Reitora da Universidade católica Portuguesa recorda legado teológico nas instituições académicas de matriz cristã

Lisboa, 31 dez 2022 (Ecclesia) – A Reitora da Universidade Católica Portuguesa lembrou hoje o legado teológico do Papa emérito Bento XVI, falecido esta manhã, e a ponte que procurou fazer para demonstrar a “integração da fé e da razão”.

“Os dois aspetos são, muitas vezes, debatidos entre pessoas que pensam estas matérias fora do enquadramento cristão, como sendo incompatíveis, e o Papa Bento XVI foi alguém que enquanto académico e intelectual, trabalhou e demonstrou nos seus escritos e nos trabalhos que desenvolveu, o comprometimento da articulação entre fé e razão”, explicou à Agência ECCLESIA a professora Isabel Capeloa Gil.

A responsável evidenciou a “figura que deixa uma marca muito importante” não só na Igreja como no “pensamento transversal”, e focou a importância dessa “transversalidade” para as Universidades católicas.

“Foi um dos grandes teólogos do século XX, um grande académico, uma figura particularmente relevante numa área de especialidade da teologia dogmática, mas num aspeto transversal sobre o pensamento e a forma de abordar o conhecimento das universidades, em especial as de matriz católica, é a forma como ele colaborou para demonstrar a integração a fé e a razão, evidenciando que a fé não é meramente um ato intuitivo, mas se revela na sua profundidade cognitiva e racional”, sustentou.

“Algo que é particularmente importante numa Universidade de matriz católica: autónoma, independente e livre no desenvolvimento e na procura do conhecimento em todas as suas dimensões, e que essa sua autonomia e liberdade, não é contraditório com os princípios da iluminação da fé”, acrescentou.

O Papa emérito Bento XVI faleceu hoje aos 95 anos de idade, anunciou o Vaticano; Bento XVI, eleito em abril de 2005 para suceder a João Paulo II, tinha renunciado ao pontificado em fevereiro de 2013, mantendo uma vida reservada no Mosteiro ‘Mater Eclesiae’, do Vaticano.

As cerimónias fúnebres estão marcadas para quinta-feira, dia 5 de janeiro, na Praça de São Pedro, às 9h30.

Isabel Capeloa Gil destaca o reconhecimento “tanto por pensadores e académicos de matriz católica, como os que não eram crentes”, perante a “qualidade do pensamento filosófico e teológico” de Bento XVI.

A reitora da UCP lembra ainda a marca do acolhimento no Papa emérito, procurando que a compreensão chegasse a todos.

“Bento XVI conseguiu conciliar, o que podemos considerar, um certo conservadorismo na defesa intransigente da matriz católica com uma abertura à renovação, por exemplo, litúrgica – participou no Concilio vaticano II e entendeu essa renovação – mas ao mesmo tempo acolheu no seio da Igreja os que se tinham manifestado por uma visão mais integrista – refiro-me aos quatro bispos ordenados por monsenhor Lefebvre”, recorda.

Isabel Capeloa Gil assinala não ser “por acaso” o nome da sua primeira encíclica – «Deus é amor» – revelando “entender a relação com o mundo, com os que pensam como ele e os que não pensavam como ele, numa lógica de acolhimento e caridade, quer dentro da Igreja como para fora, na relação com os não crentes”.

A responsável reflete ainda sobre a intelectualidade e a popularidade marcaram a perceção pública do Papa emérito.

“O Papa Bento XVI surge no contexto de dois Papas muito populares em termos de comunicação, São João Paulo II e Francisco, apresenta uma matriz de intelectualidade e uma introspeção que não era de fácil entendimento para os que não dominavam um contexto e isso levou a que por vezes alguns dos seus discursos, nomeadamente o discurso de Ratisbonna, que é um discurso sobre tolerância, acolhimento, abertura, integração e relação entre religiões distintas, fosse mal entendido”, finaliza.

LS

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