renúncia pronunciada pelo Papa em 2013

Foto: Vatican Media

Octávio Carmo, enviado da Agência ECCLESIA ao Vaticano

Cidade do Vaticano, 05 jan 2022 (Ecclesia) – O Vaticano publicou hoje o texto do “rogito”, elegia em latim, que foi colocada esta quinta-feira no féretro de Bento XVI, sobre os principais atos da vida do falecido Papa emérito, destacando a sua “extraordinária capacidade” teológica.

“Como teólogo de reconhecida autoridade, deixou um rico património de estudos e pesquisas sobre as verdades fundamentais da fé”, pode ler-se, no texto escrito em latim.

Após as 19h00 de quarta-feira, quando a porta da Basílica de São Pedro encerrou portas aos peregrinos e visitantes que se despediram do Papa emérito, o caixão, em madeira de cedro, foi fechado num rito privado.

O mestre das Celebrações Litúrgicas, monsenhor Diego Ravelli, leu o ‘rogito’ e, em seguida, estendeu-se o véu de seda branca sobre o rosto do defunto, que é aspergido com água benta.

Junto ao corpo de Bento XVI foi colocado um saco com as moedas e medalhas cunhadas durante o pontificado, os pálios (insígnia litúrgica que é símbolo de autoridade nas arquidioceses metropolitas, como a de Munique e de Roma, servidas por Joseph Ratzinger) e o tubo com o “rogito”, depois de selado com o selo do Departamento das Celebrações Litúrgicas.

O documento é, oficialmente, a “Escritura para o piedoso trânsito de Sua Santidade Bento XVI, Papa Emérito”.

“À luz de Cristo ressuscitado dos mortos, no dia 31 de dezembro do ano do Senhor 2022, às 09h34 da manhã, quando terminava o ano e estávamos prontos para cantar o Te Deum pelos múltiplos benefícios concedidos pelo Senhor, o amado Pastor emérito da Igreja, Bento XVI, passou deste mundo ao Pai. Toda a Igreja, junto com o Santo Padre Francisco, em oração, acompanhou o seu trânsito”, indica o texto.

“Bento XVI foi o 265.° Papa. A sua memória permanece no coração da Igreja e de toda a humanidade”, acrescenta.

O ‘rogito’ elenca vários momentos da vida de Joseph Aloisius Ratzinger – eleito Papa a 19 de abril de 2005 -, que nasceu em Marktl am Inn, no território da Diocese de Passau (Alemanha), a 16 de abril de 1927.

“O tempo da sua juventude não foi fácil. A fé e a educação da sua família prepararam-no para a dura experiência dos problemas associados ao regime nazi, conhecendo o clima de forte hostilidade para com a Igreja Católica na Alemanha. Nessa situação complexa, ele descobriu a beleza e a verdade da fé em Cristo”, sublinha o documento.

O registo alude à formação teológica do jovem Joseph Ratzinger, a sua participação como perito no Concílio Vaticano II (1962-1965), a nomeação como arcebispo de Munique e Frisinga (Alemanha) e a criação cardinalícia, antes da designação, por João Paulo II, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Como decano do Colégio Cardinalício, presidiu a 8 de abril de 2005 à Missa fúnebre de João Paulo II, sendo eleito como seu sucessor no dia 19 desse mesmo mês.

“Da varanda central da Basílica apresentou-se como ‘humilde trabalhador na vinha do Senhor’. No domingo, 24 de abril de 2005, iniciou solenemente o seu ministério petrino”, relata o documento.

Bento XVI colocou no centro do seu pontificado o tema de Deus e da fé, na procura contínua da face do Senhor Jesus Cristo e ajudando todos a conhecê-lo, em particular mediante a publicação da obra ‘Jesus de Nazaré’, em três volumes. Dotado de vasto e profundo conhecimento bíblico e teológico, teve a extraordinária capacidade de elaborar sínteses iluminadoras sobre os principais temas doutrinários e espirituais, bem como sobre as questões cruciais da vida da Igreja e da cultura contemporânea”.

O documento elenca o magistério doutrinal de Bento XVI, sintetizado nas três encíclicas ‘Deus caritas est’ (25 de dezembro de 2005), ‘Spe salvi’ (30 de novembro de 2007) e ‘Caritas in veritate’ (29 de junho de 2009), além de quatro exortações apostólicas, várias constituições e cartas apostólicas, bem como as catequeses propostas nas audiências gerais e outras intervenções, incluindo as proferidas nas 24 viagens apostólicas que realizou pelo mundo.

A promoção do diálogo ecuménico e inter-religioso, bem como a promoção da Nova Evangelização, perante o “relativismo crescente e o ateísmo prático cada vez mais difundido”, são outros temas destacadas.

A nota biográfica sustenta que Bento XVI “lutou firmemente contra os crimes cometidos por representantes do clero contra menores ou pessoas vulneráveis, chamando continuamente a Igreja à conversão, à oração, à penitência e à purificação”.

O “rogito” transcreve integralmente a declaração, em latim, com que o Papa renunciou ao pontificado na manhã de 11 de fevereiro de 2013, durante um consistório (reunião de cardeais) convocado para decisões ordinárias sobre três canonizações.

“Após uma breve permanência na residência de Castel Gandolfo, viveu os últimos anos de sua vida no Vaticano, no mosteiro Mater Ecclesiae, dedicando-se à oração e à meditação”, acrescenta o documento.

OC

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