Aveiro: Homilia de D. António Moiteiro na Paixão de Jesus

Foto Diocese de Aveiro

Tudo está consumado

  1. O caminho da cruz

A leitura da Paixão de Jesus coloca diante de nós o servo sofredor que carrega a cruz, mas também todas as dores da humanidade. Como refere S. Paulo: “Completo na minha carne o que falta à paixão de Jesus”. Quantos acontecimentos de dor e de sofrimento existem hoje no mundo em que vivemos, quantas mortes sem sentido, quantas famílias desfeitas, quanta humanidade destroçada e perdida! Porquê tantas crianças mortas por falta de alimentos? Porquê tanta solidão dos nossos irmãos mais idosos? Porquê tanta exploração, humilhação, calúnia, massacres, pobreza e pessoas sem futuro?

A paixão de Jesus, segundo o Evangelho de S. João, é como que uma via-sacra onde somos convidados a ter esperança, contemplando, com os olhos da fé, alguns dos encontros de Jesus na sua entrega pela humanidade.

De entre as pessoas que estão junto da cruz está a mãe de Jesus (Jo 19,25-27). A sua presença recorda-nos a primeira vez que é mencionada no Evangelho – nas bodas de Caná. Jesus resistiu a atuar porque ainda não tinha chegado a sua hora, e somente iniciou os seus “sinais” a pedido de sua mãe. Agora, chegou a sua hora e Maria está de novo junto do seu Filho. Ela é a Mãe da Igreja e o “discípulo amado” representa o verdadeiro crente, que é capaz de perseverar até ao fim. A morte de Jesus é fonte de fecundidade, porque graças a ela a sua mãe converter-se-á em mãe de todos os seus discípulos. Ela, que é a nova Eva, é capaz de dar luz a uma humanidade renovada.

  1. “Tenho sede”

Jesus crucificado tem sede (Jo 19,28-30) porque o seu corpo está desidratado. A sua morte acontece quando tudo “está consumado”, isto é, quando o projeto amoroso de Deus, anunciado por meio das Escrituras, atingiu a sua plenitude (Jo 13,1). As suas palavras na cruz são um grito de vitória, porque chegou com êxito ao final da sua corrida.

O peito aberto pela lança do soldado (Jo 19,31-37) faz jorrar sangue e água. O sangue recorda-nos que a morte de Jesus aconteceu realmente e que a sua entrega é fonte de vida para nós: “Se não comerdes a carne do filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei de ressuscitá-lo no último dia” (Jo 6,53-54). A água simboliza o Espírito que fecunda e purifica o crente (Jo 3,5: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” – diz Jesus a Nicodemos. É o mesmo Espírito que Jesus tinha prometido quando disse que do seu coração correrão rios de água viva (Jo 7,37-39).

Contemplar o Crucificado com os olhos da fé cura-nos, salva-nos e dá-nos a vida eterna (Jo 3,14-15: “Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também o Filho do homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna”. Fixar o nosso olhar no Crucificado trespassado por nós exige que nos solidarizemos com o seu destino. Olhar o seu coração aberto leva-nos a compreender que o seu amor por nós é sem limites. A cruz converteu-se, para Jesus e para nós, num trono de glória.

  1. “Eis o Homem!”

Se queremos encontrar algo de luz que ilumine as nossas perguntas temos de saber escutar com os ouvidos do coração o que Deus tem para nos transmitir: Eis o Homem; é a resposta que Deus nos oferece nas palavras de Pilatos; não a resposta que eu quero escutar, porque é uma palavra profética, mas a resposta de Deus, que alguma coisa quer de nós. “Jesus saiu com a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Disse-lhes Pilatos: Eis o Homem!” (Jo 19,5).

Pode ser muito duro para os corações de cada um de nós e das pessoas do nosso tempo escutar que Deus não veio eliminar a dor e o sofrimento. Deus não deu explicações, nem as dará. Mas a sua resposta é a de um pai que ama loucamente e que partilha a nossa condição humana, tomando sobre si todo o nosso sofrimento. Ele veio assumir as nossas dores para lhes dar outro significado, porque a partir do dia em que Jesus foi oferecido como espetáculo na humilhação e no sofrimento, o divino e o humano identificam-se até constituírem um verdadeiro sacramento oferecido a todos, crentes ou não, batizados ou não, pecadores e inocentes. É um sacramento de vida para todos.

O mesmo evangelista João que hoje narra a paixão de Jesus é o mesmo que nos anunciará que a pedra do sepulcro foi retirada e que Jesus nos indica o caminho de um novo êxodo, o qual leva a uma vida nova.

Aveiro, 29 de março de 2024.
 António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro

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