D. Carlos Azevedo destaca «produção teológica assinalável» e lembra a viagem a Portugal

Roma, 05 jan 2023 (Ecclesia) – D. Carlos Azevedo, delegado do Comité Pontifício das Ciências Históricas (Santa Sé), afirma que Bento XVI “foi sempre um inquiridor”, procurando ele próprio “dar uma resposta de fé às questões”, um legado teológico que “vai ser lido e usufruído”.

“Ele faz-nos dar os passos, nos seus passinhos pequeninos de andar. Também é nos passinhos curtos que ele nos ajuda a fazer para chegar ao essencial, e não se perde em questões secundárias, em minudências teológicas, mas trata dos grandes problemas, das grandes questões, que interessam verdadeiramente a quem anda à busca da fé, essa inquirição da fé”, disse o bispo português em declarações à Agência ECCLESIA.

D. Carlos Azevedo explica que Joseph Ratzinger “é um inquiridor” porque se questiona e deixa-se questionar “pela complexidade da cultura contemporânea, e não foge às questões”, mas toma uma questão e desenvolve-a com um discurso, “uma fluidez”, que é como uma “torrente de discurso teológico” que se podem “acompanhar, e isso seduz”.

O delegado do Comité Pontifício das Ciências Históricas da Santa Sé acrescenta que “foi sempre um inquiridor, um questionador”, que procura “dar uma resposta de fé às questões” e começa na obra ‘Introdução ao Cristianismo’ (1968), “que é um clássico da História da Teologia”.

“Penso que é aí que ele começa a revelar aquilo que depois, talvez, quando lhe entregam o cargo da [Congregação] Doutrina da Fé (1981) muda um pouco a figura. Ele assume, talvez com a sua timidez e com o seu próprio caráter, essa função e na altura havia algumas tentações teológicas, um pouco atrevidas, que podiam quebrar a unidade da fé, e ele está ao serviço do Papa, isto é da presidência da unidade da fé”, desenvolveu, lembrando também a ‘Trilogia de Jesus’, “outro clássico que deixa para a Teologia”.

Bento XVI, Papa entre 2005 e 2013, faleceu a 31 de dezembro de 2022, aos 95 anos de idade; a Missa exequial, presidida pelo Papa Francisco esta quinta-feira, 5 de janeiro, reuniu milhares de pessoas na Praça de São Pedro.

O delegado do Comité Pontifício das Ciências Históricas da Santa Sé assinala que os volumes da sua obra são de “uma produção teológica assinalável”, e Bento XVI pode ser declarado “’Doutor da Igreja’ se vier a ser santo”, mas “o legado teológico, seja declarado ou não, é inegável que vai ser lido e usufruído”.

Segundo D. Carlos Azevedo, vão surgir “muitas teses de doutoramento” e muitas pessoas vão “aprofundar todo este legado” e, para fazer passar isto para o povo de Deus, “é necessário que os pastores sejam pedagogos” para ajudarem a transmitir e a continuar a trazer a “vitalidade do seu discurso como contributo para iluminar a fé”.

Um ‘doutor’ é alguém reconhecido pela Igreja Católica como exemplo de “santidade de vida, ortodoxia doutrinal e ciência sagrada”; o título foi atribuído, até hoje, a 38 homens e mulheres da Igreja, incluindo Santo António de Lisboa, pelo Papa Pio XII, em 1946.

A “hermenêutica de Fátima” foi, para D. Carlos Azevedo, “o maior serviço” que Joseph Ratzinger fez a Portugal: foi o primeiro a fazer uma leitura destes acontecimentos “do ponto de vista teológico” e começou-se a aprofundar a linha de “uma certa visão profética que carateriza a mensagem de Fátima”.

“O tal inquiridor que vai aprofundando o que está num texto para lhe dar o conteúdo teológico essencial”, salientou.

O bispo português foi o coordenador da viagem apostólica de Bento XVI a Portugal, em 2010, realizada entre 11 e 14 de maio, com passagens por Lisboa, Fátima e Porto.

O que mais marcou D. Carlos Azevedo foi a “interação” que o Papa criou “com as pessoas” e “o povo de Deus foi capaz de o reconhecer”, que sentiu “no jantar em Fátima” e em outros momentos, como quando o cumprimentou quando seguia na procissão inicial no santuário, “antes de beijar o altar”.

“Não ficou registado esse momento e isto é pessoal, mas multiplica-se por tantos pequenos gestos”, realça, recordando que, em Lisboa, na viagem para o Centro Cultural de Belém, “mandou parar o carro para saudar uma criança”.

D. Carlos Azevedo destacou ainda mais dois momentos de Bento XVI em Portugal que “fazem estremecer”, a sua “ternura filial”: quando entregou a Rosa de Ouro no Santuário de Fátima, e ficou a olhar “a expressão de ternura filial com Maria”, e o “silêncio da multidão” na Missa na Praça do Comércio.

OC/CB/PR

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